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De 'Kasi' a 'garota de Kohl', 'Merkiavelli' e 'mamãe', acompanhe a vida de Merkel

·12 minuto de leitura
*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  20-08-2015, 10h00: A Presidente Dilma Rousseff durante declaração à imprensa com a chanceler alemã Angela Merkel que está em visita oficial ao Brasil, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 20-08-2015, 10h00: A Presidente Dilma Rousseff durante declaração à imprensa com a chanceler alemã Angela Merkel que está em visita oficial ao Brasil, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Como a própria Angela Merkel avalia seu legado após 16 anos no governo da Alemanha?

É difícil dizer, segundo um repórter político que acompanhou seus passos desde a Alemanha Oriental, no final dos anos 1980. "Ela revela pouco sobre suas opiniões pessoais além de para um pequeno círculo de confidentes", escreveu Carl Hohenthal para a consultoria Brunswick.

Discrição é certamente uma das marcas dessa líder que está perto de se tornar a pessoa que ocupou por mais tempo o cargo de premiê. Ela baterá esse recorde, hoje nas mãos de seu ex-mentor, Helmut Kohl, se o próximo governo for empossado depois de 19 de dezembro.

Caso chegue até lá, Merkel terá completado 5.870 dias no poder. Conheça alguns momentos da vida da líder de 67 anos, dos quais 32 foram dedicados à política.

Origem

Filha mais velha de um pastor luterano e uma professora de latim e inglês, Angela Dorothea Kasner nasceu em 17 de julho de 1954, em Hamburgo.

Quando ela tinha oito semanas, sua mãe, Herlind, então com 26 anos, pegou um trem e rumou para a Alemanha Oriental, levando o bebê numa cesta. Ia se encontrar com Horst, o pai da criança, que partira antes para assumir o posto numa paróquia em Perleberg.

Angela tem dois irmãos, o professor universitário de física Marcus, nascido em 1957, e a terapeuta ocupacional Irene, de 1964.

Criança prodígio Merkel aprendeu a falar muito cedo, mas demorou a andar, dizem seus biógrafos. Em Brandemburgo (Alemanha Oriental), onde cresceu, destacou-se como melhor aluna e era destaque em matemática. Aos oito anos, convenceu os pais a inscrevê-la no grupo Jovens Pioneiros, quando descobriu que no regime comunista "só notas dez não bastavam para ganhar prêmios".

Apelido

Na escola, era chamada de Kasi pelas amigas. "Era perfeccionista à beira da inconveniência, um pouco como a Lucy, do Snoopy, ou a Lisa Simpson", compara o cientista político Matthew Qvortrup, autor de uma das várias biografias da chanceler da Alemanha.

Já primeira-ministra, foi apelidada de Merkiavelli por desafetos que veem nela grande sede de poder --o apelido faz menção a Nicolau Maquiavel (ou Niccolò Machiavelli), filósofo florentino que escreveu "O Príncipe". Na versão mais carinhosa, é chamada também na Alemanha de "Mutti" (mamãe).

Idioma

Convivendo com muitos russos na cidade em que cresceu, Merkel se apaixonou pela língua russa desde criança. Uma ex-professora afirmou a seus biógrafos que ela decorava o vocabulário enquanto esperava pelo ônibus, não admitia erros e era reservada. No oitavo ano escolar, já participava de competições da série acima, e aos 16 anos ganhou o ouro em sua cidade, em seu condado e no país.

O prêmio foi uma viagem a Moscou para celebrar o centésimo aniversário de Lênin. Sua fluência a ajudou a se transformar na principal interlocutora da União Europeia com o presidente russo, Vladimir Putin.

Música e artes

Na adolescência, preferia os Beatles aos Rolling Stones. Paul McCartney era o integrante predileto e um single de "Yellow Submarine" foi o primeiro disco que comprou, na viagem a Moscou. Forrava as paredes dos quartos com cartões postais de pintores impressionistas que recebia da avó materna, que morava em Hamburgo. Paul Cézanne era o seu preferido.

