Mercado fechado

Governadores ficam frustrados com leilão do pré-sal; Bolsonaro discorda

Foto: MAURO PIMENTEL/Mauro Pimentel/AFP via Getty Images

Os governadores de alguns dos estados mais beneficiados pelo megaleilão do pré-sal organizado pelo governo federal nesta quarta-feira (6) dizem se sentir frustados com o resultado e que aguardavam valores superiores, como havia sido projetado.

SIGA O YAHOO FINANÇAS NO INSTAGRAM

BAIXE O APP DO YAHOO FINANÇAS (ANDROID / iOS)

A falta de interessados em duas das áreas reduz os valores que o governo dividirá com estados e municípios. Dos cerca de R$ 70 bilhões, R$ 34,2 bilhões serão repassados à Petrobras como ressarcimento por mudanças no preço do petróleo após a assinatura do contrato de cessão onerosa.

Leia também

Entre os estados que previam arrecadar mais de R$ 500 milhões com cessão onerosa estariam Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará e os nordestinos Bahia, Maranhão, Pernambuco e Ceará.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), disse que o sentimento após o leilão do pré-sal é de frustração. Ele afirmou que a situação é preocupante porque existia uma confiança que não se concretizou. 

"Frustrou as expectativas até porque eram quatro blocos e apenas dois conseguiram êxito e sem competição."

Câmara comunicou que o estado vai ter que se reprogramar em relação à chegada dos recursos oriundos da cessão onerosa. "Evidentemente, a situação dificulta. Mas vamos continuar trabalhando. Esperamos que, mais na frente, os erros de condução deste processo sejam corrigidos". 

O secretário da Fazenda da Bahia, Manoel Vitório, afirmou que resultado do leilão gerou frustração com relação à expectativa original, que era de uma arrecadação maior. 

"Este desfecho só reforça o entendimento que a Bahia sempre expressou, de que os estados precisam ser conservadores quanto às previsões de receitas anunciadas, mas incertas", disse o secretário, da gestão Rui Costa (PT).

O governo do Maranhão, sob gestão de Flávio Dino (PC do B), afirmou que o estado aguardava os recursos da cessão onerosa para o orçamento. Porém, destacou que a ausência do dinheiro não comprometerá a cobertura das despesas obrigatórias do exercício financeiro de 2019.

No Rio, o governo Wilson Witzel (PSL) diz que as receitas não estavam previstas no orçamento, logo, não será necessário ajustar a execução orçamentária em função disso, e que não tinham despesas programadas com esse recurso. Diz, ainda, que a lei permite o uso somente para o pagamento de despesas previdenciárias e com investimentos, e que o estado cumprirá essa determinação.

Bolsonaro discorda

Já o presidente Jair Bolsonaro (PSL) discorda que o resultado do leilão tenha sido frustrante. "Tinha quatro áreas, foram vendidas duas, foi um sucesso", disse ao deixar o Palácio da Alvorada na noite desta quarta-feira (6) para participar de uma cerimônia do Ministério Público militar.

Questionado se o resultado não frustra o governo, por ter sido aquém do esperado, ele negou.

"Nenhuma, zero. Ia leiloar 4, leiloou 2. Lógico que vai ser menor do que o previsto."

Esta foi a primeira vez que Bolsonaro comentou o tema. Ao longo de toda esta quarta ele não dedicou nenhuma de suas publicações em redes sociais para tratar do leilão.

O presidente aproveitou para criticar a imprensa, dizendo que sempre haverá crítica ao governo.

"Não é o teu caso, mas parte da mídia tem sempre o que falar. Agora, o que faltou falar: se vender zero vai ser zero, não tem frustração. Vendeu metade, mais da metade. Lógico que é o campo mais importante foi vendido. Sem frustração, estamos fazendo nosso trabalho, o dinheiro é bem-vindo", afirmou.

Impacto no mercado

A cotação do dólar teve uma forte alta de 2,20% nesta quarta-feira (6) e foi a R$ 4,0810, maior valor desde 21 de outubro. A falta de estrangeiros interessados no megaleilão do pré-sal frustrou as expectativas do mercado de entrada de dólares no país, o que poderia fazer a moeda americana a se enfraquecer ante o real. 

"A frustração com os leilões foi bem grande, pegou todo mundo de surpresa. Acreditávamos que o dólar iria para R$ 3,95 com a entrada dos estrangeiros, foi muito frustrante", afirma Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

A economista aponta que o fluxo negativo de dólares no ano preocupa. Segundo o relatório de 'Movimento de câmbio contratado', do Banco Central (BC), a saída de dólares em operações financeiras é de US$ 35,5 bilhões (R$ 144,8 bilhões) no acumulado de 2019. Em 2018, a saída foi de US$ 48,7 bilhões (R$ 198,6 bilhões).

"A falta do estrangeiro no leilão de hoje mostra que eles não têm interesse em investir no Brasil. O país está como o patinho feio da história pelo problema de reputação do governo, pela falta de crescimento da economia e pelo juros muito baixo", diz Consorte.

Ela cita as queimadas na Amazônia como um dos grandes problemas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) ante investidores estrangeiros.

Segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IFF), o fluxo de investimentos estrangeiros destinados a países emergentes está positivo em US$ 78 bilhões em 2019 para todos os emergentes --tirando a China, que tem um fluxo maior. O Brasil, no entanto, está com este fluxo negativo em US$ 6 bilhões no ano.

Para o mercado doméstico, o leilão desta quarta (6) representava uma virada neste cenário, com forte entrada dos estrangeiros e um grande fluxo de dólares.

Para Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, a estratégia do leilão também afastou estrangeiros.

"O esvaziamento do leilão aponta alguns erros no processo do leilão. A estratégia do governo em majorar o valor dos bônus se mostrou equivocada, visto que o governo não só majorou o bônus como solicitava que as entrantes negociassem com a Petrobras uma indenização", afirma.

Abertman também destaca que a falha do governo em entregar o megaleilão que prometeu também é negativa para o mercado. "O governo sai com a capacidade de organizar pleitos e fomentar projetos de infraestrutura, importantíssimos para o desenvolvimento do país e o 'destravamento dos investimentos', questionada".

Em 2019, a saída de estrangeiros da Bolsa de valores brasileira soma R$ 30 bilhões, pior saldo desde 2008.

"O mercado precificou um apetite maior dos estrangeiros por risco e se decepcionou. A fuga de capital do país continua", afirma Márcio Gomes, analista da Necton Investimentos.

Nesta quarta, o Ibovespa fechou em queda de 0,33%, a 108.360 pontos em linha com exterior mais negativo. O volume negociado foi de R$ 20,435 bilhões, acima da média diária para o ano.

Durante o pregão, as ações da Petrobras tiveram fortes oscilações. Os papéis preferenciais, mais negociados, foram de uma alta de 3,5% na primeira hora de negociação a uma queda de 5,25% às 11h10, após a divulgação do resultado do leilão.

Ao final do dia, as ações preferenciais terminaram em leve alta de 0,20%, a R$ 29,71. As ordinárias, com direito a voto, não conseguiram se recuperar e fecharam em queda de 0,43%, a R$ 32,41.

Novo leilão

O Brasil realiza nesta quinta-feira (7) mais um leilão, desta vez de cinco blocos diferentes do pré-sal. Serão oferecidas as regiões de Aram, Bumerangue, Cruzeiro do Sul e Sudoeste de Sagitário, na Bacia de Santos, e Norte de Brava, na Bacia de Campos, por bônus de assinatura fixos que totalizam R$ 7,85 bilhões.

Há a expectativa de que o leilão desta quinta-feira tenha competição, ao contrário da rodada realizada na quarta-feira, com o cenário favorecendo ainda a presença da Petrobras em parceria com outras petroleiras.

Na véspera, o diretor-geral da ANP, Décio Oddone, afirmou que seria "muito inesperado" que a Petrobras desistisse do direto de preferência já exercido pelas três áreas, mesmo diante dos grandes valores empenhados no leilão anterior.

Ele ressaltou ainda que a 6ª rodada do pré-sal é um leilão considerado convencional, com áreas da União em oferta para atividades de exploração de óleo e gás, sem as complexidades envolvidas no certame dos excedentes da cessão onerosa.

"Eu acredito que terá competição... Acho inclusive que tem mais sentido (para a Petrobras) fazer consórcio na 6ª rodada do que no leilão da cessão onerosa... Búzios (da cessão onerosa) é o maior campo offshore do mundo, a Petrobras está lá, é operadora, dona de 100% da parte da cessão onerosa, se eu tivesse na Petrobras...”, disse Oddone.

Aram é a área com maior bônus da 6ª rodada do pré-sal, de R$ 5,05 bilhões, enquanto Cruzeiro do Sul teve bônus fixado em R$ 1,15 bilhão; em Bumerangue, são R$ 550 milhões; Sudoeste de Sagitário, R$ 500 milhões e, em Norte de Brava, R$ 600 milhões.

Ao todo, há 17 empresas habilitadas para a 6ª rodada, maior número já registrado para licitações em regime de partilha no Brasil, após o leilão de quarta-feira ter sido alvo de críticas devido à baixa participação de petroleiras. Esse grupo inclui gigantes como Exxon, Chevron, BP, Equinor e Shell, além da colombiana Ecopetrol e outras.

Ali Hage, sócio da área de óleo de gás do Veirano Advogados, afirmou em nota que o leilão desta quinta-feira deverá ser melhor que o realizado na véspera e, após sua conclusão, será possível fazer uma avaliação mais precisa sobre o resultado das ofertas realizadas pelo governo federal.

O sócio do escritório Mattos Filho especialista em Óleo e Gás, Giovani Loss, foi na mesma linha e afirmou em nota que "a expectativa é que (a 6ª rodada) tenha um resultado melhor e mais competitividade", frisou.

Nas rodadas de partilha, os bônus de assinatura (valor pago em dinheiro pelas empresas que arrematam blocos) são fixos e o excedente em óleo para a União é o único critério para definir a licitante vencedora (vence a que ofertar o maior percentual), segundo informação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que realiza o leilão.

Com Folhapress e Reuters