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Luiza Trajano entendeu o racismo estrutural. E precisa ser ouvida

Matheus Pichonelli
·4 minutos de leitura
The Chairman of the Magazine Luiza Board, Luiza Helena Trajano, during the inauguration of the Defense Police Station and the Women's Reference Center in Franca, Sao Paulo, Brazil, on 26 November 2019. (Photo by Igor Do Vale/NurPhoto via Getty Images)
A empresária Luiza Helena Trajano. Foto: Igor Do Vale/NurPhoto (via Getty Images)

Você se incomoda quando entra no restaurante e percebe quem são as pessoas que servem e quem são as servidas?

Quando olha ao entorno dos bairros com estrutura mínima e percebe que lá pessoas negras só entram para limpar as casas?

Quando lê as notícias sobre quem são as principais vítimas da violência estatal em seu país? Ou sobre o encarceramento em massa por pequenos delitos?

Se você não percebeu ainda que neste país desigualdade tem cor, fica difícil conversar.

Se você percebe e não se incomoda, fica impossível.

Mas se você percebe, se incomoda e pensa que não tem nada a fazer a não ser lamentar -- já que, afinal, você não se considera vetor da discriminação, tem amigos diversos e trata todo de maneira educada -- talvez seja o caso de assistir à entrevista concedida pela empresária Luiza Trajano ao Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira 5.

Em setembro, a Magazine Luiza (Magalu), rede de varejo liderada por Trajano, anunciou a abertura de inscrições para seu programa de trainee 2021. Tudo seguiria os conformes não fosse um detalhe: apenas inscrições de candidatos negros seriam aceitas. O salário é de R$ 6,6 mil, com benefícios e bônus de contratação de um salário.

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O anúncio causou rebuliço nas redes. A empresa foi acusada de praticar “racismo reverso”, uma aberração conceitual que não aguenta dois segundos de exercício lógico.

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, fez coro às acusações e chegou a comparar o programa da empresa ao nazismo.

E o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) prometeu em suas redes sociais abrir uma representação no Ministério Público contra a empresa “para que seja apurado crime de racismo”.

Jordy é vice-líder na Câmara do governo Bolsonaro, presidente que não entendeu ainda o que é pix e confunde “politicamente incorreto” com senso comum, a “verdade” que todo mundo repete e que “ninguém tem coragem de dizer”. Deve ser esperar demais que ele e seu grupo entendam também as estruturas e engrenagens do país que tentam administrar.

Luiza Trajano é um caso à parte na lista do que se pode chamar de elite do país.

Foi em um programa Roda Viva que o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro classificou essa elite brasileira como uma classe dominante “ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa, que não deixa o país ir pra frente”. Esse país, afirmou o autor de “O Povo Brasileiro”, leva na alma o calejamento do senhor de escravo perverso que compra um ser humano e tira no chicote a sua renda sobre aquele corpo.

Vinte e cinco anos depois, no mesmo programa da TV Cultura, Trajano tem mostrado que este não precisa ser o caminho. E que pessoas como ela podem ser chave na luta antirracista

A Magazine Luiza tem hoje em seu quadro de funcionários 53% de pessoas negras, mas apenas 16% deles ocupam cargos de liderança. Isso em um país onde um homem branco chega a ganhar em média quase 160% a mais do que uma mulher negra, mesmo quando ambos são formados em universidades públicas ou dentro de uma mesma profissão.

Esses foram os argumentos centrais para o lançamento do programa.

Na entrevista, a empresária disse que o programa de treinamento não era para causar polêmica nem para mudar o Brasil, e sim a sua companhia, que tinha dificuldade para recrutar pessoas negras em cargos de chefia.

E por que havia dificuldades? Porque entre a intenção e a ação, explicou a executiva, havia o preconceito estrutural. E quase 350 anos de escravidão. “Eu sempre achei que não era racista até entender o que era racismo estrutural”, afirmou Trajano, que percebeu que em seus aniversários só havia pessoas brancas até poucos anos atrás.

Em poucas palavras, ela explicou como chegamos até aqui. “O Brasil teve 350 anos de escravidão. A maioria (dos escravos) foi negros. A maioria está hoje nas periferias. A maioria não teve oportunidade. Então não entra (em postos de chefia das grandes empresas)”.

Uma explicação para a gritaria em torno de seu programa, diferentemente do que já aconteceu em outras empresas, foi que a seleção visava pessoas que poderão trabalhar como diretores ou até presidente de uma das maiores empresas do país.

“Inconscientemente”, ela disse, sem perder a elegância, isso pode ter mexido com os interesses de quem imaginava, até ontem, ocupar esses cargos por direito divino e natural, e não pelas circunstâncias de um país forjado pelo...racismo estrutural.

É esse mesmo racismo que leva um país a carregar ainda na alma o calejamento do senhor de escravo perverso que compra um ser humano e tira no chicote a sua renda, como definiu Darcy Ribeiro.

Luiza Trajano entendeu esse mecanismo.

E, na semana em que anunciou um programa para minimizar este mecanismo, ao menos dentro de sua empresa, as ações da Magalu subiram. Até os acionistas entenderam que diversidade e compreensão da realidade é fundamental também para os negócios.

Deu para entender agora?