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Lenda dos quadrinhos, Neal Adams revela segredos editoriais da Marvel e da DC

Claudio Yuge

Neal Adams é uma verdadeira lenda dos quadrinhos. O autor de 78 anos foi muito importante para o amadurecimento dos quadrinhos como uma linguagem — e arte — tão influente quanto qualquer outra mídia. E pudemos conhecer um pouco mais sobre sua história e os bastidores da indústria em sua passagem pela Comic Con Experience 2019, onde ele revelou vários segredos editoriais da Marvel Comics e da DC Comics.

Adams começou nos anos 60, deixando para trás os trabalhos em publicidade para contar histórias. Além de anatomia mais precisa e sombras realistas, suas principais habilidades eram surpreender o leitor com ângulos inusitados e narrativa iconoclasta para os padrões da época. Seu primeiro grande trabalho foi com Deadman, na DC Comics, em 1968, quando chamou a atenção de Stan Lee na Marvel Comics.

“Eu trabalhava na DC Comics na época e, quando desenhei um gás na capa da revista do Deadman, ele provocava um ‘efeito Jim Steranko’ (Steranko ficou famoso por brincar com ilusões de ótica em suas capas nas histórias do Nick Fury, para a Marvel Comics)”, recorda o autor. Em seguida, ele foi chamado pelo próprio Stan para uma conversa.

Imagem: Claudio Yuge/Canaltech

“Entrei no escritório de Stan Lee e ele era muito empolgado, pulava sobre sua mesa como um palhaço no circo — não era a pessoa séria que pensava que era. Então, cheguei e disse a ele que já vinha trabalhando com a DC, mas que poderia trabalhar ‘no método Marvel’, porque eu tinha tempo para isso. Então perguntei a Stan o que tinha disponível para mim e ele disse: ‘qualquer revista que quiser’”.

Esse ‘método Marvel’ a que ele se refere era como se chamava um processo criado pelo próprio Stan, em que o artista criava e desenhava a história, enquanto os balões eram preenchidos pelos roteiristas. “Isso me deixou muito bravo com o Stan, porque ele inseria diálogos em seis revistas por semana. Ninguém consegue fazer isso. Mas ele conseguia”.

E foi assim que Adams passou a fazer parte de uma equipe que contava com Jim Steranko, Jack Kirby e Roy Thomas. Aliás, foi com esse último que ele fez parceria para revitalizar os X-Men.

X-Men estava prestes a ser cancelado

Foi na fase com os mutantes que Adams floresceu para o mundo, com um estilo nunca antes visto nas histórias de super-heróis. A representação do corpo e dos movimentos, assim como dos ângulos das sequências de ação, e até mesmo nas capas, foi um marco nos quadrinhos do gênero.

“Stan disse que me chamou para conversar porque a única revista da DC lida na Marvel na época era a que eu desenhava, Deadman. Então, quando ele me ofereceu um trabalho, perguntei qual era o título menos vendido. Ele disse que X-Men seria cancelado em dois meses. Quis fazer X-Men, porque, como estava para ser cancelado, podia fazer o que quisesse — ninguém estaria prestando atenção mesmo (risos)”, recorda o autor.

Imagem: Claudio Yuge/Canaltech

Adams afirma que uma parte do acordo com a Marvel era tornar os X-Men tão bem-sucedidos quanto os Vingadores. “O que vou dizer não faz muito sentido agora, mas, na época, era engraçado: Os Vingadores eram uma porcaria. Então fechei o acordo”, lembra. Depois disso, ele desenhou várias edições dos mutantes e chamou a atenção de todos justamente por conta da inovação narrativa que a revista apresentou.

A consagração com Brave and the Bold e Batman

Brave and Bold foi a primeira vez que Adams desenhou Batman, justamente na época em que o seriado de TV do Homem-Morcego perdia a força e todos estavam cansados daquela versão caricata do personagem, em 1968.

“Cheguei para Julius (Schwartz) e pedi para fazer uma história do Batman. Ele mandou ir embora de seu escritório. Mas, depois, ele pediu ajuda para criar algo para o personagem, que na época tinha seu seriado encerrado. Nessa época, o Batman andava de dia por aí com uma cueca sobre a calça. E nenhuma criança se perguntava: ‘mãe, por que esse cara está usando cueca sobre a calça’. Bem, o Batman rasteja à noite, nas sombras. E não de dia por aí com uma cueca sobre a calça (risos)”.

Foi assim que nasceu, então, uma antítese daquela versão da atração televisiva. O Batman de Adams passou a ser mais sombrio e interagiu com personagens como Deadman, Sargento Rock, Aquaman, entre outros. “Minha única restrição para fazer essas histórias é que o Batman não saísse de portas dizendo ‘Oi, eu sou o Batman!’ e que atuasse sempre à noite. Ah, ele tinha de sair do armário — mas não dessa forma que estão pensando (risos).”

