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'Lutar e honrar a memória dele alivia um pouco meu coração', diz Mirtes de Souza, mãe do menino Miguel

·13 minuto de leitura

Nada seria o mesmo na vida de Mirtes Renata Santana de Souza depois depois de 2 de junho de 2020. E nem poderia. Naquele dia, ela perdeu o filho, Miguel, de 5 anos, que caiu de uma altura de 35 metros depois de ser deixado pela sua ex-patroa, Sarí Corte Real, dentro do elevador no prédio de luxo onde Mirtes trabalhava como empregada doméstica.

Ao longo do último ano, Mirtes teve que encontrar formas para lidar com a dor de perder seu filho de forma tão trágica e buscar por justiça. Decidiu estudar Direito para acompanhar de perto o processo que corre contra sua ex-patroa. Sarí responde por abandono de incapaz com resultado de morte, com agravantes de cometimento de crime contra criança em ocasião de calamidade pública. Mirtes denuncia o racismo na estratégia de defesa de Sarí, que segundo ela, tenta responsabilizar Miguel, uma criança de cinco anos, pela própria morte.

Aos 34 anos, Mirtes mora com a mãe, Marta Santana, e se divide entre os compromissos da faculdade, as entrevistas à imprensa e o trabalho nas duas organizações que passou a integrar desde a morte do filho.

Conversei com Mirtes por videochamada poucos dias antes da morte de Miguel completar onze meses. Ao longo de uma hora, ela compartilhou as estratégias que tem utilizado para se manter de pé depois de uma perda tão violenta, foi firme ao falar da sua luta por justiça, contou sobre sua relação com a maternidade e variou entre risos e lágrimas ao lembrar dos detalhes da convivência com o filho.

Quando pergunto como Mirtes se sentiu quando descobriu que estava grávida de Miguel, ela abre um sorriso largo. O choro vem quando me conta com detalhes o que mais sentiu falta ao longo do último ano. A ausência de Miguel é sentida todos os dias, mas nas datas especiais, se aprofunda. Este será o primeiro Dia das Mães que Mirtes passará sem Miguel.

CELINA: Como foi quando descobriu que estava grávida Miguel? Foi uma surpresa? Sempre quis ser mãe?

Eu quando nova não queria ser mãe, nunca me veio na cabeça casar, ser mãe, essas coisas. Depois que minha irmã engravidou e o Felipe nasceu, hoje ele tem 9 anos, eu passei a ajudar a cuidar dele e fui tomando gosto, fui sentindo aquele amor da criança e fiquei com vontade de ser mãe. Aí conheci o pai do Miguel. A gente namorou durante oito meses e acabei engravidando. Foi um vacilo, não era nada planejado. Quando eu soube, foi um susto. Fiquei muito preocupada por conta da reação de painho e de mainha. Quando contei à mainha, ela já estava esperando. Mas dizer a painho foi bem difícil. Ele de começo não aceitava eu estar grávida sem ter casado, porque ele é bem das antigas. Mas depois aceitou. Tinha que aceitar mesmo, né?

E como foi a gravidez?

Para mim, foi maravilhoso gestar e ser mãe de Miguel. Foi uma dádiva que Deus me deu. Um presente. Sentir aquela coisinha ali dentro por nove meses, mexendo, me cuidando e eu cuidando dele também. Eu fazia os gostinhos dele, os desejos. Já dentro da barriga cuidava muito bem dele. O momento do parto foi bem difícil, bem traumatizante. Mas foi maravilhoso. É maravilhoso ser mãe de um menino lindo como o Miguel. Eu sonhava com ele quando estava grávida. Com o rostinho dele. E quando ele nasceu, ele era igualzinho a como eu sonhava. Bem gordinho, bem cabeludinho. A coisa mais gostosa do mundo.

Como era a sua rotina com o Miguel, especialmente antes da pandemia? Você e sua mãe se revezavam nos cuidados com ele?

De manhã Miguel ia para escola e de tarde ia para o hotelzinho, que é tipo uma creche particular. Devo a educação do meu filho às meninas do hotelzinho, dona Sueli, Eduarda. É muito difícil conseguir vaga em creche pública aqui e eu tinha um trauma de creche. Fiz um curso em Recife uma vez num local que ficava atrás de uma creche, via como as crianças ficavam lá e decidi que não ia deixar meu filho na creche pública e que ia pagar para alguém cuidar dele. Tinha esse hotelzinho aqui e pagava para elas cuidarem dele. E nunca tive problema nenhum. Sempre cuidaram bem dele. Miguel adorava ir para lá. Minha comida não era boa, mas a comida de vovó Sueli ele amava. Ele era muito mimado.

Como era a relação com o pai do Miguel?

