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Mãe e filha, Jane e Lethicia irão juntas disputar Paraolimpíada de Tóquio

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lethicia Rodrigues cresceu vendo a mãe sair de casa para competir e voltar com medalhas. Jane Karla Gögel abandonou o esporte em que era um dos principais nomes do país para abraçar outro, em boa parte, pela filha.

Elas ficarão separadas neste domingo (9), Dia das Mães no Brasil, para estarem juntas entre o final de agosto e início de setembro deste ano, em Tóquio. As duas estão classificadas para a Paraolimpíada e treinam em cidades diferentes de Portugal, país em que vivem desde 2018.

Lethicia, 18, vive e treina em Sintra para a competição de tênis de mesa , 120 km distante de Jane Karla, 45, que mora e se prepara para o tiro com arco em Almeirim, distrito de Santarém (94 km de Lisboa).

"Quando eu vi que havia essa possibilidade [de estar junto com a mãe nos Jogos] fiquei nas nuvens. Será minha primeira Paraolímpiada e dividir esse momento histórico vai ser surreal. Eu quero aproveitar cada coisa nova com ela, que já é experiente e pode me ajudar em qualquer dúvida que eu tiver", afirma Lethicia.

Jane Karla participou do tênis de mesa em Pequim-2008 e Londres-2012. Em 2015, migrou para o tiro com arco composto e disputou a Rio-2016.

"Todo mundo falou que eu estava louca quando disse que ia mudar de modalidade", relembra Jane, que teve poliomielite aos três anos e começou no esporte apenas aos 28, em Goiânia. "Quando eu cresci, as pessoas com deficiências eram afastadas. Nas aulas de educação física, eu ficava na sala fazendo trabalhos. Quando descobri o tênis de mesa, foi amor à primeira raquetada."

A necessidade de ficar de pé para treinar e competir lhe causava fortes dores nos pés, algo que ela confessa ter sido insuportável às vezes. Mas não foi por isso que trocou de esporte em 2016, meses antes da Paraolimpíada do Rio. Foi por causa da família. Um ano antes, ela e sua mãe, avó de Lethicia, tiveram câncer de mama ao mesmo tempo.

"Na preparação [para Rio-2016], os atletas teriam de ir treinar em Piracicaba. Estava muito difícil para mim. Eu teria de deixar minha família em Goiânia e todo mundo tinha sofrido bastante. Queria estar perto deles. Quando eu ligava para casa e falava com a Lethicia, ela não parava de chorar e aquilo me cortava o coração. Tinha a sensação que estava abandonando meus filhos. Decidi ir para casa", completa Jane Karla.

Ela começou a procurar outra modalidade. Adorou esgrima, mas teria de viajar para o Rio Grande do Sul e treinar. Não resolvia seu problema. Foi quando descobriu o tiro com arco. "Quando acertei o alvo pela primeira vez, pensei: esse é o meu esporte", enfatiza.

Virou obsessão e ela praticava todos os dias, de manhã até à noite. A primeira a chegar e a última a ir embora. Conseguiu a vaga na nova modalidade para os Jogos do Rio.

Quando isso aconteceu, Lethicia já estava apaixonada pelo tênis de mesa. Iniciou aos sete anos por influência da mãe. Na época, disputava torneios para pessoas sem necessidades especiais. Isso durou até os 13, quando as dores a mantiveram em uma cadeira de rodas. Suas pernas travavam e a garota não conseguia se mexer.

"Os médicos não sabem qual é a minha deficiência. Não há um diagnóstico, mas acreditam ser algo genético que herdei da minha mãe. Eram crises de dores muito, muito fortes. Foi um período muito complicado, eu não conseguia andar, tinha inflamações nas articulações, desgaste no quadril. Parei com tudo", lembra ela, que foi campeã brasileira mirim em duplas.

Após uma conversa de mãe e filha, a menina decidiu tentar a modalidade paraolímpica. Ainda sente dores, mas as supera. "Meu joelho incha muito, mas não tenho aquelas crises de antes. Sei que tenho problema ósseo, principalmente no quadril, que dói. O médico disse não aconselhar esportes de impacto, mas não iria me proibir. No fim, foi uma escolha minha continuar no tênis de mesa", revela Lethicia.

Para as duas, depois de tudo, as vagas na Paraolímpíada de Tóquio serão a recompensa. Porque algo sempre colocado por Jane Karla na cabeça da filha é que o esporte paraolímpico não é algo social. Não é para apenas manter as pessoas em atividade. É competição, como qualquer outra. E em qualquer esporte de alto nível e que exige horas e horas de treinamento, isso significa sentir dor. Faz parte do pacote.

Lethicia garantiu a vaga para Tóquio no ano passado, após uma etapa do Mundial. Obteve vitórias que aumentaram sua pontuação e posição no ranking. Melhor das Américas, ela disputa a classe 8 do tênis de mesa paraolímpico. A modalidade é dividida entre categorias de 8 a 10, de acordo com os problemas de mobilidade dos competidores.

Até a semana passada, Jane Karla esperava a confirmação do seu lugar nos Jogos. Ela o havia conquistado, mas a vaga, de acordo com as regras, pertence ao país, não ao atleta. Teria de haver uma indicação da confederação da modalidade. Ela já recebeu o telefonema dizendo que poderia ficar tranquila. Vai a Tóquio.

"Não tenho nem palavras. Vai ser melhor ainda por estar junto com a Lethicia, uma torcendo pela outra. Vamos ver se as datas das nossas competições não se chocam. Será um momento único", comemora.

A família se mudou para Portugal em 2018, após sofrer um assalto violento em Goiânia, onde viviam. Marido de Jane Karla e padrasto de Lethicia, o alemão Joachim Gögel foi levado como refém por assaltantes. Ele é técnico de tênis de mesa e também migrou para o tiro com arco para ajudar a esposa.

Em Portugal, o Dia das Mães acontece apenas em 8 de dezembro. Mas isso não vai impedi-las de celebrar a data brasileira, mesmo que separadas pelos treinos. Jane alugou um quarto para Lethicia em Sintra para que a garota pudesse se preparar. Em Almeirim, ela ficou quase oito meses parada por causa da pandemia.

"Minha mãe sempre foi muito mais amiga do que qualquer outra coisa. Sempre que a gente teve qualquer tipo de conversa, ela disse para eu fazer o que meu coração pede. Eu também experimentei o tiro com arco e ela me apoiou a voltar ao tênis de mesa. É uma parceria muito boa. Ela confia muito em mim, e eu confio muito nela", finaliza a filha.