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Lucio Costa, pai de Brasília, tem acervo doado a Portugal ao lado de Mendes da Rocha

·4 min de leitura
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 20.09.2018 - Um ícone do modernismo, o palácio Capanema, no Rio de Janeiro. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 20.09.2018 - Um ícone do modernismo, o palácio Capanema, no Rio de Janeiro. (Foto: Ricardo Borges/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Aos 82 anos, Lucio Costa recebia a revista Manchete na “cobertura de um velho apartamento de três pavimentos, talvez o mais antigo edifício da avenida Delfim Moreira, no fim do Leblon”. Era 1984 e ali, dizia o texto, reinava “a decoração espontânea”.

A expressão usada pelo repórter resumia “montes de jornais velhos, revistas, catálogos e folhetos” amontoados em “pilhas no chão e sobre velhas cadeiras”, num conjunto “simpático —como seu dono”.

O material visível era só parte dos 11 mil documentos que compõem o acervo do arquiteto e urbanista, cabeça à frente do Palácio Capanema, marco inaugural da arquitetura moderna no país, e criador de Brasília. Esse espólio acaba de ser transferido para a Casa da Arquitectura, em Portugal.

A migração dos papéis para a instituição em Matosinhos foi pautada por uma urgência.

Julieta Sobral, neta de Lucio e responsável por gerir a transferência, conta que há dois anos se colocou a necessidade de achar um novo lar para o acervo, hospedado no Instituto Antonio Carlos Jobim.

“Paulinho”, diz Julieta referindo-se ao filho de Tom Jobim, “é muito amigo”, e acolheu a papelada que, desde a morte de Lucio em 1998, a família —mais especificamente Maria Elisa Costa, filha do arquiteto e mãe de Julieta— organizou e digitalizou.

Até que, em julho de 2019, o Instituto Jobim passou por uma reestruturação jurídica e percebeu que não era viável manter o acervo, com a responsabilidade legal e altos custos implicados, como o de seguro. Era preciso tirá-lo de lá até o fim daquele ano.

A escolha pela Casa da Arquitectura se impôs “No Brasil não tem nenhum lugar com essa infraestrutura, reserva técnica, a capacidade de treinamento e cuidado do acervo. Infelizmente a gente não tem nada assim para arquitetura”, afirma Julieta.

Pouco antes da pandemia, a primeira parte dos papéis se deslocou para a instituição, que a família Costa já conhecera quando Maria Elisa foi convidada a dar uma conferência no âmbito da mostra “Infinito Vão”, em 2018.

A família colocou três condições para a doação. A primeira delas era que o conteúdo permanecesse íntegro.

“O que define o acervo é a totalidade de documentos do Lucio que estavam no apartamento quando ele morreu. Tem carta, foto de família, filme, rascunho”, elenca Julieta.

A flagrante barafunda que a revista Manchete encontrou em 1984 certamente se ampliou nos 14 anos seguintes. Mas, como registrava ainda a reportagem, Lucio era “o inverso de seu habitat”, com “os pensamentos em ordem”.

Ao lado de Maria Elisa, aplicou sua racionalidade a parte do acervo e, em 1995, lançou o livro “Registro de uma Vivência”, que reúne documentos, desenhos e fotos a escritos pessoais e profissionais.

A filha voltaria aos papéis após a morte do pai. Esvaziou o apartamento, que seria ocupado por sua irmã, Helena, levando tudo em caixas e catalogando o conteúdo com minúcia que hoje Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitectura, agradece.

Ao lançar a terceira edição do “Registro”, em 2018, Maria Elisa diria que “não é um livro sobre Lucio Costa, é o próprio Lucio, em forma de livro.”

O mesmo se aplica, em escala ampliada, à coleção que traz desde itens de importância evidente, como os desenhos do Plano Piloto de Brasília, a recados íntimos anotados em envelopes usados.

A preservação física dos documentos, em seus mais variados suportes, era a segunda condição da família, que já havia iniciado um trabalho de higienização dos conteúdos.

A Casa da Arquitectura, dona de uma infraestrutura que custou € 10 milhões (cerca de R$ 65 milhões) e com orçamento de € 3 milhões anuais, tem uma reserva técnica de ponta e vai escanear de novo, em maior resolução, todos os itens —21% deles, os projetos, já foram digitalizados.

A terceira condição era que o conjunto seja difundido.

O acervo, frisa Julieta, “não ficará um só dia indisponível”. Hoje, ele pode ser acessado no site do Instituto Jobim e assim ficará até que a Casa da Arquitectura inaugure o que chama de “edifício digital”, a plataforma que dará acesso às coleções sob sua guarda.

No entanto, durante todos esses anos, pesquisadores não podiam ter acesso aos itens físicos do acervo de Lucio. Nuno Sampaio diz que isso será possível na Casa. A instituição está desenhando um programa de bolsas de estudos, com apoio do governo português.

“Quando tu vais a um museu, a obra está no museu. Quanto tu vês acervo de arquitetura, vês representações; a arquitetura está lá fora”, diz o diretor. “Tudo isso ganha importância quando é ordenado, tratado, inventariado e disponibilizado para que outros consigam estudar esses processos, diferentes de arquiteto para arquiteto.”

Apesar dos cuidados, as críticas devem vir. A Casa se viu no centro de grande controvérsia quando recebeu o acervo de Paulo Mendes da Rocha, doado por ele próprio, em 2020, meses antes de morrer.

“O que Lucio fez é do mundo", diz Julieta. “Espero que novos arquitetos não precisem fazer esse movimento. E, se precisarem, que encontrem a acolhida que encontrei aqui.”

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