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Livro infantil sofre ataques de políticos e vira símbolo de resistência na luta pelos direitos LGBTQI+ na Hungria

João de Mari
·4 minutos de leitura
Ilustração para o conto sobre uma branca de neve, chamada Leaf Brown (Foto: Lilla Bölecz/Divulgação)
Ilustração para o conto sobre uma branca de neve, chamada Leaf Brown (Foto: Lilla Bölecz/Divulgação)

No dia 21 de setembro, o livro Meseorszag mindenkie (ou Um conto de fadas para todos, em livre tradução) foi lançado na Hungria e, em menos de duas semanas, teve sua tiragem inicial de 1.500 cópias esgotada para a surpresa dos idealizadores Dorattya Redai e Boldizsar Nagy. A obra reúne contos de fadas tradicionais em uma versão atualizada com personagens mais diversos, como pessoas LGBTQI+ em cenários modernos.

“Nosso objetivo era tornar a literatura infantil mais diversificada na Hungria e mostrar às crianças como a vida é colorida e maravilhosa”, disse Nagy, que é editor do livro, à revista norte-america Time. “Queríamos histórias que refletissem e honrassem a vida de todos os jovens”, completou.

Logo após seu lançamento, no entanto, a obra sofreu ataques homofóbicos de políticos por representar a sigla LGBTQI+, que indica lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros e travestis, queers, intersexuais e outras formas de orientação sexual, nas personagens das histórias. Entre os ataques disparados por autoridades, um deles foi feito pelo primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.

De acordo com a revista Time, os ataques motivaram um boicote público ao livro. Na mesma semana em que foi lançado, o vice-líder do partido de extrema direita Mi Hazank da Hungria rasgou as páginas do livro durante uma coletiva de imprensa. "Propaganda homossexual", disse à época.

Ativistas de direitos humanos e a Associação de Editores e Livreiros da Hungria rechaçaram a medida, considerando um ato semelhante ao dos “queimadores de livros nazistas e destruidores de livros comunistas”.

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Segundo a revista, o primeiro-ministro ainda afirmou que a “Hungria é um país paciente e tolerante com relação à homossexualidade. Mas há uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada e é assim que eu resumiria minha opinião: Deixe nossos filhos em paz ”.

Houve ainda um abaixo-assinado coordenado e uma campanha organizada pelo grupo de campanha ultraconservador CitizenGO pedindo a remoção do livro das livrarias. Até está quarta-feira (7), contabilizava 85 mil assinaturas.

De acordo com a revista, desde que Orban foi eleito para um cargo na Hungria, em 2010, a comunidade LGBTQI+ está sob crescente ataque. Isso porque uma nova lei local, de 2012, definiu a “instituição do casamento como a união de um homem e uma mulher” e “a família como a base da sobrevivência da nação”, excluindo os casais do mesmo sexo.

Além disso, no início deste ano, houve um artigo na constituição húngara que encerrou o reconhecimento legal das pessoas trans. De acordo com a segunda Pesquisa LGBTI da Agência de Direitos Fundamentais, 81% dos húngaros que se identificam com a sigla acreditam que a postura negativa e o discurso de políticos e partidos políticos é a principal razão para o aumento do preconceito, da intolerância ou da violência contra o grupo no país.

‘Não é exclusividade da Hungria’

Viktor Orban Prime Minister of Hungary attends a news conference following talks with his counterparts from central Europe's Visegrad Group in Lublin, Poland, on Friday, Sept. 11, 2020. In preparation for European Union summit this month, the prime ministers of Poland, The Czech Republic, Slovakia and Hungary discussed situation in Belarus, ties with Russia and fighting COVID-19. (AP Photo/Czarek Sokolowski)
Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria, participa de uma entrevista coletiva após conversas com seus colegas do Grupo Visegrad da Europa central em Lublin, Polônia (Foto: AP Photo/Czarek Sokolowski)

A revista ainda afirma que a controvérsia sobre livros inclusivos e considerados “de esquerda” não é exclusividade da Hungria. Porém, o fato da obra ter sido atacado e destruído por políticos do alto escalão, pode ter tornado a obra um símbolo de luta no país.

“Estamos fartos de sermos acusados ​​de fazer mal a crianças”, diz Redai, uma das idealizadoras do livro. “É muito problemático quando um primeiro-ministro diz algo assim, porque então os outros pensarão que também podem dizer isso”, disse.

As idealizadoras da obra afirmam que os comentários do primeiro-ministro ajudaram a legitimar a ação, já que as livrarias receberam muitos pedidos de compra, fazendo com que uma nova tiragem fosse feita. Uma segunda edição de 15.000 cópias será lançada na próxima semana. Esse número é considerado elevado para um livro infantil em um mercado pequeno, segundo a revista.

O livro inclui 17 histórias, apresentando personagens de gênero diverso e de origens étnicas, religiosas e socioeconômicas que nem sempre são representadas em histórias infantis por todo mundo.

As histórias abordam temas que vão da deficiência à pobreza e foram escritas por autores amadores e profissionais. Um dos idealizadores da obra afirmou à revista que este é o primeiro livro infantil sobre pessoas LGBTQI+ na língua húngara. “Queríamos dar voz aos que muitas vezes não têm voz”.

Nesta terça-feira (6), porém, um dos idealizadores contou que "uma organização de extrema direita colocou um grande pôster em uma livraria dizendo 'conteúdos homofóbicos perigosos para crianças são vendidos aqui'“. Ele resumiu seu sentimento à revista: “É uma reminiscência dos tempos fascistas, na verdade”.