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Com furos no currículo, indicado ao STF vira nova dor de cabeça a Bolsonaro

Matheus Pichonelli
·3 minutos de leitura
BRASILIA, BRAZIL - SEPTEMBER 28: Jair Bolsonaro, President of Brazil reacts during the launch ceremony of the "Mineracao e Desenvolvimento" Program on September 28, 2020 in Brasilia, Brazil. The program presents more than a hundred goals and actions for up to 2023 and aims at the quantitative and qualitative expansion of the Brazilian mineral sector and the image of mining with society. (Photo by Andre Borges/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andre Borges (Getty Images)

Jair Bolsonaro é o mito de duas capas. Ou caras.

Durante o dia, lança farelos ao centrão, se reúne com juízes que podem investigar sua família e aceita a indicação dos novos amigos para ministro do Supremo Tribunal Federal.

De noite, o presidente sai às ruas para combater o mal. Ou o que considera “o mal”, de comunistas a ateus.

Em evento na Assembleia de Deus, manifestou dias atrás o desejo de indicar um pastor para a Suprema Corte. E também o sonho de ver as sessões abertas em oração.

Promessa é dívida, mas ela pode ser paga em forma de precatório.

Bolsonaro deve, não nega. Paga quando puder pelo apoio de primeira hora de quem o ajudou a chegar, e ficar, até onde chegou. Parte da base evangélica representa hoje 30% da população. Ninguém se elege sem pedir a bênção. Mas consegue governar?

A indicação do relativamente desconhecido desembargador Kassio Nunes Marques para a vaga de Celso de Mello é resultado de um grande acordo nacional com o Supremo, com o Congresso, com tudo. Acena uma bandeira branca inclusive a inimigos declarados, como o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz.

E surpreende quem esperava um radical de serpe olavista no posto.

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Brasília falou mais alto e levou Bolsonaro a bancar a indicação, buscando ganhar tempo com parte dos aliados e fechando os ouvidos contra a gritaria promovida por Olavo de Carvalho, Sara Winter e Silas Malafaia, que ataca a suposta proximidade do futuro ministro supremo com o PT e uma alegada posição dúbia em relação ao aborto. Os bolsonaristas acusam o indicado ainda por ter liberado lagosta nos jantares das cortes nacionais.

A indicação expôs o racha entre igrejas na ala majoritariamente simpática a Bolsonaro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Malafaia chegou a atacar a Igreja Universal, para a qual Bolsonaro é acusado de fazer um “jogo nojento”.

Nunes agradou a gregos, mas parece habitar longe demais de Gilead, a fictícia cidade de “O Conto da Aia” onde as mulheres eram encarceradas para fins reprodutivos, para acalmar troianos.

Bolsonaro fez a sua opção e a fatura já parecia paga quando surgiu a notícia de que Kassio Nunes é mais um indicado pelo presidente a algum posto que precisou inflacionar o currículo. A última notícia é que teria plageado trechos de outro autor em seu mestrado. Se largar, largou queimando.

Nunes Marques parece não ter lido os jornais na época em que um ex-futuro-ministro da Educação foi reprovado no exame do escrutínio da imprensa.

Fora a turma do churrasco e dos colegas de armas em seu condomínio na Barra, o círculo de relacionamento de Bolsonaro parece tão amplo quanto as prateleiras de sua biblioteca, onde dormita solitário um exemplar das doces memórias de Brilhante Ustra.

Como não dá para nomear ex-assessor investigado nem sua filha personal trainer para o Supremo ou postos-chave do próprio governo, Bolsonaro precisa correr o risco do constrangimento toda vez que tem uma indicação a fazer -- como quando pedimos referências de profissionais nos grupos de WhatsApp.

Nunes não era exatamente o camisa 10 da seleção, mas estava em bom tamanho diante das expectativas.

Fora do núcleo-duro do bolsonarismo, essas expectativas são tão baixas que já se torce, não necessariamente em voz baixa, para a manutenção do indicado, com ou sem furo no currículo. O risco de o Supremo ser habitado por um indicado terrivelmente qualquer coisa em seu lugar não é baixa.