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Latino-americanos na Itália entre o medo e a prudência diante do coronavírus

Por Kelly VELASQUEZ
O número de infecções por COVID-19 na Itália, o país mais atingido da Europa, atinge a marca de 400 no final de 26 de fevereiro, com 12 mortes

Não sai de casa e não quer trabalhar. A equatoriana que cuida de uma idosa italiana de 84 anos em Zorlesco, na "zona vermelha", uma das 10 cidades da Lombardia isoladas pelo coronavírus, está aterrorizada.

"Não consigo acalmá-la", conta à AFP a italiana Ombretta, professora universitária, que precisa da ajuda da equatoriana para cuidar da mãe idosa na pequena cidade da Lombardia, norte da Itália, país que se tornou 'exportador' do vírus para a maioria dos países europeus, Brasil e Nigéria.

Desde o último final de semana, cerca de 50.000 habitantes foram isolados na região norte por ordem das autoridades devido ao surto de coronavírus, que já infectou mais de 650 pessoas e fez 17 mortos.

Como a equatoriana, muitos latino-americanos residentes na Itália sentem pânico em uma situação que nunca experimentaram.

"O medo é sentido entre as pessoas. A cidade está vazia, as pessoas temem contato físico e as poucas que circulam usam luvas e máscaras", diz a venezuelana Grecia Fermín, de 39 anos, que vive há 13 na Itália, dos quais cinco em Milão, capital da Lombardia.

Embora não esteja na zona de alto risco, Fermín precisou assinar uma declaração e preencher um formulário para receber na quinta-feira tratamento fisioterapêutico que havia marcado.

"Eles me fizeram lavar as mãos e declarar que não tinha gripe ou tosse, nem sintomas de coronavírus", conta.

Embora já tenham passado seis dias e as pessoas pareçam um pouco mais calmas, a venezuelana não quer mais assistir televisão.

"Chega de televisão. Espero que os bares reabram amanhã. A medida é exagerada. Parece que estamos em guerra", lamenta ela após ter perdido vários trabalhos devido ao cancelamento das feiras e eventos.

- Sem trabalhar -

A peruana Zeila, de 66 anos, trabalha na Itália há 28 anos e chegou há quatro dias do Peru.

Como reside a meia hora de Casalpusterlengo, outra cidade isolada, decidiu se isolar.

"Estou resfriada porque fazia calor no Peru e aqui faz frio. Decidi não sair de casa", confessa.

"Desde que soube que detectaram o vírus em outros países europeus, estou um pouco mais tranquila. Parece que não é tão mortal", aponta.

Ela ficou surpresa em ver produtos de limpeza e alimentos "esgotados", mesmo que os supermercados estejam abertos.

Como todo mundo, espera alguma indenização ou benefício fiscal, especialmente porque muitos jovens latino-americanos que trabalham na entrega de pacotes para a Amazon, que tem uma sede na vizinhança, perderam horas de trabalho.

"Não vou trabalhar e meu sobrinho não sai porque está ligado ao computador", admite.

A turista colombiana Johana Torres, que mora na Espanha, mas passou férias em Roma, usa máscara, mesmo que ainda não seja obrigatória.

"Decidimos comprar as máscaras no aeroporto. Estamos um pouco assustados. Mas quando estamos em uma aglomeração e há muitas pessoas, tentamos colocar as máscaras", explica.

"Ficaremos três dias e queremos aproveitar", diz enquanto caminha pelo Coliseu.

Para Josué Mejía, da Guatemala, o importante é "ter cuidado". Ele carrega consigo máscaras e gel desinfetante.

"Consegui comprá-los na terceira farmácia. Viemos da Guatemala e também iremos para a França. Como vamos estar onde há muitas pessoas, decidimos usar máscaras como precaução", confessa.