Imagem: Claudio Yuge/Canaltech

Isso o levou a outros grandes projetos, como sua elogiada fase no Lanterna Verde e o Arqueiro Verde. Adams se lembra que, ao apresentar a ideia inicial do que viria a ser o On the Road dos quadrinhos, a DC Comics chegou a ridicularizar o conceito de “dois caras vestidos de verde por aí” redescobrindo a América. “Mas o que fizemos, eu e Dennis O’Neal, mudou o jeito de fazer quadrinhos para sempre.”

A briga com o Comics Code Authority

Adams era muito engajado na luta dos direitos dos quadrinistas. Até hoje ele encabeça reuniões sobre royalties que as editoras devem aos profissionais, incluindo a briga da família Shuster sobre os direitos do Superman junto a DC Comics — algo que ele disse ser “uma história muito longa” e que um dia vai “contar em um livro”. E, naturalmente, foi contra o famigerado Comics Code Authority (CCA).

Criado nos anos 50, o CCA nasceu de devaneios do psiquiatra Fredric Wertham, que conseguiu convencer pais e professores sobre a ameaça chamada “quadrinhos”. Ele descontextualiza os subtextos de várias histórias para dizer que haviam “mensagens ocultas” para seduzir crianças — seu livro chama-se The Seduction of the Innocent.

Imagem: Reprodução/DC Comics

Quase 20 anos depois de estabelecido, o CCA encontrou um grande oponente: Adams, em início de carreira, era mais irônico e gostava de criticar o governo Nixon. O desenhista comenta que chegou a ter problemas com o governo da Flórida e com editores, que não gostaram de sua representação do então presidente dos Estados Unidos e de Jesus Cristo em uma história do Lanterna Verde.

“Uma outra vez, fiz uma história dos X-Men em que queria desenhar um vampiro. O CCA proibia a ilustração de vampiros, monstros e lobisomens. Então, pensei que, em vez de um ser que suga seu sangue, ele pudesse sugar energia. Isso não seria caracterizado como um vampiro, então desenhei. Eles (CCA) nem desconfiaram, então, mesmo que fosse de forma limitada, era possível driblar o código.”

A polêmica capa de Ricardito usando drogas que derrubou o CCA

Outro episódio lembrado por Adams foi essencial para a queda do CCA nos anos que viriam. Até hoje a edição em que o sidekick do Arqueiro Verde, Ricardito, aparece usando drogas com uma seringa na capa do título é considerada um divisor de águas sobre a importância da nona arte fora das revistas. A história tinha um teor muito mais adulto do que normalmente era vendido para crianças e mostrava uma grande preocupação sobre o vício em entorpecentes. Foi chocante para a época.

Adams lembra que houve muita resistência no uso dessa ilustração, ninguém na DC queria usá-la.

“Mas daí, o Stan Lee, em uma história do Homem-Aranha, mostrou Norman Osborn abrindo um frasco de pílulas. O CCA, claro, disse que ele não poderia fazer aquilo. Mas daí ele perguntou ao seu tio burro, o editor (risos), se poderiam publicar sem o selo do CCA. Então, eles publicaram sem o selo. Nada aconteceu. Ninguém disse nada, nem notou que o selo não estava lá.”

Imagem: Claudio Yuge/Canaltech

Segundo Adams, foi aí que a indústria e os leitores passaram a ignorar o CCA, que, em seus primeiros anos, funcionava como um “selo de qualidade” e poderia comprometer as vendas. O fim do CCA foi um grande marco para o setor, que, depois disso, deu muito mais liberdade criativa para seus autores — ou seja, se hoje temos histórias adultas em quadrinhos no mercado mainstream, devemos bastante a esse capítulo, em especial da história dos heróis norte-americanos.

“Os editores da DC ficaram com minha capa por três meses em sua mesa e não conseguiram enfrentar o CCA. Stan Lee venceu sozinho a DC Comics. E foi aí que todo mundo percebeu que o CCA não era a ‘polícia’ e sim eram as próprias companhias de quadrinhos monitorando e criando regras para si mesmas. Em quatro dias, todos derrubaram o CCA, e Julius Schwartz ordenou que minha capa fosse publicada.”

HQ predileta

Há uma revista em especial na ampla biblioteca de trabalhos de Neal Adams. Ele afirma que é o clássico encontro entre Superman e Muhammad Ali, em uma edição de 72 páginas, publicada em 1978, com roteiros de Dennis O’Neil. O artista afirma que estudou bastante o movimento dos boxeadores para fazer uma fiel transposição da luta no papel.

Imagem: Reprodução/DC Comics

A história ganhou projeção global, não somente devido à qualidade do trabalho de Adams e de O’Neil, mas porque trazia esse confronto interracial, com uma mensagem de combate ao racismo.

“Um herói negro da vida real enfrentando o que seria o super-herói mais poderoso da fantasia. E eles estão em uma história em quadrinhos se enfrentando no mesmo nível. É assim que o mundo deveria funcionar. Essa é minha história favorita, mas não sou eu exatamente que acho essa ideia especial. É o mundo que acha essa história especial e ela será reimpressa para sempre.”

Fonte: Canaltech

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