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Quatro anos depois, sangria da Lava Jato pode ser estancada. Com PGR, com tudo

Jair Bolsonaro durante a posse de Augusto Aras na PGR, em setembro de 2019. Foto: Adriano Machado/Reuters

Para estancar a sangria causada pela Lava Jato, Romero Jucá, então ministro do Planejamento do recém-empossado governo Temer, defendia, em maio de 2016, um grande acordo nacional, com Supremo, com tudo.

Faltou combinar com a Procuradoria Geral da República. 

Pouco antes do impeachment de Dilma Rousseff, Sérgio Machado, ex-presidente investigado da Transpetro, foi orientado a gravar aliados, como Jucá, de forma oculta, para conseguir uma eventual delação premiada.

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O então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, voltaria a assombrar o governo Temer quando, também de olho numa delação, o dono da JBS, Joesley Batista, usou um gravador escondido para registrar uma conversa particular com o presidente dizendo que o acordo nacional agora envolvia a compra do silêncio de juízes, procuradores e ex-aliados -- Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara preso na Lava Jato, entre eles.

Apesar da articulação, todos acabaram ou presos ou denunciados.

Jair Bolsonaro, eleito em 2018 com forte discurso anticorrupção e rejeição à política tradicional, conseguiu trocar de meia sem tirar os sapatos.

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Em setembro de 2019, ele ignorou a lista tríplice dos nomes mais votados do Ministério Público Federal e escolheu seu próprio procurador-geral após uma série de sabatinas promovidas por ele mesmo.

Augusto Aras foi ungido pelo bolsonarismo enquanto Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato que seu antecessor queria estancar, era estancado num canto do Ministério da Justiça, de onde ouvia obediente às ordens do chefe a respeito de excludentes de ilicitude e do aumento de munição para civis.

A coisa engrossou quando, diante dos outros ministros, Bolsonaro humilhou o subordinado ao avisar que era ele quem mandava e ele estava mandando trocar a chefia da Polícia Federal e ponto. Quem não estivesse satisfeito que saísse. 

Moro saiu. Atirando, é verdade. Mas, sem a toga, o tiro soou como festim.

Durante um período, tanto Aras como Moro poderiam alimentar o desejo de ganhar a indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal ao fim deste ano. É a cenoura na ponta da linha que Bolsonaro usa para testar a fidelidade de seus escolhidos. Foi com essa cenoura que a deputada Carla Zambelli, emissária de Bolsonaro para assuntos de WhatsApp, tentou convencer o Sergio Moro a permanecer no governo. Bastava aceitar o novo comandante da PF no momento em que os filhos do presidente eram investigados para ganhar um passaporte ao STF em setembro.

Moro não topou.

Com o seu desembarque, saíram também os embaraços para um novo pacto nacional menos pretensioso que a idealizado por Romero Jucá. Seus articulares provavelmente sacaram que bastava uma peça certa, e não um tribunal inteiro, para estancar qualquer sangria.

No fim de junho, o grupo de trabalho da Lava-Jato na PGR pediu demissão após a subprocuradora-geral da República Lindora de Araújo, braço direito de Augusto Aras, fazer uma visita à força-tarefa em Curitiba na qual ela teria tentado obter acesso a informações sigilosas do banco de dados da operação. O caso foi parar na Corregedoria do MPF.

Um mês depois, o procurador-geral fez graves insinuações à turma de Curitiba. Entre outras coisas, disse não saber como haviam sido colhidos os terabytes relacionados a 38 mil pessoas nos dados da Java Jato na capital paranaense. “Não se pode imaginar que uma unidade institucional se faça com segredos, com caixas de segredos”, disse Aras em uma videoconferência. 

Em nota, a força-tarefa mostrou que sentiu o golpe: “A ilação de que há ‘caixas de segredos’ no trabalho dos procuradores da República é falsa, assim como a alegação de que haveria milhares de documentos ocultos”.

Autorizada ainda na gestão Raquel Dodge, a renovação da portaria que criou a força-tarefa da Lava Jato expira em agosto. Prorrogada por cinco anos seguidos, tudo leva a crer que desta vez será diferente.

“Eu acredito que chegamos a um momento de desmonte institucional da forma de combater a corrupção empregada nos últimos anos”, declarou ao jornal O Globo, em tom resignado, o procurador-símbolo da Lava jato em Curitiba, Deltan Dallagnol.

Bolsonaro não teria chegado até onde chegou sem a Lava Jato.

Tanto não chegaria que cooptou o ex-juiz da operação, exaltado por ele antes e durante a campanha, para seu governo.

Como agradecimento, não precisará mover uma palha nem publicar nenhuma nota de lamento pelo provável fim da operação, enquanto seu ex-ídolo, ex-aliado e provável ex-futuro adversário em 2022 poderá se tornar inelegível caso o avance o grande acordo nacional, com Supremo, com Congresso, com tudo, para que juízes só possam disputar eleições oito anos após deixarem a magistratura.

O acordo de Romero Jucá virou coisa de escoteiro perto do que viria a seguir.