Anos (não tão) rebeldes

Era uma adolescente bem comportada, mas fumava escondido, disseram colegas a seus biógrafos. Não namorava, gostava de rir e era boa em imitações. Os pais impunham horário para chegar em casa: no máximo às 22h.

Muito organizada, era ótima para promover festas. Na escola, ajudava os amigos que não iam bem. Gostava de política e acompanhava as notícias do Ocidente a ponto de se trancar no banheiro das meninas com um rádio transistor para ouvir os debates em época de eleições.

Moda

Na juventude, na Alemanha Oriental, destoava da classe por vestir jeans e usar tênis. Não era um gesto de vaidade, mas de necessidade: sua avó mandava de Hamburgo presentes ocidentais para complementar a renda baixa da família.

Como primeira-ministra, prefere conjuntos de calça e paletós sem estampas, nas mais diversas cores do arco-íris. A estilista alemã Bettina Schoenbach aconselha discretamente as compras de Merkel desde que ela se lançou à eleição, em 2005.

Cabelos

Em 2002, deflagrou-se pelos tabloides alemães uma disputa sobre quem era o responsável pelo novo estilo de penteado de Angela Merkel, com uma franja mais desfiada. O interesse aumentou depois que ela, sem disfarçar o enfado, confirmou em entrevista ao Bild que pintava os cabelos.

A "estilista capilar" Martina Acht afirmou ser a responsável por transformar a primeira-ministra "de uma senhorinha em um ícone", mas a façanha foi requisitada também por Udo Walz, que já tinha trabalhado com Marlene Dietrich, Maria Callas e Claudia Schiffer.

O cabeleireiro britânico Lee Stafford, radicado em Colônia, também se apresentou. Não para assumir a autoria do novo visual, mas para dizer que o estilo era horrível, "e a cor, também".

Exatas

Merkel pensou em cursar medicina, mas optou por física, uma ciência fora do alcance da doutrinação ideológica. Em 1978, formou-se na Universidade Karl Marx (atual Universidade de Leipzig) e começou a trabalhar na Academia de Ciências, em Berlim Oriental; oito anos depois, doutorou-se em química quântica.

Primeiro namorado

Conheceu seu primeiro marido, Ulrich Merkel, aos 20 anos, em um intercâmbio de estudantes de física em Moscou e Leningrado. Ele era um ano mais velho e filho de um pequeno empresário. Angela trabalhava como garçonete em um bar, e nas horas vagas eles iam ao cinema e ao teatro; às vezes viajavam.

Dois anos depois, em 1976, mudaram-se para um pequeno apartamento em que o banheiro era dividido com outros dois casais. Casaram-se em 1977, quando ela tinha 23 anos. Na igreja, "porque é o que todos faziam", disse ela numa das raras vezes em que tocou no assunto. Vestiu azul, sua cor predileta. O divórcio veio cinco anos depois, mas ela manteve o sobrenome.

Segundo casamento

Não se sabe o porquê do segundo casamento, realizado após mais de 15 anos de relacionamento com Joachim Sauer (hoje considerado um dos maiores químicos teóricos do mundo).

O novo estado civil --que, na especulação de biógrafos, facilitaria sua carreira na democracia cristã-- foi comunicado por anúncio em um jornal no começo do ano 2000: "Casamo-nos. Angela Merkel e Joachim Sauer". Nem família nem amigos foram informados pessoalmente. Com Sauer, Merkel tem dois enteados.

Espiã indiscreta

Na faculdade, foi secretária de Cultura da Juventude Alemã Livre (FGJ), cargo que, segundo críticos, fazia propaganda do regime. Merkel sempre rebateu que cuidava de organizar eventos. Nunca se aproximou do Partido da Unidade Socialista, mas a projeção nos estudos e a atuação na FDJ (agremiação juvenil) atraíram a Stasi (agência de inteligência).

