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Coronavírus: como identificar e lidar com o luto durante a pandemia

Como lidar com o luto no meio de uma pandemia

Por Renan Botelho (@Renan_Botelho)

A pandemia do coronavírus transformou o mundo que conhecíamos. Projetos, trabalhos e vidas foram interrompidas por conta do covid-19 e ainda há muita incerteza do que irá acontecer depois. Com a crise mundial somada à crise política no Brasil, não se espante se você tiver dias de tristeza, raiva, culpa ou desamparo. O que você está sentindo é luto. 

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"Passamos por uma mudança muito grande em nossas vidas o nosso corpo e a nossa mente passam por um processo de adaptação. O que pode levar ao estresse, a ansiedade e a angústia”, explica a psicóloga Dra. Danielle Ghirotti Coelho, especializada em Terapia Comportamental Cognitiva e Controle de Stress. "Imagine que todos nós estávamos vivendo 'normalmente' e de repente isto foi arrancado de nós e temos que aprender um novo modo de viver 'na marra’. É por isso esta confusão”, completa. 

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Cada pessoa reage ao processo de luto de uma maneira diferente, mas o importante é lidar com esse sentimento. “O luto não pode virar patológico. Quando a gente não vive o luto do momento, ele continua a existir na nossa vida. Como se eu vivesse para sempre sentindo aquilo. A pessoa geralmente vive mais irritada, mais depressiva ou até mesmo apática. Enquanto ela não trabalha aquele luto, ela não sai do ciclo”, diz a Dra. Danielle.

Despedindo-se de um ente querido 

O Brasil se tornou o epicentro da pandemia mundial - até esta sexta-feira, 29, o país somava mais de 441 mil casos de infectados pelo vírus e 26,788 mil mortes. Milhares de famílias que perderam seus entes queridos e não puderam se despedir em uma cerimônia tradicional.

"Parte importante para nós enfrentarmos o luto é o apoio social e os rituais de passagem, dentro de cada crença. O que com a quarentena muitas vezes ficamos impossibilitados de realizar. Esses processos ajudam a elaborar as nossas emoções, portanto são essenciais. Sentir frustração, raiva e culpa é muito comum neste momento”, ressalta a psicóloga.  

Para Danielle, as perguntas que usualmente seguem o sentimento de perda são nocivas. "'Será que isso é verdade?’, 'Está mesmo acontecendo?’, 'Por quê?’, 'Ah se eu não tivesse deixado ele sair’. Você começa a pensar que se tivesse uma cura ou remédio seria diferente, que se as ações fossem outras o resultado seria diferente, se questiona se poderia ter feito mais ou feito diferente. Como se pudéssemos ali mudar algum resultado”, comenta. "Não seja tão duro com você mesmo, esta pandemia está além do controle de qualquer um de nós, tenha mais compaixão com você mesmo, não tem como mudar o que aconteceu, você não precisa adicionar mais peso a esta dor que você está sentindo. Encontrar respostas não vai acalmar o seu coração, apenas a aceitação pode ajudar neste processo. É difícil e doloroso, mas talvez assim possa encontrar conforto”, aconselha. 

A Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC) divulgou um guia para pessoas que perdem um ente querido em tempos de coronavírus, onde sugere alternativas para os ritos de despedida. Decorar um canto da casa em homenagem a quem se foi, criar um álbum fotográfico ou uma caixa de memórias, realizar uma cerimônia virtual ou até mesmo soltar balões podem ajudar na hora de dizer adeus. 

“Existem uma gama de técnicas para lidar com esta despedida a distância. Tem uma que eu, particularmente, gosto bastante que é a técnica da escrita. Muitas vezes quando um ente querido morre temos a sensação que coisas ficaram como não ditas, 'eu poderia ter falado mais que amava', 'tem tanta coisa que eu gostaria de contar’”, comenta a Dra. Danielle, que sugere escrever uma carta de despedida ou "manter um diário de coisas que você gostaria de contar para a pessoa no dia a dia, como se fosse uma conversa a dois”.

Compartilhar o que você está sentindo nesta hora pode trazer um alívio, seja por redes sociais ou chamadas telefônicas. Aos amigos e colegas, a psicóloga reforça a importância de se mostrar presente - mesmo que virtualmente - para ajudar a pessoa lidar com o luto. "Às vezes pensamos que as pessoas sabem que podem contar conosco, mas a fala é importante, faz parte do acolhimento. Diga, expresse, se coloque a disposição. Neste momento, a pessoa enlutada pode pensar que está sozinha”, conta. 

A ABEC também alerta para a saúde física. O sentimento de luto pode ser estar relacionado com dores de cabeça, taquicardia, aumento do consumo de tabaco e álcool, e dores no estômago. Por isso é importante manter uma alimentação saudável e cuidar do próprio corpo. 

Se você precisar de ajuda durante a pandemia, há vários grupos de instituições que podem te ajudar, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Apoio às Vítimas (como os CRAVIs), Centros ou Núcleos de Direitos Humanos, Centros de Serviço Social, o setor de Psicologia ou de Atendimento Multidisciplinar das Defensorias Públicas ou até mesmo a Serviços de Emergência (190).