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Lúcia Murat persegue militante enigmática em falso documentário

·4 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Diretora Lucia Murat durante a pré-estreia para convidados do filme
***ARQUIVO***SÃO PAULO: Diretora Lucia Murat durante a pré-estreia para convidados do filme

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diga-se o que for de Lúcia Murat: é uma cineasta fiel a suas crenças, a seu tempo, a sua prática. Assim são seus filmes, de honestidade intelectual admirável. Voltando ao começo de sua carreira no cinema, encontramos "Que Bom Te Ver Viva", documentário que registra as memórias da militância política, da tortura, do exílio. Da sobrevivência, enfim, numa situação de que muita gente saiu morta.

Já o título afirmava um reencontro que sucedia ao perigo. Mas não se tratava de um filme que pregava a convertidos. Estávamos em 1989, muita gente ainda não tinha ideia do que havia se passado no regime militar. Era como dizer ao espectador: abra os olhos, veja o que aconteceu a essas mulheres.

Desde então, raramente as relações de poder deixaram de frequentar seu trabalho, no documentário como na ficção. Não raro, o cinema de Murat deixou a impressão de, sim, pregar a convertidos. E esses não precisam de pregação.

Quando chegamos a "Ana", no entanto, é como se a autora antes percebesse as transformações do tempo, a necessidade pessoal de se entender com novas balizas de comportamento, embora sem abdicar de si mesma.

A chave para o cinema de Murat parece ser a distância entre o momento seminal (a guerrilha, de que participou) e o presente. Lúcia Murat propõe aqui um falso documentário (o que explicita logo de início, diga-se). Para tanto, parte-se de cria-se uma personagem que é puro nome: Ana. Quem ela foi, pouco se sabe. Mulher, negra, inconformista, artista. Desaparecida.

A cineasta sai à sua procura. Buscar os traços da personagem implica percorrer boa parte da América Latina. Cuba, México, Argentina, Chile são os países visitados. Ok, a América Latina pode ser uma ficção, como queria Jorge Luís Borges, mas algo a une: a repressão intensa a todo pensamento dissidente.

E Ana representa tanto a ausência (que triste não te ver viva) como a dissidência. Nos países por onde andou as realidades são diferentes: há decadência (Cuba), exuberância (México), insurreição permanente (Argentina), reconciliação dolorosa (Chile).

Essa diversidade nos leva a uma espécie de labirinto, representado pela transformação da política: não existe mais uma verdade monolítica, um devir traçado pela história, como antes.

Abrem-se então caminhos variados: as lutas identitárias à frente. "Ana" dedica-se em especial à mulher. À mulher negra, como Ana, que só conhecemos através de velhos filmes (que não são, evidentemente velhos) e das pessoas que com ela conviveram, que a cineasta e seu duplo, Stella (Stella Rabello) procuram e com quem dialogam. Cada uma parece possuir de Ana um fragmento. Mas a soma de fragmentos não gera propriamente um conjunto, antes é diante de um enigma que somos colocados.

Em parte, esse enigma pertence, de fato, à personagem: à sua condição de mulher e negra, o que significa um alvo de perseguição preferencial (uma jovem também negra que faz parte da equipe do filme pode testemunhar: de toda a equipe, só ela foi parada pela polícia no aeroporto. O fato pode ser tão fictício quanto a própria Ana, mas é o que menos importa: sua verdade é da ordem da evidência). E pode-se dizer que não existe mais a militância tal como Murat a viveu: ela é difusa, atinge grupos sexuais (ah, sim, Ana era lésbica), étnicos, o "marxismo cultural".

O outro enigma com que Murat nos confronta é o do continente. Ao revisitar o passado e adequar-se aos dias atuais, a questão subjacente diz sempre respeito ao futuro: o que será? Eis a pergunta cuja resposta essa longa viagem serve, principalmente, para evidenciar o quanto ela nos escapa: o destino da América Latina se trama mais ao norte da América -nenhuma novidade nisso.

Nesse sentido, pode-se acreditar que a identidade de Ana confunde-se com a de Lúcia: alguém que busca intensamente sair do labirinto, mas quanto mais busca, mais se perde, mais os sinais de sua existência são apagados.

Recuperar esses traços é a tarefa a que o filme se dedica. Lúcia Murat continua fiel não só a suas crenças como ao território da memória.

ANA. SEM TÍTULO

Avaliação: bom

Quando: Estreia na quinta (29)

Onde: Nos cinemas

Classificação: 14 anos

Elenco: Stella Rabello, Roberta Estrela D'Alva, Lúcia Murat

Direção: Lúcia Murat

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