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Engajado e multicultural, k-pop surge como o punk 'organizado e comercial' da Geração Z

K-pop é uma tendência social e cultural (BTS / Getty Images)

Por Renan Botelho (@renan_botelho)

Para a surpresa de uma geração mais envelhecida, os últimos acontecimentos políticos nos Estados Unidos tiveram uma participação curiosa e poderosa dos fãs do gênero musical nascido na Coreia do Sul, o k-pop. Acostumados a se unirem virtualmente para promover seus artistas orientais no Ocidente, os k-poppers mostraram o seu potencial ao provocar o presidente americano Donald Trump e apoiar causas sociais como o movimento anti-racismo Black Lives Matter.

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"Uma das características marcantes desse grupo é o ativismo digital”, comenta a doutora em antropologia do consumo, Hilaine Yaccoub. "Eles lidam com mobilização de uma forma diferente. Não podemos dizer se traz mais resultados tangíveis perante as instituições de tomada de decisão, mas podemos afirmar que fazem mais barulho e certamente conquistam espaços de expressão que podem gerar mudanças estruturais no futuro”, explica.

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Quando a polícia de Dallas criou um canal online para receber denúncias de participantes nos protestos do Black Lives Matter, os fã-clubes de k-pop se uniram para entupir o sistema com vídeos de seus ídolos preferidos. Quando a boy band BTS, a maior do gênero, anunciou uma doação de um milhão de dólares para organizações anti-racistas, os k-poppers se uniram para arrecadar o mesmo valor e doaram em nome do fã-clube.

Não satisfeitos, quando Trump anunciou um comício com ingressos gratuitos em Tulsa, Oklahoma, para promover sua reeleição, eles adquiriram o máximo de ingressos online que conseguiram. O estádio onde o presidente americano se apresentou tinha capacidade de 19 mil pessoas, mas apenas 6,2 mil apareceram.

O engajamento político do k-pop pode ser ofuscado por seu poder de mercado, causando certo estranhamento aos leigos que agora aprendem sobre sua influência em causas sociais. “O k-pop vai muito além da estética comercial”, garante o youtuber e criador de conteúdo Anderson Vieira.

“Ele tem várias camadas para explicar, inclusive o fato de ser uma onda global de ídolos orientais. Não é um ídolo padrão americano, um ídolo europeu. Isso já é algo que causa uma troca cultural. Em questão política, essa movimentação é algo que o pessoal na Coreia já fazia há muito tempo. Um fandom [fã-clube] sul-coreano fez um levantamento de dinheiro para ajudar pessoas de São Paulo, vítimas do covid-19. Em um aniversário de um dos cantores, o fandom se reuniu para construir uma escola. Outro se uniu para plantar uma floresta”, conta. 

Novo punk?

Seria o k-pop, de alguma forma, o punk da geração Z? (Foto: Getty Images)

Se toda geração tem seu próprio movimento cultural para questionar o conservadorismo, seria o k-pop, de alguma forma, o punk da geração Z? “O punk era muito mais sujo e muito mais de pegar o que a sociedade achava feio e transformar em bonito, e chocar o establishment. O k-pop tem uma transformação estética das pessoas, mais comercial. Mas do aspecto político, acho que os dois têm a ver, sim. E é muito louco que a gente vê um monte de metaleiro de extrema direita hoje em dia. Quer dizer, não entendeu nem o rock… Enquanto os k-poppers estão engajados em uma pauta humana muito mais interessante”, analisa a apresentadora, youtuber e professora do curso cinema, Youtube e cultura pop do Instituto de Cinema, Fernanda Soares.

Nesse aspecto, eles são punks, são punks extremamente organizados, completa. 

A doutora Hilaine concorda com a natureza questionadora de ambos os movimentos, mas lembra que eles agem de maneira bem diferente. “Eles lutam/lutavam por alguma bandeira sociopolítica. No mais as raízes, os contextos, as dinâmicas são completamente diferentes. O k-pop tem um apelo mais conservador em relação ao punk, mas não em relação ao que vivemos no mundo contemporâneo. Eles defendem bandeiras completamente opostas ao conservadorismo vigente”, analisa. 

Multicultural 

O que faz um fã de k-pop mais politizado do que um fanático por Justin Bieber nos anos 2010 é justamente a troca cultural.

“Não tem como todos os ídolos estarem em todos os países onde está tendo essa demanda por eles. E até por uma questão de fuso horário, onde os fãs vão se encontrar para acompanhar as notícias deles? Na internet. Se eles fazem uma live, postam um vídeo no Youtube ou um tweet, fãs do mundo inteiro vão estar lá. A comunidade inteira de fãs se fortalece ainda mais por causa disso”, diz Anderson. “Você acaba tendo uma visão de mundo bem mais ampla e se expandindo para muita coisa”, completa. 

Para doutora Hilaine existe 'uma pedagogia que se desenvolve por meio do vínculo' criado entre os fã- clubes que pode ser poderoso. "Todas essas comunidades digitais são constituídas de conexões moldadas à imagem e semelhança das comunidades tradicionais, no entanto, com o poder global de interferir em políticas, ações governamentais com a força da massa global”, explica a antropóloga, que reforça sobre a importância de entender este novo movimento em um mundo digitalizado.

"Estamos em tempo de uma “tecnocultura contemporânea” o qual se misturam cenário material, simbólico e imaginário que não envolve apenas discurso no sentido estrito, mas também práticas, objetos, imaginários e formas de sociabilidade. Assim sendo devemos esperar que cada vez mais haja um movimento de apropriação de conhecimento e consciência do poder transformador que a união pode ofertar: 'é preciso pensar como a conversação em rede está alterando o modo como nos comunicamos, o que dizemos, o que fazemos e o que pensamos’”, completa Hilaine.

Fernanda aponta outro fator que faz os k-poppers se destacarem: "São fãs muito dedicados que têm um conhecimento do processo da máquina da fama, do que se faz para criar um ídolo de k-pop. Isso faz toda a diferença porque eles têm uma visão mercadológica que não tinha visto em nenhum outro fandom até então”, diz. 

A natureza política do K-pop 

Elenco de "Parasita"(Foto: The Chosunilbo JNS/Getty Images)

Após uma crise econômica que devastou a Coreia do Sul em 1997, o então presidente Kim Dae-jung decidiu investir na cultura popular do país para exportação. Ele ampliou a verba do ministro da cultura, dando início ao que eles chamam de Hallyu, a onda coreana.

O cinema e a música da Coreia do Sul prosperou nas últimas décadas, invadindo os mercados da China e do Japão. Em 2017, quando o país assinou um contrato com os Estados Unidos para a construção de um escudo antimíssil em Seul, a China decidiu banir as músicas e vídeos sul-coreanos no país. A solução encontrada pela Coreia do Sul foi investir no mercado Ocidental - parte do resultado dessa estratégia pode ser comprovada com o sucesso do longa-metragem 'Parasita’, vencedor do Oscar de Melhor Filme deste ano.

“Enquanto o mundo sofre com as tensões da globalização - o choque das ondas de ajustes econômicos neoliberais, a velocidade feroz em que a informação navega e a turbulência causada pela urbanização e imigração em massa de vilarejos para a cidade -  a cultura pop americana parece cada vez menos e menos refletir este novo e incerto presente”, diz a jornalista paquistanesa Fatima Bhutto em seu livro 'The New Kings of The World', no qual vê com bons olhos o fenômeno k-pop ao redor do mundo.

Resta esperar para ver até onde a onda sul-coreana pode influenciar a nova geração.