Quando a gente morava junto, ele ajudava. Me separei dele quando Miguel tinha 3 anos. De vez em quando ele vinha, pegava o Miguel alguns finais de semana. Ele sabia como cuidar do Miguel do jeito que eu queria que cuidasse. No período das férias, a gente se revezava. Eu precisei fazer um acordo no trabalho, para tirar 15 dias no começo do ano e 15 no meio do ano, no período de férias de Miguel, para poder dar uma atenção a meu filho. Eu também não fazia hora do almoço para poder sair uma hora mais cedo para buscar Miguel. Quando eu não podia, minha mãe ia na frente. Eu chegava em casa, ajeitava o jantar para ele, fazia as tarefas da escola, organizava a casa, as roupas, tudo mais. Era uma tripla jornada. E mainha ajudava muito.

Na pandemia isso ficou mais difícil, né? Tanto que você teve que levar ele com você para o trabalho.

Isso. Eu precisei levar ele comigo. Em parte foi bom. Mas o bom, que eu digo, é que ele estava comigo. O ruim é que eu não conseguia dar a atenção que ele realmente merecia porque tinha que trabalhar, e não só olhar o meu filho, mas os filhos de Sari também, cuidar do cachorro. Teve momentos que Miguel chorou pedindo para vir para casa, mas eu não podia vir porque tinha que trabalhar. Eu dizia: “filho, não dá para gente ir para casa agora. Mamãe precisa trabalhar para comprar suas coisinhas e tem um bichinho que está na rua e deixando as pessoas doentes e tem gente indo pra casa de papai do céu”. Vai e volta ele chorava. Mas eu não podia vir.

E o que você sentiu mais falta nesse quase um ano sem ele?

Eu sinto muita falta dos carinhos dele, dos beijos, das correrias dele em casa. Coisas do dia a dia. De deitar com ele para gente dormir. À noite eu dava banho nele e fazia massagem. Ele adorava. Pedia: “mamãe, a massagem." Eu passava o creminho e fazia massagem nele. Deitava com ele. A gente rezava o Pai Nosso, o Santo Anjo do Senhor. Aí, às vezes, eu dormia primeiro e ele ficava só olhando pra mim ou ia para sala assistir TV com mainha. Depois voltava e dormia na caminha dele. E eu dormia na ponta perto da cama dele para qualquer coisa escutar ele. Meu sono era pesado, mas para ele era leve. Quando ele dizia “mamãe”, eu já despertava logo. Eu sinto muita, muita falta dele. Muita. De dar amor, carinho a ele, atenção. De brincar com ele. De tudo. De tudo. Cuidar daquele corpinho, que eu dizia “eita, como meu filho é gostosinho”. Meu filho é muito gostosinho. Era bem gordinho, tinha perninha bem grossinha, linda. Meu filho era muito lindo. Ele é lindo. Tá lá em cima, mas ele é lindo.

E o que tem te ajudado a lidar com essa saudade toda?

O que está me mantendo de pé é Deus. E as orações que as pessoas fazem para Deus. Ele está ouvindo todas as pessoas que estão orando por mim e está me dando força para seguir. Esse trabalho está me ajudando também, porque espaireço um pouco. A faculdade também. Faço terapia, corro, vou para academia. Estou me movimento de um lado para outro para não cair. Porque se eu cair, as coisas não andam.

Tem algum sentimento que é mais forte, além da dor e da saudade? Você sente raiva?

No começo eu não conseguia sentir raiva, ódio, porque o sentimento de dor falava muito mais alto. Mas agora meu sentimento é de dor, de indignação, e um pouco de raiva diante de tudo isso que vem acontecendo nessas oitivas, no julgamento. Uma coisa que eu nunca admiti, e até hoje eu não admito, é que alguém fale mal do meu filho. Nenhuma mãe admite isso. Não admito que queiram sujar a imagem do meu filho. E é o que estão querendo fazer, dizendo que Miguel era uma criança impossível, mal educada, que é responsável pelos próprios atos dele, que Sari é a vítima dele. Dizem que Miguel era uma criança muito levada, muito esperta. Eu digo não. Meu filho era apenas uma criança. E graças a Deus muito bem-educada, porque eu sempre dei educação. Isso ninguém pode dizer que não. Era uma criança com energia, saudável, uma criança normal. E isso não é um defeito para que queiram transformar Miguel numa criança responsável pelos próprios atos.

Mas isso ficou bem visível, não só na estratégia dos advogados, mas também no depoimento do marido dela. Ficou bem escancarado que Miguel era pra eles uma criança que não merecia proteção, não merecia atenção, e isso é uma forma de racismo. E não é algo que eu estou dizendo, é algo que já foi pesquisado. Eu estava lendo essa semana, no site do Mundo Negro, uma faculdade nos EUA pesquisou que crianças negras recebem menos atenção do que crianças brancas porque são taxadas de fortes, espertas e que podem se virar. Miguel, por ser filho de uma empregada, por ser negro, ele tinha que ser esperto, forte e tinha que saber se virar naquele lugar, dentro de um elevador? Não é assim. Toda criança merece proteção. E é algo que eu sempre dei aos filhos dela.

Você se percebeu em uma situação que é comum a outras mães negras que perdem seus filhos no Brasil?

