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Máscaras e computadores 'despioram' previsão da OMC para comércio global

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
·4 minutos de leitura

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Menos viagens e jantares fizeram sobrara dinheiro para mais produtos médicos e computadores. A combinação de impactos da pandemia de coronavírus fez com que o comércio global não caísse tanto quanto se esperava, afirmou nesta terça (6) a OMC (Organização Mundial do Comércio). Em sua revisão de estimativas para 2020 e 2021, a entidade agora prevê que comércio mundial de mercadorias se contraia em 9,2% neste ano, e recupere parcialmente no próximo, com um crescimento de 7,2%. Na previsão anterior, feita em abril, a expectativa era que o comércio de mercadorias caísse 12,9% no melhor dos cenários em 2020, mas o desempenho dos meses de junho e julho foi muito acima do projetado anteriormente. A recuperação prevista para o próximo ano, por outro lado, é menor que a do cenário previsto em abril e ainda deixará o mundo abaixo da tendência pré-crise. As estimativas estão sujeitas a um grau "excepcionalmente alto" de incerteza, segundo a entidade, porque dependem da evolução da pandemia, de descobertas médicas para combater a crise de saúde e das respostas fiscais e monetárias dos governos para segurar o consumo. "O que acontecer neste inverno no hemisfério norte, principalmente em relação à capacidade dos governos de incentivar o consumo, será crucial para o comércio internacional", afirmou o economista-chefe da OMC, Robert Koopman. Ele citou o caso da Alemanha, um país que tradicionalmente se recuperava por meio do incentivo à produção, mas que, neste ano, adotou programas agressivos de incentivo ao consumo. "Os governos parecem ter aprendido as lições da crise financeira de 2008", afirmou o economista. A OMC afirma que, apesar da recuperação registrada em junho e julho, o ritmo de expansão pode desacelerar drasticamente depois que demanda reprimida se esgotar e os estoques comerciais estiverem repostos. Resultados ainda mais negativos poderiam ser provocados por uma forte onda de Covid-19 no quarto trimestre, que obrigue os países a impor restrições severas à mobilidade e às empresas. Se a recuperação pode ser sustentada a médio prazo dependerá da força do investimento e do emprego, afirma a OMC: "Ambos podem ser prejudicados com uma nova onda de Covid-19". A Ásia, puxada pela China, será a região menos afetada em relação ao comércio, com queda de 4,5% para exportações e 4,4% para importações em 2020. Também neste ponto há uma razão claramente ligada à pandemia de coronavírus: o aumento do comércio de equipamentos de proteção (EPP), principalmente máscaras. O comércio de EPPs cresceu 49% nos primeiros seis meses deste ano, atingindo US$ 98 bilhões (R$ 542 bilhões). Só em máscaras, a alta foi de 87% no primeiro semestre, com um valor de US$ 71 bilhões (R$ 393 bilhões). A China foi responsável por 57% do valor exportado em máscaras e 44% do valor exportado em PPEs. Equipamentos de informática e tecnologia, principalmente computadores, que já vinham em alta antes da pandemia, receberam impulso ainda maior com o trabalho remoto, afirma a OMC. O movimento também elevou exportações asiáticas. A OMC afirmou que a América do Sul foi menos afetada em suas exportações, por causa dos estímulos à demanda, que mantiveram alto o comércio de commodities agrícolas, e sofreu mais impacto nas importações, por causa da crise econômica. Embora a entidade estime que todas as regiões vejam grandes aumentos percentuais nos volumes de exportação e importação em 2021, elas podem não se traduzir em melhores condições materiais. Por exemplo, as importações para a Ásia e América do Sul devem crescer 6,2% e 6,5%, respectivamente, no próximo ano, mas a alta da Ásia seguiria uma queda modesta de 4,4% neste ano. Já a América do Sul partiria de uma queda acentuada de 13,5% em 2020, o que significa que ao final de 2021 ainda estaria com seu comércio profundamente deprimido. Em relação ao PIB mundial, a OMC prevê uma queda de 4,8% em 2020, com recuperação de 4,9% em 2021. A entidade nota que essa é uma diferença importante entre as crises globais de 2008/2009 e a deste ano. A contração do PIB foi muito mais forte na atual recessão, enquanto a queda do comércio foi mais moderada. Como resultado, o volume do comércio mundial de mercadorias deverá diminuir cerca de duas vezes mais do que o PIB mundial às taxas de câmbio de mercado, em vez de seis vezes mais durante o colapso de 2009. O impacto da pandemia nas dívidas dos países é outro fator que afeta as previsões para o comércio, afirmou a OMC. "Embora seja improvável que os países ricos enfrentem crises de dívida soberana como resultado da expansão fiscal, os mais pobres podem considerar o aumento do peso da dívida extremamente oneroso", diz a entidade.