Mercado fechado

Vendedora de perucas que fatura R$ 80 mil ao mês quer empoderar mulheres negras

Amanda Caroline
·4 minutos de leitura

A paulista Leide Vailante, de 40 anos, se tornou uma empresária bem-sucedida do ramo da beleza sem querer. Há cinco anos, a vendedora estava insatisfeita com a próprio cabelo e importou cinco perucas para dar um renovar o visual. “A mulher negra sofre com o excesso de química no cabelo porque a sociedade impõe o fio liso, virou padrão. Quando chega na minha idade, ela já não tem nada: perdeu cabelo, dinheiro e autoestima”, explica em entrevista ao Yahoo. “Busquei o que as norte-americanas estavam usando, percebi que elas trocavam de cabelo e cheguei nas laces. Achei incrível”, completa.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Instagram, Facebook e Twitter

Foi paixão à primeira vista. Quando as peças chegaram, Leide tratou de compartilhar selfies poderosas nas redes sociais para mostrar seus novos cabelos. “Estava muito animada e me sentindo bonita”, relembra. A repercussão das fotos foi grande e positiva, tanto que as amigas ficaram interessadas nas perucas. Empreendedora nata, a moradora do Grande ABC enxergou ali uma oportunidade de ganhar dinheiro. “Sou filha de camelô, né? Tirei da minha cabeça e vendi todas. Não fiquei com nenhuma”, revela.

Leia também

A partir de então, ela passou a se sustentar importando e vendendo perucas sob demanda. “A procura aumentou e trabalhei dessa forma por um ano sem fazer investimentos. Sempre fui vendedora, dizem que sou meio ‘roleira’, mas vi que poderia transformar aquilo numa empresa”, conta. Assim nasceu a loja online Lady Laces. “Registrei o nome, montei um estoque e abri uma página no Facebook, o que foi primordial para o meu trabalho.”

(Foto: Reprodução/Instagram @ladyelaces)
Lady Laces faz sucesso na internet; empresária tem 55 mil seguidores no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram @ladyelaces)

Muito antes da febre das lives na quarentena, a Lady Laces já vendia perucas em transmissões ao vivo — e essa é a sua principal e mais eficiente estratégia de vendas. “Site é muito frio, não dá para vender apenas por lá. A peruca é um acessório que muda a autoestima da mulher e é uma escolha muito pessoal. Tive muita sorte de entender isso há quatro anos”, diz a empresária.

“A resposta foi imediata e orgânica, nunca impulsionei propaganda no Facebook. As pessoas entenderam a ideia e o boca a boca foi forte”, comemora. Leide (que virou Lady) também conseguiu a oportunidade de divulgar seu trabalho no ‘A Hora do Faro’, da Record. “O Rodrigo Faro me deu espaço no palco, foi a realização de um sonho. Isso é difícil para quem é pequeno e sinto apenas gratidão”, declara. Foi nos bastidores da emissora que ela conquistou duas clientes célebres: Sabrina Sato e Jojo Todynho. A cantora virou amiga e hoje ostenta as perucas de Lady em ‘A Fazenda 12’.

“Ryca” na pandemia

O novo coronavírus foi cruel com muitos empresários brasileiros, que tiveram que fechar as portas devido às consequências econômicas da pandemia. Mas Lady, felizmente, só pode comemorar: as vendas de perucas aumentaram nos últimos tempos. Ela diz que fatura R$ 80 mil ao mês atualmente.

“O cenário era assustador. A importação fechou, achei que as peças ficariam paradas... Mas não, aconteceu o contrário. Com os salões de beleza fechados e com, as mulheres ficaram de olho na internet. E assim a demanda duplicou.” Lady, agora, tem representantes de sua marca em todos os estados do país para humanizar as vendas. “Contratei um time para ter contato com as clientes. Elas precisam receber o nosso afago”, afirma. A Lady Laces vende perucas e laces a partir de R$ 200 e as peças podem chegar a R$ 3 mil.

Peruca é sinônimo de empoderamento

Lady avalia que as brasileiras ainda têm preconceito com as perucas. “Aceitar a peruca é muito difícil, ela ainda é associada com doenças que causam a queda de cabelo. Mas é uma libertação absurda”, garante. Além de crescer na carreira profissional, a empresária quer levar outras mulheres negras junto consigo.

“A cobrança estética é muito grande para as negras. A primeira coisa que falam para uma negra em casa é ‘vai alisar o cabelo’. A gente cresce ouvindo que o nosso cabelo é ruim. Com as perucas, você pode ser quem você quiser. Posso ser cacheada hoje, mas amanhã posso ser lisa. E ninguém pode me obrigar a ter um padrão. Quando você se sente empoderada com o cabelo, ninguém te segura”, finaliza.