'LaLiga tem um problema com o racismo', afirma Ancelotti em defesa de Vini Jr

O técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, e o atacante brasileiro Vincius Jr, durante a partida em Valência, em 21 de maio de 2023
O técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, e o atacante brasileiro Vincius Jr, durante a partida em Valência, em 21 de maio de 2023

"LaLiga tem um problema com o racismo", declarou o técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, ao comentar os insultos recebidos pelo atacante brasileiro Vinicius Junior na partida em que a equipe foi derrotada por 1-0 pelo Valencia no domingo.

Carlo Ancelotti revelou que propôs a Vini Jr, que foi expulso no fim da partida, substituí-lo para proteger o atleta e denunciou a gravidade da situação, que provocou a reação do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em Hiroshima, Japão, onde participava na reunião de cúpula do G7.

"Falei com ele durante o jogo, o clima estava muito pesado, muito ruim, perguntei se ele queria continuar jogando. O fato de eu achar que devo tirá-lo porque o ambiente é racista não me parece bom. Eu tenho que tirar um jogador se ele não jogar bem, mas pensar em tirar um jogador por racismo, isso nunca aconteceu comigo", afirmou Ancelotti.

O que aconteceu hoje já aconteceu outras vezes, mas não assim. É inaceitável. A LaLiga espanhola tem um problema. Não é o Vinicius. Vinicius é a vítima. Há um problema muito grave", acrescentou o técnico italiano.

Durante a partida, os torcedores no estádio Mestalla insultaram o brasileiro.

Ancelotti declarou que ouviu gritos de "mono" ("macaco" em espanhol), mas um jornalista espanhol afirmou ao técnico durante a entrevista coletiva que os torcedores gritavam "tonto" (algo como "burro" ou "estúpido") .

A explicação não convenceu o treinador italiano. "Por que o árbitro parou a partida? Porque o chamaram de 'tonto'? Não. Ele parou a partida porque abriu o protocolo de racismo. O árbitro parou a partida para abrir o protocolo de racismo. Falem com o árbitro. Ele parou o jogo por isto".

Aos 25 minutos do segundo tempo, Vini Jr apontou para um torcedor e, em seguida, os jogadores relataram os insultos ao árbitro.

Além do incidente, outro incidente envolvendo o brasileiro e Hugo Duro resultou na expulsão de Vinicius nos acréscimos, mas o árbitro não puniu o rival Duro.

"Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas", escreveu Vinicius no Twitter.

LaLiga reagiu e afirmou que "solicitou todas as imagens disponíveis para investigar o ocorrido".

"Uma vez concluída a investigação, caso seja detectado algum crime de ódio, LaLiga adotará as ações legais cabíveis", afirmou a entidade presidida por Javier Tebas.

- "Episódio isolado" -

Em um comunicado divulgado após a partida, o Valencia CF afirma "condenar publicamente qualquer tipo de insulto, ataque ou desqualificação no futebol" e lamenta "os atos ocorridos durante 35ª rodada de LaLiga contra o Real Madrid", embora o clube tenha mencionado um "episódio isolado"

"O clube está investigando o ocorrido e tomará as medidas mais severas. Da mesma forma, o Valencia CF condena qualquer ofensa e também pede o máximo respeito aos nossos torcedores", acrescenta a nota.

"Vinicius é continuamente desrespeitado em todos os campos da Espanha", denunciou Dani Ceballos após a partida.

"Se ele (Vinicius) tivesse falado 'vou embora', eu teria saído com ele. É algo que não pode ser tolerado", declarou o goleiro Thibaut Courtois.

Vinicius recebeu várias manifestações de apoio.

"Não é possível que, quase no meio do século 21, a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol na Europa", disse Lula ao expressar solidariedade ao atacante.

Vini Jr também recebeu mensagens de apoio de Neymar, do francês Kylian Mbappé e do cantor e compositor Gilberto Gil.

"Tô contigo", escreveu Neymar no Instagram. "Você não está sozinho. Nós estamos com você e te apoiamos", escreveu Mbappé na mesma rede social.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, expressou nesta segunda-feira "total solidariedade" ao atacante brasileiro.

"Toda a nossa solidariedade a Vinícius. Não há lugar para o racismo no futebol, nem na sociedade e a Fifa apoia todos os jogadores e todas as jogadoras que passaram por esta situação", afirmou Infantino em um comunicado.

Ele recordou as três etapas recomendadas em competições organizadas pela Fifa em caso de insultos racistas e expressou o desejo de que sejam "aplicadas em todos os países e em todas as ligas".

"Primeiro, você interrompe a partida e anuncia. Em segundo lugar, os jogadores deixam o campo e o locutor anuncia que, se as agressões prosseguirem, a partida será suspensa. A partida recomeça e, em terceiro lugar, caso os ataques continuem, a partida é encerrada e os três pontos vão para o adversário", destacou o presidente da Fifa.

pve/bvo/iga/psr/zm/jvb/fp