Sondada para virar informante, em 1978, livrou-se do convite dizendo ser incapaz de guardar segredos.

O muro e a sauna

Enquanto o Muro de Berlim era derrubado, em 9 de novembro de 1989, a então cientista Angela Merkel jantava com sua irmã, Irene, depois de ter ido à sauna. Merkel não participava dos protestos pelo fim da Alemanha Oriental, embora a política já a atraísse como atividade.

Batismo político

No mesmo ano da queda do Muro de Berlim, Merkel se ofereceu como voluntária no movimento Despertar Democrático (DA), que virou partido. A pequena agremiação chegou ao poder coligada à União Social Alemã (DSU) e à União Democrática Cristã (CDU) em 1990, na primeira e única eleição livre da Alemanha Oriental. Merkel se filiou à CDU e foi eleita deputada em dezembro.

Mascote

Merkel não tinha carisma nem simpatia exuberante quando entrou na política, dizem seus biógrafos. Nunca se destacou como oradora nem projetava autoconfiança. Mais de uma vez, chorou em público ao ser criticada ou confrontada com erros.

Mulher, jovem e oriunda da ex-Alemanha Oriental, estava longe de representar uma ameaça para os homens mais velhos que mandavam na política. Quando o então premiê Helmut Kohl a nomeou ministra da Família, em 1991, passou a ser chamada de "Kohls Mädchen" (garota de Kohl).

Cobra no braço

A CDU foi derrotada em 1998 pelo Partido Social Democrata (SPD), e em 1999 Kohl foi acusado de fraude em financiamento de campanha. Secretária-geral do partido, Merkel publicou carta aberta convocando o ex-padrinho a deixar o posto de líder honorário. O partido, escreveu ela, devia ser refundado, "como um adolescente que precisa se liberar e seguir seu próprio caminho".

Segundo a revista New Yorker, Kohl um dia se queixou a um amigo que apadrinhar Merkel tinha sido o grande erro de sua vida. "Criei meu assassino. Coloquei a cobra no meu braço", teriam sido suas frases.

Nunca antes

Merkel foi a mais jovem alemã a ocupar um cargo de ministra (aos 36 anos), a primeira mulher secretária-geral da CDU, aos 44, e presidente do partido, aos 45, e a primeira e mais jovem chefe do governo da Alemanha, aos 51.

Globe-trotter

Como primeira-ministra, Merkel fez 533 viagens oficiais ao exterior, para 89 países, até setembro deste ano.

1.001 associações Merkel já foi retratada em capas de revista como exterminadora do futuro, muçulmana, nazista, madre Teresa e madona. Além dos apelidos de "garota de Kohl", Merkiavelli e Mutti, também já foi chamada de Dama de Ferro, Maggie Merkel (em referência a Margaret Thatcher), Parricida (pelo ataque a Kohl), Madame Não, Madame Gelo e primeira-ministra alfa, entre outros.

Online

Quando está em seu assento no Bundestag (Câmara dos Deputados), Merkel é flagrada muitas vezes absorta com a tela de seu telefone celular. Ela não é uma oradora nata, evita ocupar o pódio e, quando o faz, seus discursos são descritos como medianos e até tediosos.

Maternidade

Curiosamente, Merkel, que não tem filhos, é chamada por muitos de "Mutti" (mamãe) na Alemanha.

Cansada de responder a questões sobre sua vida privada que ela sabia que não seriam feitas se ela fosse homem, perdeu a paciência com uma jornalista que lhe perguntava pela enésima vez se não ter filhos tinha sido uma escolha. "Não, eu não concluí que não queria filhos. Mas, quando entrei na política, tinha 35 anos de idade. E agora isso está fora de questão", afirmou, segundo uma de suas biografias.

Companhias históricas

O escritório de Merkel no governo é mobiliado com uma enorme escrivaninha sob retratos de Konrad Adenauer e Catarina, a Grande. Ela prefere, porém, trabalhar numa mesa menor, longe do olhar das figuras históricas, segundo jornalistas que a entrevistaram.

