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Justiça brasileira deve pedir extradição de ex-presidente do Paraguai, diz MPF

Gabriel Vasconcelos

Segundo os procuradores, Horacio Cartes está no país vizinho O ex-presidente Horacio Cartes está no Paraguai e terá pedido de extradição formulado pela Justiça do Brasil junto às autoridades paraguaias, que podem ou não acatá-lo. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a legislação paraguaia prevê a extradição.

Cartes foi alvo de mandado de prisão expedido nesta terça-feira pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, no âmbito da operação “Patrón”, que investiga as ações de organização criminosa chefiada pelo doleiro Dário Messer no tempo em que esteve foragido no Paraguai e mesmo após sua prisão, em São Paulo, em 31 de julho deste ano.

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“Não podemos garantir que vai haver extradição, mas, em se tratando de um país [Paraguai] que tem um ministro subornado, pode ser um motivo para que a extradição de Cartes seja deferida de forma a mostrar seriedade ao mundo”, afirmou o procurador regional do MPF, José Augusto Vagos, que participa das investigações.

Autoridades dão entrevista coletiva sobre investigação envolvendo o ex-presidente paraguaio Horacio Cartes

Silvia Izquierdo/AP Photo

Vagos fez referência a Juan Ernesto Villamayor, ex-ministro do interior do Paraguai que, segundo a força tarefa da operação “Patrón”, negociava suborno de US$ 2 milhões para interceder contra eventual extradição de Messer ao Brasil em caso de prisão naquele país, o que não aconteceu. Em outubro do ano passado, o doleiro optou por se refugiar em São Paulo, onde acabou preso.

Assim como Cartes, nenhum dos nove estrangeiros que tiveram prisão preventiva ou temporária solicitada foram detidos. Entre eles estão os fazendeiros paraguaios Roque Fabiano Silveira e Antonio Joaquim da Mota, que abrigaram e auxiliaram Messer durante um ano e dois meses, quando o doleiro esteve foragido no país vizinho. Segundo as investigações, Messer opera ou já operou para as famílias de ambos, com as quais mantém uma relação de amizade.

Dário Messer foi preso em São Paulo, em 31 de julho deste ano

Divulgação

Segundo o MPF, era Roque quem intermediava a relação de Messer e Cartes, o que envolve a troca de uma carta escrita de próprio punho por Messer em que o doleiro solicita US$ 500 mil para custear despesas advocatícias no Brasil.

De acordo com os investigadores, essa foi apenas uma das várias ajudas financeiras a Messer, que buscava liquidez para se financiar enquanto teve os bens bloqueados no Brasil e no Paraguai, onde também era procurado. Segundo Vagos, Messer tem patrimônio declarado de US$ 100 milhões bloqueado pela Justiça local.

Sobre a família de Mota, os investigadores disseram que há “fortes indícios” de ligação com o tráfico de drogas e armas na fronteira entre Brasil e Paraguai, assim como relações com facção criminosa PCC. Os filhos de Mota teriam negociado 10 fuzis do tipo G-36 e adquirido duas unidades junto a Ricardo Branco, cujo contato no WhatsApp aparece associado à cidade de Curitiba.

Segundo os procuradores, não há vínculo direto entre a negociação e Messer, mas é “possível” que tenha sido feita com valores operados pelo doleiro.

“Muita gente falava, no início do combate à corrupção, que não se tratava de crimes envolvendo violência, mas parte disso vem caindo porque a operação de hoje mostra o envolvimento desses doleiros com tráfico de armas e drogas, o que será aprofundado”, disse Rodrigo Alves, delegado da Polícia Federal.

De acordo com a procuradora do MPF Marisa Ferrari, para que a operação não vazasse, as prisões realizadas no Brasil aconteceram antes dos pedidos de prisão dos estrangeiros e sua inclusão na “Difusão Vermelha” da Interpol.

Já os oito brasileiros investigados foram detidos no Rio, São Paulo, Curitiba e Ponta-Porã (MS), na fronteira com o Paraguai.

Entre eles está Myra Athayde, namorada de Messer que foi presa esta manhã em Copacabana, na zonal sul do Rio. Ela passou as coordenadas à organização de Messer no Brasil depois que ele teve a prisão decretada em maio de 2018, no âmbito da operação Câmbio Desligo, que investigava os doleiros envolvidos no esquema de corrupção do ex-governador Sérgio Cabral.