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Elegível, Lula tira de Bolsonaro o centro gravitacional do debate

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
Brazilian former president (2003-2011) Luiz Inacio Lula da Silva, delivers a press conference at the metalworkers' union building in Sao Bernardo do Campo, in metropolitan Sao Paulo, Brazil, on March 10, 2021. - The ruling that overturned ex-president Luiz Inacio Lula da Silva's corruption convictions upended Brazilian politics and set up a potential election showdown between the tarnished left-wing icon and his nemesis, far-right President Jair Bolsonaro. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP) (Photo by MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)
O ex-presidente Lula em seu pronunciamento na sede do sindicato em São Bernardo. Foto: Miguel Schincariol/AFP (via Getty Images)

Até a última segunda-feira, Jair Bolsonaro era atleta e juiz do próprio jogo.

Falava o que bem queria e sentava de camarote à espera da repercussão. “Gripezinha”, “e daí”, “não sou coveiro”, “vachina do Doria causa morte e invalidez”, “a região norte está imunizada porque toma cloroquina para malária”, “maricas”, “parem de frescura”, “vamos chorar até quando?”

A regra era clara.: quanto maior o absurdo, maior a repercussão. Maior também o engajamento de um produto com permanência garantida no centro da vitrine, das atenções e das discussões.

Steve Bannon fez escola.

Sob Bolsonaro, os elementos de comunicação do noticiário político tinham a lógica de uma barata voando. No meio da correria para capturar o bicho, muitos se revoltavam, alguns aplaudiam e outros gritavam “mito”.

A medição nas redes é em tempo real. No esquema tentativa-e-erro, o presidente confundia e voltava atrás quando forçava a mão e alguma fala pegava mal. Na dúvida, dizia que nunca disse o que acabava de dizer. O louco era você — que não ouve direito ou está mal intencionado.

Entre patadas, reações a patadas e notas de repúdio com a força de um track de quermesse, Bolsonaro monopolizou assim as atenções e abriu caminho para 2022 como o grande favorito Os outros apenas corriam atrás, como ficava claro cada vez que corriam para responder ao presidente, que assim garantia as rédeas do jogo e da conversa.

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Para o bem ou para o mal, era dele que todo mundo falava quando desobedecia as recomendações sanitárias, provocava aglomerações, se negava a fazer o básico, declarava guerra contra máscaras e medidas de isolamento ou criava uma crise desnecessária com grupos sociais específicos ou algum auxiliar recém-mandado ao paredão. Qual seria a notícia, afinal, se ele se comportasse como todos e obedecesse as regras básicas de convívio?

Eis que, na segunda-feira 8, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, tentou salvar as mãos que colheram as provas contra Lula entregando os dedos que o condenaram. A decisão era tão arriscada quanto inesperada e agora aguarda o julgamento da suspeição de Sergio Moro.

Fato é que, até então, o líder petista, embora recorrendo das sentenças em liberdade, após 580 dias preso, era um bicho em cativeiro. Seja lá o que dissesse, o impacto era mínimo diante de duas paredes de isolamento acústico. Quem falava, afinal, era um condenado. Livre, mas condenado. E, seja lá o que dissesse, não poderia ameaçar o atual governante porque o que dizia não tinha lastro político efetivo: uma vez condenado em duas instâncias, ele não poderia se candidatar a presidente. Poderia, no máximo, indicar o postulante, à sua imagem, sombra e semelhança —mas ainda assim à sombra.

Enquanto o Supremo colocava Sergio Moro e a Lava Jato de joelhos, Lula ganhava o impulso que queria para vitaminar a narrativa de que foi vítima de uma armação jurídica. As mensagens da Vaza Jato reforçam o argumento, embora não apaguem os desvios reconhecidos por delatores que operavam durante seu governo em corredores públicos e privados.

Essa é ainda a maior fragilidade de sua plataforma, mas é fato que a decisão de Fachin levou Lula a um patamar antes ocupado por João Doria (PSDB). Era o governador paulista quem reivindicava o distintivo de candidato anti-Bolsonaro para poder fazer frente a ele em 2022.

