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Kirchnerismo perdeu credibilidade e eleições após intervir em dados oficiais na Argentina

·3 minuto de leitura

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Durante as gestões de Néstor e Cristina Kirchner, hoje vice-presidente da Argentina, o Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos), órgão equivalente ao IBGE brasileiro, esteve sob intervenção federal.

A resolução inicial foi tomada por Néstor, pouco antes de deixar o cargo, em 2007, e continuada por sua mulher, a partir de sua eleição no mesmo ano. Continuou até 2015, quando o kirchnerismo foi derrotado pelo centro-direitista Mauricio Macri.

Nesta sexta-feira (30), o ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, disse que o IBGE "está na idade da pedra lascada", ao criticar a metodologia do instituto em relação à taxa de desemprego do país. A fala gerou críticas.

Durante o período, os dados oferecidos pela instituição passaram a ser subestimados, principalmente os relacionados a inflação, crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e pobreza. Os motivos eram claramente políticos; o governo kirchnerista pouco mencionava a inflação e dizia que a pobreza era "uma questão de estigma", segundo as palavras do ex-ministro da economia e atual governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof.

Cristina Kirchner também dizia que o país continuava crescendo como durante o boom de commodities, sob o comando de Néstor, o que não correspondia à realidade num mundo com a economia em desaceleração.

Outros funcionários do governo fizeram uso dos dados maquiados em seus discursos e em campanhas eleitorais. Os números maquiados serviram para alimentar uma polarização política e uma guerra de versões na qual era difícil haver um desempate sem ter os dados oficiais.

Naquele contexto, algumas frases ficaram famosas, como a do então secretário de comércio exterior, Guillermo Moreno, que dizia que a Argentina tinha "menos pobres que a Alemanha".

Os dados do Indec passaram a ser desacreditados dentro e fora do país. Houve críticas não apenas de publicações estrangeiras, como a revista britânica The Economist, como pelo próprio FMI (Fundo Monetário Internacional), que emitiu uma declaração de censura contra o país.

A partir de 2013, o Indec deixou de divulgar totalmente os dados da inflação.

Ao mesmo tempo, consultorias privadas começaram a calcular a inflação por conta própria, tendo em conta o aumento de alimentos da cesta básica. Com relação à pobreza, o indicador da Universidade Católica Argentina (UCA), uma instituição com prestígio nesse tipo de levantamento, passou a ser considerado o mais próximo à realidade.

A maquiagem das cifras desvalorizou os bônus argentinos no exterior, mas serviu internamente para que os sindicatos não conseguissem negociar o aumento de salários de acordo com a inflação, o que foi impactando na pobreza.

A diferença entre os números oficiais de pobreza era enorme. Para a UCA, em 2014, havia 29% da população argentina vivendo abaixo da linha da pobreza. Para o governo, a cifra era de 5%. Isso teve um custo político para o kirchnerismo, que começou a ver aumentar o tom das críticas e do discurso da oposição contra o governo, colaborando para o seu desgaste e para a derrota nas eleições de 2015.

A situação mudou naquele ano, a partir da eleição de Mauricio Macri, de centro-direita, que voltou a publicar os dados da inflação. O órgão voltou a contratar profissionais demitidos na gestão kirchnerista, e a fez uma revisão dos dados publicados nos anos anteriores.

O atual presidente argentino, Alberto Fernández, foi chefe de gabinete de Néstor e Cristina, mas preferiu não usar a mesma tática agressiva com relação ao Indec, até porque um de seus objetivos é reestruturar a dívida de mais de US$ 44 bilhões com o FMI.

A transparência das cifras oficiais foi um dos requisitos pedidos pelo fundo para seguir nas negociações.

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