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Mandetta faz o diagnóstico de um paciente chamado Brasil

Matheus Pichonelli
·5 minutos de leitura
Brazil's Minister of Health Luiz Henrique Mandetta arrives to attend a news conference after a meeting with Brazil?s President Jair Bolsonaro, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil April 16, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

No dia 8 de agosto o Brasil atingiu a marca de 100 mil mortos por coronavírus.

Foi um dia de silêncio, luto, orações, homenagens e muitas reportagens tentando explicar como chegamos até onde chegamos.

De lá pra cá, um conjunto de medidas flexibilizou as regras do isolamento. Teve feriado, teve aglomeração, atividades foram retomadas, voltamos a discutir futebol e a debater a possível volta das torcidas nos estádios. Quase tudo como dantes.

Com um detalhe: as pessoas não pararam de morrer e se infectar. Passamos a falar do ritmo da curva de contaminação e a celebrar uma média de 800 mortes diárias. Havia pouco ela era superior a 1.000.

Com a chegada da primavera, e das temperaturas mais elevadas em boa parte do país, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, muitos começam a forçar a barra pela volta da normalidade. A vida lá fora chama, e é difícil julgar quem abriu brechas na rotina depois de seis meses trancados em casa numa quarentena que deveria, nas previsões iniciais, durar um, dois, três meses no máximo.

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Dois eventos recentes são sintomáticos deste momento. Um foi a contaminação de mais de 20 pessoas do Flamengo antes de uma partida pela Libertadores no Equador. A volta do futebol não deveria envolver protocolos, testagens, monitoramento, isolamento por parte dos atletas e comissão técnica? Pois é. Em que momento as normas mudaram?

Outro evento foi a posse de Luiz Fux como presidente do Supremo Tribunal Federal, que poderia ser online mas reuniu diversas autoridades no recinto. Quem, afinal, declinaria do convite da maior autoridade do Judiciário? Resultado: nove contaminados por coronavírus após o regabofe, entre eles o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ministros de Estado, do STF e do STJ.

Não fossem os avanços da medicina, que nestes meses passou a entender melhor a dinâmica do vírus e a otimizar o tratamento, parte da cúpula dos Três Poderes poderia ter desaparecido se a posse ocorresse em maio ou abril.

Quem entrou para as estatísticas após a centésima milésima morte não recebeu as mesmas homenagens e atenções das primeiras vítimas. Pior: o prognóstico é que o país atinja 180 mil mortos até a chegada da vacina.

As contas são do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, demitido no auge da pandemia pelo negacionismo do presidente Jair Bolsonaro.

A polaroid do momento atual mostra que a popularidade do presidente não sofreu abalo no período. Pelo contrário, se beneficiou das medidas tiradas a fórceps para minimizar os efeitos da pandemia, caso do auxílio-emergencial -- que, não fosse o Congresso, pingaria no bolso dos brasileiros com um terço do valor.

Importa, porém, como esta história será contada daqui pra frente, quando as ações, omissões e responsabilidades poderão ser avaliadas longe do calor do momento.

Para contar esta história, já disse aqui, nada melhor do que ouvir suas testemunhas. Parte delas saiu enxotada do governo e pode falar por si.

O começo dessa história começa a ser escrito. Mandetta acaba de lançar o livro “Um paciente chamado Brasil”, em que conta os bastidores do governo e o processo de fritura enfrentado por ele no meio da crise.

Em entrevista ao jornal O Globo, ele adianta o que vem por aí. “O que me causou mais impressão nessa história é que você tem que decidir em alguns momentos sobre questões econômicas, geopolíticas, sociais, mas tem momentos que você está decidindo sobre vida e morte. Você não está decidindo sobre fazer uma política mais liberal ou menos. Você tem na sua frente o maior patrimônio de uma nação, que deveria ser a vida”, disse o ex-ministro aos repórteres Johanns Eller e Rafael Garcia.

Na passagem mais assombrosa do enredo, Mandetta conta a sensação de ter sido seguido e monitorado pelo chefe que, na reunião de 22 de abril, admitiu contar com um sistema de inteligência próprio.

“Eu estava com minha esposa no apartamento domingo e tinha saído para uma caminhada ali do lado, comprar chá e pão doce na padaria, a duas quadras de onde eu morava. Depois, na quinta-feira, achei estranho quando o presidente veio me dizer ‘hoje eu vou comer sonho na padaria’. E ele foi lá naquela padaria, que é diametralmente longe do Palácio do Planalto, comeu no balcão, criou aglomeração. Eu pensei, será que que ele veio até aqui para depois eu reclamar em público que ele aglomerou gente mais uma vez? Aí ele poderia dizer ‘mas você também veio aqui, conforme esta foto’.”

Mandetta disse nunca ter conformado ou desconfirmado se foi ou não monitorado. Mas a simples desconfiança mostra o clima de “O Poderoso Chefão” no governo. Se o presidente faz isso com um aliado, imagina com o cidadão comum? Um dossiê sobre atividades antifascistas, talvez.

Mandetta poderia ir mais longe e procurado outros meios, legais, para registrar a acusação. Preferiu deixar o posto e escrever suas memórias.

Sergio Moro poderia fazer o mesmo.