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Lives de menores de 13 anos na Twitch têm sido prato cheio para pedófilos

Rafael Arbulu
·5 minuto de leitura

Os termos de uso da Twitch proíbem contas operadas por usuários menores de 13 anos de idade, mas isso não impediu que crianças entre 9 e 12 anos se logassem na plataforma e realizassem lives onde executam danças e desafios popularizados pelo TikTok, interagem com algumas dezenas de usuários e exibem suas rotinas diárias, de acordo com uma reportagem investigativa publicada pela Wired.

O problema com isso é até óbvio: predadores sexuais com atrações específicas por crianças — pedófilos, no termo mais direto. E sim, eles já estão interagindo com usuários de tenra idade.

Crianças estão burlando sistema de <em>age gate</em> do Twitch e acabam se tornando alvos de pedófilos na plataforma (Imagem: Reprodução/Belicosa Netnografia)
Crianças estão burlando sistema de age gate do Twitch e acabam se tornando alvos de pedófilos na plataforma (Imagem: Reprodução/Belicosa Netnografia)

Os nomes de contas a transmitirem os vídeos foram omitidos pela reportagem, evidentemente, até porque há legislações em todo o mundo que impedem que eles sejam publicados expressamente, mas um trecho da matéria claramente mostra a interação de uma menina de 10 anos com pessoas de bem mais idade e mensagens bem inapropriadas:

“No último final de semana, uma jovem menina se filmou com seu smartphone e clicou no botão de transmissão ao vivo no app móvel da Twitch. Sua stream apareceu sob a categoria ‘Só Na Conversa’ da plataforma, onde as pessoas se transmitem em conversas com seus seguidores”, diz o trecho publicado pela Wired.

"Ela explica que está prestes a inicar a sua rotina matinal. Em apenas alguns minutos, 11 espectadores apareceram, incluindo seu melhor amigo e vários estranhos. Um espectador pergunta a sua idade. Todos eles seguem assistindo-a após ela responder que tem 10 anos. Assim que ela puxa uma escova de dentes, um espectador anônimo pergunta em uma janela de chat adjacente se ela tem WhatsApp e diz que ela é ‘bonitinha’. Outro a chama de ‘linda’. O amigo dela escreve no chat: ‘Mano, eu não gosto nem um pouco disso’ e sai da transmissão”.

Um porta-voz da empresa disse à publicação: “Nosso app, tanto para desktop como para smartphones, impedem usuários de criarem contas se eles informarem uma data de nascimento que os indique como menores de 13 anos”, seguido de uma ressalva sobre os mecanismos de denúncia à disposição dos usuários da plataforma de streaming em caso de violação. Entretanto, a Twitch não respondeu se ou quais recursos possui que sejam especificamente dedicados a reforçar seus termos de uso ou coibir a participação de menores da idade estipulada.

Outras plataformas, como YouTube e Facebook, que contam com ferramentas de transmissão ao vivo, também têm casos de pedofilia e abuso, mas em menor grau e maior controle que o Twitch (Imagem: Reprodução/Diário Online)
Outras plataformas, como YouTube e Facebook, que contam com ferramentas de transmissão ao vivo, também têm casos de pedofilia e abuso, mas em menor grau e maior controle que o Twitch (Imagem: Reprodução/Diário Online)

O problema é que mais da metade das crianças nos Estados Unidos possuem um smartphone hoje em dia, segundo uma pesquisa conduzida pela empresa de estatística de mercado NPR. No que tange à Twitch, não há muitos obstáculos para a criação de contas e, supondo que uma criança saiba usar seu próprio smartphone, “mentir a data de nascimento” torna-se uma possibilidade bem verossímil. Durante o curso da investigação, a Wired identificou que, de seis das visualizações de stream disponíveis na categoria “Só Na Conversa”, pelo menos uma aparentava ser operada por uma criança de menor idade — muitas delas em dispositivos portáteis, como smartphones.

Em comparativo estabelecido pelo site, o YouTube Gaming e Facebook Gaming parecem ter um controle maior dessa situação: a plataforma do Google exige que, para fazer transmissões ao vivo via smartphone, o usuário tenha pelo menos mil seguidores, ao passo que a rede social de Mark Zuckerberg trabalha com dezenas de milhares de moderadores que ativamente identificam e eliminam conteúdos que fujam de seus termos de uso, o que inclui crianças. Vale citar, porém, que o Facebook tem dificuldades nesse aspecto, comumente sendo implicado na hospedagem de vídeos de conteúdo abusivo voltado à pedofilia e outros crimes.

Pelo mundo, diversas campanhas são veiculadas em busca de conscientização às atividades de abuso infantil, como essa da Grey Spain, por toda a Europa (Divulgação/Grey Spain)
Pelo mundo, diversas campanhas são veiculadas em busca de conscientização às atividades de abuso infantil, como essa da Grey Spain, por toda a Europa (Divulgação/Grey Spain)

Ao todo, a Wired identificou 12 contas operadas por crianças menores de 13 anos, com alguns casos bastante preocupantes e bem mais intensos que aquele listado no começo desta matéria: em alguns, a página cita um espectador que “desafia” a transmissora a fazer certas coisas, como jogar o cabelo igual uma supermodelo ou beijar amigos na boca em frente à câmera. Outros pedem informações de contato privado, como números do WhatsApp ou perfis em redes sociais. Além disso, a própria Twitch conta com um recurso de mensagem privada, fora mensagens de cunho inapropriado disfarçadas de desenhos em ASCII (aquelas carinhas humorísticas que você desenha com o teclado, como o “Lenny Face”, que é majoritariamente usado para indicar sarcasmo ou mensagem subliminar). Em toda a dúzia de contas, os transmissores estavam sem a supervisão de um adulto.

A Twitch respondeu novamente à publicação após a matéria ir ao ar: “A segurança de nossa comunidade global é uma prioridade para o Twitch e uma onde estamos realizamos investimentos perpetuamente. Nós trabalhamos continuamente para assegurar que todos os membros da comunidade tenham a experiência que nós lhes desejamos e investimos em tecnologias que deem esse suporte”, um porta voz afirmou. “Mais além, nós regularmente avaliamos e atualizamos nossas práticas para assegurar que estamos apropriadamente analisando comportamentos emergentes e em constante evolução”.

A empresa ainda afirmou que, em caso de suspeitas de violação dos termos de idade ou risco de menores em sua plataforma, ela conta com um time jurídico proativo e relata casos a entidades de proteção infantil.

Fonte: Canaltech

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