Sim. Isso não é só o caso do Miguel. Há outros casos em que a vítima é sempre tratada como culpada. Feito o de Mario Andrade, que houve no Ibura. Ele tinha 14 anos e foi assassinado por um policial. Tinha saído de casa para andar de bicicleta e o policial disse que Mario veio assaltar ele. Mas foi comprovado que não, ele e só estava andando de bicicleta. A mãe dele conseguiu provar que o filho dela não é bandido, que o filho dela não estava errado e conseguiu a condenação desse policial. Também teve o caso de Jhonny [ Lucindo Ferreira], de 17 anos, que estava em cima de uma moto sem camisa, com um amigo em Jaboatão dos Guararapes. Tinha ido em casa buscar umas ferramentas a pedido do pai e foi morto pela polícia, que pensou que ele era bandido. E querem taxar ele como bandido. Mas ele não era bandido. Querem sempre colocar em cima da vítima.

No caso de Miguel, querem colocar a culpa em cima dele. E ainda tem um agravante porque querem taxá-lo como um menino doente só porque eu levava Miguel para o psicólogo. Quando eu me separei do pai de Miguel, ele ficou numa situação difícil, chorava, pedia muito pelo pai. Me doía muito ver meu filho assim, não tava sabendo lidar com aquilo. Então, como tinha plano de saúde, levei para psicóloga. E ouvi dela que se todos os pais soubessem o que o momento da separação causa, traziam os filhos para terapia. Ele passou um ano indo para psicóloga e melhorou. Aí estão querendo dizer que Miguel ia para psicóloga porque era uma criança impulsiva, porque tinha transtornos. Meu filho não era doente, mas se fosse, era um agravante para Sari, porque ela saberia e abandonou a criança no elevador.

O que espera da Justiça agora?

O juiz precisa focar: o que está sendo julgado ali é o abandono. Sari abandonou meu filho dentro de um elevador, o que levou a morte dele. A forma que eu educava meu filho, que eu tratava meu filho, não está em julgamento. O que está em julgamento são as atitudes dela. Eu preciso que o judiciário seja mais coerente. E está sendo muito difícil. Tudo querem dizer que a culpa é da mãe.

Eu sinto muita indignação com tudo isso. E preciso gritar para eles que quero coerência no processo de Miguel. E que realmente façam Justiça. Temos um judiciário classista e racista. Eu preciso que façam pelo certo. Deixem de lado o status social de Sari e do marido dela. O dinheiro deles. Tem que haver coerência e celeridade.

Eu estava observando. Dez meses e 26 dias depois da morte de George Floyd, já houve o julgamento do policial que o matou. O caso de Miguel vai completar 11 meses e só houve uma audiência. Faltam ouvir duas testemunhas e a própria Sari. A defesa dela está fazendo de tudo para atrapalhar o processo.

Você trabalhava na casa de Sari com a sua mãe. Mora com ela. São muito próximas. Como tem sido para ela lidar com a perda do neto e com ter que ver você passando por isso?

Para mainha, já é a segunda perda. Minha mãe já perdeu um filho, eu perdi meu irmão. Há 15 anos, meu irmão foi assassinado por engano em frente à casa da minha avó, quando tinha 14 anos. Estava com um casaco azul com o número 42 atrás e o cara chegou por trás e atirou, porque pensou que ele era uma mula. A gente não levou o caso para polícia, porque a família foi ameaçada. Minha mãe sofreu muito.

E agora outra dor. Ela já sentia uma dor, aquela ferida estava com uma casquinha, e agora veio outra. Então está sendo bem difícil para mainha. A gente está junta, está tentando se manter forte. Mesmo com essa dor muito forte que eu tenho no peito, eu faço de tudo para dar força a minha mãe, para ela continuar de pé junto comigo.

E agora, chegando o primeiro Dia das Mães que vão passar sem o Miguel, o que vem a cabeça?

É uma das datas que dói muito para mim. Ele com certeza já estaria super animado, querendo comprar batom, perfume, pó para botar no meu rosto. Ele sempre dizia isso: “mamãe eu vou comprar um batom pra senhora.” Ele gostava de me ver arrumada. Dia das Mães tinha homenagem na escola e era a coisa mais linda do mundo. Eu sempre me emocionava com aquela coisa linda cantando para mim, me dando beijo, me dando abraço, me dando flor. Acordava com ele me dando cheiro. Ele sempre lembrava. Dizia: “bora almoçar fora.”

Esse ano não vou ter meu neguinho comigo, querendo me dar presente, pedindo para sair. Vai ser bem difícil. Todos os dias está sendo difícil, mas tem datas que dói mais ainda. O aniversário dele, que foi 17 de novembro, meu neguinho ia fazer seis anos. Eu não fiz festa pra ele, não comprei presente. Meu aniversário, em fevereiro, sem meu filho. Eu não tenho o que comemorar. Lutar e honrar a memória dele alivia um pouco o meu coração. Mas eu só espero o dia de tudo isso se resolver e um dia encontrar ele. Eu sei que um dia a gente vai se encontrar e vai ser o encontro mais lindo do mundo, porque eu vou dar tanto abraço, tanto cheiro no meu neguinho. Vai ser o dia em que eu vou voltar a ser feliz.