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Livro causa polêmica em Portugal ao ironizar as heranças do colonialismo

·5 min de leitura

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - "O homicida proferiu vários comentários racistas antes de assassinar o indivíduo, que era negro, mas parece-me extremista dizer que isto se trata de um crime racista."

"A exploração colonial portuguesa, antiga e tardia, era harmoniosa e agradável, apesar de todo o sistema assentar na disposição e divisão hierárquica e legalmente prescrita das três raças --portugueses, indígenas e negros."

Essas são duas das dez frases que compõem um come-come --conhecido como cocas ou quantos-queres em Portugal-- que a professora portuguesa Patrícia Lino, da Universidade da Califórnia, criou para seu livro, o "O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial".

O cocas paradoxal, nome pelo qual o brinquedo foi batizado, por conter afirmações contraditórias, é um dos 40 objetos que Lino reuniu em seu "Kit". Poderia, ela diz, estar à venda em qualquer loja de souvenir portuguesa, com o objetivo de reforçar os alicerces do discurso colonial.

Nas páginas seguintes, o leitor é apresentado a "Notas sobre a Grandeza de Portugal que Não Fazem Sentido para Mais Ninguém a Não Ser para os Portugueses". Também fictício, o livro pede que os leitores memorizem e debatam as tais notas em grupo, mas sem se ofender "se alguém de qualquer outra nacionalidade não entender a evidente e imensa qualidade literária das notas".

A ironia, que atravessa a obra toda, causou polêmica em Portugal quando a obra foi apresentada em jornais do país. "[É um livro que] expõe, através do riso, as inconsistências do nacionalismo, além de repensar as funções do próprio riso, que pode ser tão ou mais eficaz e violento do que o tom respeitável de certos debates", diz Lino. Com seu "Kit", lançado no Brasil pela editora Macondo, ela chegou à semifinal do prêmio Oceanos, que seleciona as melhores obras do ano escritas em português.

É que, na avaliação da professora, meio milênio não bastou para que a colonização fosse esquecida ou ao menos passasse a ser vista de maneira crítica pelos portugueses. O discurso colonial, ela diz, impacta até hoje o cotidiano de cidadãos brasileiros, dos de outras ex-colônias e também dos de Portugal.

É a partir do colonialismo, ela afirma, que opressões estruturais como o machismo e a homofobia foram naturalizadas. Isso porque o nacionalismo teria sido construído a partir da "separação entre corpos 'humanos' e 'não humanos' e da inviabilização dos corpos 'queers'", isto é, que não se encaixam em papéis de gênero e sexualidade impostos no nascimento.

"[A colonização] materializa o perigo e a lógica retorcida da perspectiva universalista que, centrada unicamente em si, descarta qualquer outra perspectiva cultural, religiosa, linguística ou artística sobre nós, as coisas e o mundo", diz Lino em entrevista por email, expressando o receio de que sua fala seja distorcida pelo repórter, como diz ter ocorrido noutras ocasiões.

Somada às variações do português europeu, sua retórica complexa, formada por longas orações escritas carregadas de vírgulas, pode demandar uma leitura mais atenciosa para que a discussão seja compreendida de maneira plena. Mas os mesmos argumentos são contemplados de maneira menos rebuscada no "Kit", que faz parte da ementa de disciplinas de cursos da Universidade Federal de São Paulo, da Universidade do Rio de Janeiro e também de instituições internacionais como a Universidade de Oxford.

"O 'Kit' tira partido da ideia de auto-vitimização fabricada habitualmente pelo poder e, cada vez mais, pela extrema-direita. Penso, por exemplo, em termos ou expressões disparatadas como 'masculinismo', 'heterofobia', 'racismo contra os brancos ou pessoas de bem' etc", afirma.

Não são só os portugueses, diz a autora, que insistem em reproduzir as ideias coloniais ultrapassadas. Por se tratar de um fenômeno "cujo funcionamento tem como base a acumulação de capital e propriedade", elas também reverberam nas antigas colônias.

"No Brasil, correspondem, por exemplo, à luta pelo acesso à terra, à manutenção das terras ameríndias, cada vez mais ameaçadas pelo poder 'universalmente' branco e 'civilizado', e à impunidade com que o poder entra e violenta o espaço destas comunidades."

Para Lino, pôr um ponto final no colonialismo e, por consequência, nos malefícios que derivam dele, é uma missão "tão necessária quanto sobreviver".

Embora haja obstáculos, a autora avalia que é um processo que já está em curso, principalmente por meio da "cultura da escuta", que dá voz a minorias sociais historicamente silenciadas --mulheres, negros e LGBTQIA+s entre elas--, o que ela considera uma atitude que, por natureza, nada contra a maré do nacionalismo exacerbado.

É uma desconstrução que, quem sabe, pode começar pela língua. Há cerca de duas semanas, um dos principais jornais de Portugal noticiou que crianças portuguesas em idade pré-escolar estavam adotando em seu vocabulário expressões brasileiras por influência de figuras como Luccas Neto, dono de um dos canais do YouTube mais amados pelo público infantojuvenil, a quem, presos durante a quarentena contra a Covid-19, os pequenos não paravam de ver.

O texto abalou estruturas. Por lá, pais, mães e professores se diziam incomodados e até preocupados ao ouvirem, dentro de casa, um "oi, beleza?" ou verbos conjugados no gerúndio, com os tão estranhos sufixos "ando", "endo'' e "indo", em vez da construção habitual no infinitivo. Já por aqui, o episódio virou piada. Era reparação histórica, alguns diziam nas redes sociais.

Lino não estava nem aqui, nem lá. Nem fisicamente --ela vive em Los Angeles--, nem retoricamente. A professora analisou o fenômeno com seriedade. Poderia, afinal, ser considerado um desdobramento do seu próprio livro, que debate a relação entre países lusófonos e, consequentemente, a colonização --ou, neste caso, como disseram os internautas debochados, a decolonização.

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