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Laboratório tenta levar cultura do Vale do Silício ao serviço público em São Paulo

Palco do Encontro Internacional de Inovação em Governo, evento organizado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo e pelo (011).lab.

Criado em 2017, o (011).lab é um grupo de trabalho da prefeitura de São Paulo que tem como objetivo não declarado de levar uma cultura de startups de tecnologia, como as que se proliferam no Vale do Silício, nos Estados Unidos, ao serviço público da capital paulista.

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Recentemente, o grupo conseguiu atrair um investimento de 3,5 milhões de euros da União Europeia que se soma ao orçamento de R$ 132,2 milhões para 2019 aprovado pela Câmara Municipal de São Paulo à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, que coordena o projeto.

Mas o que faz o (011).lab com todo esse dinheiro - que, em grande parte, é público?

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Vitor Fazio, coordenador geral de plataformas de inovação do SMIT, explica que o laboratório é "uma iniciativa que fornece espaço para as pessoas repensarem como trabalham no setor público".

Localizado no quarto andar do famoso Edifício Grande São Paulo, um arranha-céu no centro histórico da cidade com vista para o Vale do Anhangabaú, o (011).lab marca encontros entre funcionários públicos, cidadãos e pequenos empresários para desenvolver ideias de como melhorar o serviço oferecido pela prefeitura paulistana.

Em alguns casos, as ideias que saem do laboratório podem mudar processos na administração pública ou podem até render parcerias público-privadas. O objetivo é tornar a relação entre cidadão e prefeitura mais direta, semelhante à maneira como usuários se relacionam com aplicativos de celular, por exemplo.

"Empresas de tecnologia experimentam novas maneiras de facilitar a vida do usuário todos os dias. E se você pensar, o governo é a organização com mais usuários em potencial. Todo mundo usa serviços do governo, se você tem segurança pública, zeladoria etc.", comenta Fazio.

Resultados do trabalho

Um dos resultados deste trabalho de brainstorming é a reformulação do site SP156, um portal que concentra os principais serviços de zeladoria da prefeitura. Antes um labirinto para usuários tentando resolver problemas, após um longo trabalho de estudo, experiências e discussões, hoje o site tem um design mais orientado ao usuário e conta até com uma turnê virtual para o cidadão encontrar com mais facilidade os serviços buscados.

Análises de tráfego mostram que com o novo site do SP156 - que permite denunciar descarte irregular de lixo, focos de dengue e esgoto a céu aberto, entre outros problemas típicos de São Paulo - os usuários conseguem encontrar muito mais fácil e rapidamente os serviços que antes ficavam quase escondidos.

Outro problema que o (011).lab tem tentado resolver é o da linguagem utilizada pelo governo em chamamentos públicos, editais e convocações para concursos e concorrências. "As pessoas não entendem o que o governo fala. O governo está preso dentro de uma linguagem que é quase erudita", comenta Fazio.

Neste processo de "tradução" da linguagem estatal, o time do laboratório elaborou o texto oficial da convocação para o Pitch Sampa, um programa que seleciona propostas de startups para solucionar problemas da cidade em tempo hábil, por exemplo.

"O ser humano não é uma máquina, ele sofre, tem frustrações. Dar instrumentos para ele mudar sua comunicação é bom para o cidadão, mas é bom para o servidor público que o atende, é bom para a empresa nascente que quer entender como ela pode ajudar. É bom para todo mundo", diz Fazio.

“Pés no chão”

Se a SMIT, que administra o laboratório, fosse uma startup, o CEO seria o secretário Daniel Annenberg, ex-vereador e ex-presidente do Detran, irmão da apresentadora Sandra Annenberg e um dos criadores do Poupatempo, posto de atendimento que virou referência no Brasil em desburocratização, reduzindo o tempo de emissão de carteira de identidade de 15 dias para um.

Com o investimento de 3,5 milhões de euros anunciado no Encontro Internacional de Inovação em Governo, promovido entre os dias 7 e 9 de agosto, o (011).lab vai liderar novos projetos de reformulação de serviços públicos, com mais estudos, grupos de trabalho e rodas de conversas para discutir ideias de como agilizar o funcionamento da prefeitura.

Apesar de toda a inspiração no Vale do Silício, Fazio não concorda com a análise de que o trabalho do laboratório seja o de transformar o serviço público numa startup. Mas admite que o estado tem muito a aprender com o setor privado.

"A gente se inspira em práticas ágeis de gestão, práticas de empresas de software, nascentes e gigantes. A gente procura aprender, mas sempre com os pés no chão, cientes de que nós trabalhamos para o cidadão paulistano e não para um cliente."