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Juros futuros têm forte queda após leilão do Tesouro e RTI

Victor Rezende e Marcelo Osakabe
·5 minutos de leitura

A taxa do DI para janeiro de 2025 caiu de 6,43% para 6,21% e a do DI para janeiro de 2027 cedia de 7,40% para 7,19% O Tesouro Nacional voltou a dar alívio à curva de juros e, com uma oferta mais concentrada em papéis prefixados de curto prazo, as taxas futuras de juros observaram queda forte nesta quinta-feira (24), especialmente nos trechos intermediários e longos da curva. O movimento também foi reflexo do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) e da avaliação do Banco Central de uma inflação em níveis bastante benignos no horizonte relevante, o que ajudou na retirada de prêmio de risco dos juros futuros. Assim, no fim da sessão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 2,97% no ajuste anterior para 2,84% e a do DI para janeiro de 2023 recuou de 4,45% para 4,24%. Já a taxa do contrato para janeiro de 2025 caiu de 6,43% para 6,21% e a do DI para janeiro de 2027 cedia de 7,40% para 7,19%. Depois de uma abertura em que os juros futuros rondaram os ajustes, as taxas se firmaram em queda após o Tesouro revelar uma oferta de prefixados que tirou pressão do “miolo” da curva, ao focar essencialmente em papéis de curto prazo. A instituição voltou a diminuir a oferta de LTNs de prazo mais longo (janeiro de 2024), com apenas 2 milhões de papéis à disposição, e concentrou esforços nas LTNs com vencimento em abril de 2021, o que deu alívio à estrutura a termo da curva de juros. Parte da estratégia do Tesouro foi adiantada ao Valor. O secretário do Tesouro, Bruno Funchal, e o subsecretário para dívida, José Franco Morais, notaram que havia uma demanda maior por papéis prefixados de longo prazo (NTN-F), daí o aumento na oferta desses títulos, hoje. Além disso, eles apontaram que, em relação às LFTs, poderiam diminuir o lote dos leilões em um primeiro passo, diante da onda vendedora que tem afetado esses papéis no mercado secundário. O Tesouro ofertou apenas 100 mil LFTs nesta quinta, depois de ter oferecido até 500 mil na semana passada. RTI O alívio proporcionado pelo Tesouro se somou ao RTI do terceiro trimestre, que mostrou projeções atualizadas do BC para o cenário macroeconômico. A autoridade monetária espera, agora, um tombo de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e vê um crescimento de 3,9% em 2021, um pouco acima do consenso do mercado (3,5%). Apesar do maior otimismo com a recuperação econômica, a ociosidade da economia ainda faz com que as projeções para o IPCA em 2021 se mantenham abaixo da meta em todos os cenários pesquisados. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou, em coletiva de imprensa, que a autoridade monetária tem “absoluta tranquilidade” com o cenário de inflação e apontou que as pressões recentes de preços devem ficar circunscritas a este ano, sem contaminar a inflação futura. “Nós mostramos nossas simulações e a tranquilidade que o BC tem com isso”, afirmou. O economista-chefe da Occam, Paulo Val, acredita que o alto grau de ociosidade na economia foi traduzido no RTI, em um ambiente que permite à Selic permanecer nos atuais 2% ao menos até o fim de 2021. “Vamos continuar tendo, ao longo do próximo ano, uma ociosidade grande na economia, embora menor do que a deste ano, o que indica que a política monetária está fazendo efeito e estimulando a economia, embora não seja suficiente para convergir para onde o Banco Central desejaria”, afirma. O cenário-base da Occam contempla um crescimento de 3,5% do PIB em 2021 e uma inflação de 2,9%. Em relação à retirada dos estímulos econômicos, o que poderia resultar em um abismo fiscal (“fiscal cliff”), Val ressalta que essa é uma grande interrogação em seu cenário. “O RTI trouxe dois boxes interessantes. Um deles mostra como o auxílio teve impacto no consumo da população mais vulnerável. E há, ainda, a discussão sobre as camadas de renda mais alta poupando mais, por ser algo compulsório ou por ser uma questão precaucional, diante do medo das pessoas de perderem emprego, mas, quando olhamos para os indicadores de confiança, vemos uma retomada bastante forte.” Assim, o economista da Occam acredita que o risco de a poupança ser algo permanente tem diminuído. “Se for assim, parte do ‘fiscal cliff’ deveria ser substituída por uma parte do consumo das rendas mais altas que deve voltar”, afirma. Além disso, Val aponta para o estímulo monetário. Embora lembre que, no auge da crise, a política fiscal tende a ter uma resposta mais rápida, ele aponta que a política monetária cria um ambiente que estimula as pessoas a pouparem menos “e chegaremos no início do ano que vem, onde teremos a retirada dos estímulos fiscais, com uma política monetária mais frouxa”. Avaliação semelhante é adotada pelo economista-chefe da Trafalgar Investimentos, Guilherme Loureiro, que também trabalha com a Selic estacionada no nível atual até dezembro de 2021. “Costumamos associar diretamente crescimento com política monetária, mas a métrica que temos que olhar é a ociosidade. E o hiato [do produto] só vai fechar mais adiante. Esperamos que ele fique entre 4% e 5% este ano, entre 2% e 3% no ano que vem e só feche no segundo semestre de 2022", diz o profissional. Loureiro observa, inclusive, que a linguagem da autoridade monetária no RTI foi ligeiramente mais favorável a estímulos (“dovish”) que a da ata da última reunião de política monetária, divulgada na terça-feira (22), ao comentar a preocupação com a retomada desigual e heterogênea entre os setores e o fim do auxílio emergencial. "Se a inflação surpreender para baixo por causa de alimentos, não descartaria alguma nova ação do BC", diz o economista. Como o horizonte relevante para a política monetária é definido pelo BC, atualmente, em 2021 e, em menor grau, em 2022, a economista-chefe para Brasil do J.P. Morgan, Cassiana Fernandez, e o economista Vinicius Moreira, apontam que as projeções de inflação do RTI “corroboram nosso cenário de Selic em 2% até o fim do próximo ano, à medida que a credibilidade fiscal é mantida”. O J.P. espera o início de uma normalização monetária, portanto, somente em 2022. Além disso, para os economistas, as projeções de inflação acima da meta em 2023 reforçam a visão do BC de que o estímulo monetário atual é extraordinariamente elevado.