Ainda assim, era Bolsonaro o centro gravitacional da conversa. Os outros apenas repercutiam. Ou corriam atrás.

Isso muda quando o ex-presidente, favorito e impedido de concorrer em 2018, faz do pronunciamento a respeito da decisão do Supremo um pontapé inicial de um projeto com vistas à sucessão. Embora tenha despistado e jogado para o futuro essa conversa, ele em momento algum descartou a possibilidade de se candidatar novamente. Fez isso com uma carta de intenções e um roteiro do que fez e do que faria se estivesse no lugar de Bolsonaro, presidente sob pressão de todos os lados em razão de posturas e omissões ao longo da crise da pandemia. Uma crise que, no mesmo dia, ceifou mais de duas mil vidas em 24 menos de horas.

Embora tente se descolar, essa tragédia tem nome e sobrenome. O que Lula fez foi dar nome aos bois. Como muitos já tinham feito em tuítes e notas de repúdio que nem em outra vida alcançariam a mesma repercussão.

Tivesse ficado apenas na militância, aquela que não abandona o barco nem que ele afunde, Lula poderia ser ignorado. Mas sua fala, em um sindicato de São Bernardo do Campo, onde tudo começou, foi ouvida atentamente por quem já percebeu que um eventual uma candidatura com potencial eleitoral de fato e minimamente comprometida com os marcos civilizatórios pode não ser tão pior assim do que a gestão que transformou o país em pária internacional, uma fonte de irradiação de vírus e botinadas com quem ninguém quer se relacionar.

Em seu discurso, Lula levantou a bandeira da vacinação em massa, dos livros contra armas, do auxílio emergencial e da geração de empregos em detrimento do entreguismo representado por Paulo Guedes, que até agora mais falou do que entregou.

Enquanto falava, Lula recebia uma piscadela do ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, liderança que pode não ter o carisma e o peso eleitoral de Lula ou Bolsonaro, mas pode servir como ponto de conexão entre o petista e os que o veem como o diabo. Foi Maia quem capitaneou a reforma da Previdência enquanto Bolsonaro engasgava com a tinta da caneta e se enroscava na própria faixa presidencial.

“Você não precisa gostar do Lula para entender a diferença dele para o Bolsonaro. Um tem visão de país; o outro só enxerga o próprio umbigo. Um defende a vacina, a ciência e o SUS; o outro defende a cloroquina e um tal de spray israelense. Um defende uma política externa independente; outro defende a subserviência. Um defende política ambiental; outro a política da destruição. Um respeita e defende a democracia; o outro não sabe o que isso significa”, escreveu Maia no Twitter.

Nada, nada, não era um líder bolchevique levantando a foice e o martelo por seu guia, mas um queridinho do mercado elogiando um líder de esquerda pelo equilíbrio.

A piscadela pode funcionar como um dia o vice-presidente José Alencar funcionou para estender as pontes para além de um projeto de esquerda puro sangue.

No mesmo dia, a quebra do centro gravitacional em torno de Bolsonaro, que repercutia sozinho porque falava sozinho, já produzia efeitos.

Percebendo que um discurso em defesa da vida talvez, mas só talvez, tenha mais apelo político do que a versão “morram aí e parem de frescura”, Bolsonaro se reconciliou com a máscara e correu para apagar o passado anti-vacina —que atingiu o auge quando afirmou, para quem quisesse ouvir, que a melhor vacina era pegar o vírus, como ele.

Naquele momento, não era um opositor que respondia ao presidente, mas o presidente que respondia a um opositor. A nova medição de forças estava dada.

Numa semana de reviravoltas, não deixa de surpreender a reação na Bolsa, com alta nas ações e queda no dólar. Ao menos naquele primeiro round, quem esperava um duelo radicalizado de quem era mais capaz de polarizar e prometer terreno na lua para 2022 viu acontecer exatamente o oposto. Não foi Bolsonaro quem radicalizou Lula. Foi Lula quem obrigou Bolsonaro a mudar o figurino e fingir que ainda tem algum traço de equilíbrio.