Merkelizar é...

Em 2015, foi escolhido como a palavra do ano o verbo "zu merkeln" ("merkelizar"), em alusão ao estilo da primeira-ministra de tomar decisões. A líder alemã ficou famosa por evitar conflitos e não se comprometer, até que não seja mais possível adiar uma solução.

Foi naquele ano que Merkel anunciou que receberia na Alemanha cerca de 1 milhão de refugiados que já vagavam por estradas da Hungria, e "zu merkeln" foi definido como "o mais alto nível de passividade".

Saúde

Em 2019, Merkel foi filmada tremendo descontroladamente em três eventos públicos. Médicos atribuíram o desequilíbrio a desidratação e estresse, mas analistas e opositores rapidamente usaram como metáfora de seu momento político. A primeira-ministra respondeu apenas que tudo estava sob controle, evitando, como de hábito, comentar sua vida pessoal.

Um ano depois, mantendo pulso firme no combate à pandemia de coronavírus, ela retomou o título de líder mais influente da Europa.

Vida de bairro

A primeira-ministra mora em um apartamento particular, em um edifício construído no século 19, no centro de Berlim. De sua janela é possível ver o museu de antiguidades clássicas de Pergamon. Não é incomum vê-la fazendo compras nos mercados do bairro.

Rotina

O dia de trabalho típico de Merkel começa com o "Kanzlermappe", um arquivo digital de recortes da imprensa do dia, e o "Morgenlage", uma reunião às 8h30 com sua equipe interna mais íntima, descreveu o jornalista Jeremy Cliffe em perfil para a revista americana New Statesman.

Seu escritório fica no sétimo andar da chancelaria, um prédio na mesma região em que o Exército soviético preparou o ataque final aos nazistas na Batalha de Berlim, em 1945.

Diálogo imaginário

Para defender no Parlamento um "bloqueio suave" em outubro de 2020, Merkel recorreu a um diálogo imaginário com o coronavírus.

Ela respondeu à suposta frase do Sars-Cov-2 criada por uma popular youtuber alemã, para quem o patógeno diria: "Eu tenho o hospedeiro perfeito aqui. Essas pessoas, que vivem em todo o planeta, são globalmente conectadas, não podem viver sem contatos sociais, são hedonistas, gostam de festa, então não poderia ser melhor".

"Que nada, vírus! Você não aprendeu nada com a evolução?", respondeu a primeira-ministra alemã. "Nós, humanos, já mostramos várias vezes que somos muito bons em nos adaptar a situações difíceis. Mostraremos que você escolheu o hospedeiro errado."

Marca registrada

Seu gesto de mãos em forma de losango, com polegares e indicadores unidos em frente ao corpo, tornou-se um símbolo da primeira-ministra e já foi reproduzido em campanhas publicitárias e usado em bonecos que tem Merkel como inspiração.

Na eleição deste ano, o candidato social-democrata a premiê, Olaf Scholz, posou para a capa de uma revista imitando o gesto, para expressar que se considera o herdeiro natural da da líder alemã.

Na cozinha Merkel já contou em entrevista que faz boas sopas de batatas, bracholas e salada de beterrabas. Seu marido, Joachim Sauer, filho de um confeiteiro, assa tortas deliciosas nas férias, segundo ela.

Não é não

Em 2020, quando Merkel era apontada no mundo todo como um exemplo de líder na luta contra a pandemia de Covid, repórteres lhe perguntaram se ela voltaria atrás em sua decisão de se aposentar e concorreria a um quinto mandato em 2021. "Não. Não, realmente não", foi a resposta.

E o legado?

Mas, afinal, como a própria Merkel verá seu legado depois de 16 anos? Hohenthal, o jornalista e analista que a acompanha desde a Alemanha Oriental, diz acreditar que ela está satisfeita com o que conquistou. "Orgulho não é um termo que ela usaria. Ela está desapontada? Provavelmente não. Ela superou Kohl."

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