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Juros futuros têm alta firme com Renda Cidadã no foco

Victor Rezende
·6 minutos de leitura

No fim da sessão regular, a taxa do DI para janeiro de 2022 subiu de 3,06% no ajuste de ontem para 3,12% e a do DI para janeiro de 2023 saltou de 4,54% para 4,65% Diante de uma proposta controversa para o Renda Cidadã, o risco fiscal entrou de vez no foco dos investidores e voltou a gerar alta firme dos juros futuros nesta terça-feira (29). A esse componente soma-se, ainda, a necessidade de financiamento do Tesouro Nacional às vésperas de um importante vencimento de papéis prefixados, o que concentrou a pressão nas taxas de prazo intermediário. No fim da sessão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 3,06% no ajuste de ontem para 3,12% e a do DI para janeiro de 2023 saltou de 4,54% para 4,65%. Já a taxa do contrato para janeiro de 2025 avançou de 6,61% para 6,65% e a do DI para janeiro de 2027 passou de 7,62% para 7,63%. O aperto nas condições financeiras nos últimos dois dias, após a divulgação do Renda Cidadã, colocou um ingrediente adicional à já complicada tarefa do Tesouro Nacional de gerir a dívida pública. Com um vencimento significativo de papéis prefixados nesta semana, os juros futuros de curto e médio prazo voltaram a ter alta expressiva nesta terça-feira, enquanto a pressão no mercado secundário de títulos públicos continuou em vigor e o prêmio da LTN de longo prazo (para janeiro de 2024) em relação aos juros futuros se manteve em níveis bastante elevados. Dados da Renascença mostram que a taxa da LTN de longo prazo estava em 5,655% no fim dos negócios da última sexta-feira (25), com um prêmio de 22,5 pontos-base (0,225 ponto percentual) em relação ao contrato de Depósito Interfinanceiro (DI). No fim dos negócios de ontem, a taxa da LTN para janeiro de 2024 havia subido para 5,965%, enquanto o prêmio aumentou para 23,5 pontos-base. O prêmio pedido pelo mercado pelas LTNs tem aumentado de forma mais expressiva desde julho, com os investidores atentos à maior necessidade de financiamento da dívida e a um cenário fiscal bastante tumultuado. O prêmio maior das LTNs abriu espaço para uma correção nas LFTs, títulos atrelados à Selic, cujas taxas continuam a exibir alta significativa, com deságio no valor desses títulos. Na sexta-feira, a taxa de deságio da LFT de longo prazo (para setembro de 2026) estava em 0,1556%. No fim dos negócios de ontem, a taxa aumentou para 0,1718%. Termômetro do desempenho dos títulos públicos prefixados de prazo superior a um ano, o IRF-M 1+ já acumula uma perda de 1,71% no mês de setembro até o dia 28. Já o IMA-S, que mede o desempenho das LFTs, tem variação negativa de 0,15%. Essas perdas acertam em cheio o retorno dos fundos de renda fixa. Segundo levantamento do economista e blogueiro do Valor Investe Marcelo D’Agosto, de um universo de 303 fundos de renda fixa acessíveis ao investidor, 42% já registram quota negativa neste mês. A parcela dos fundos DI registra uma perda de 0,07% até o dia 25, sendo que os fundos de Renda Fixa Ativo – aqueles que operam mais com papéis prefixados – perdem 0,25% no período. Todo o barulho em torno do Renda Cidadã fez com que o cenário que já não se mostrava muito fácil para o Tesouro se tornasse ainda pior, afirma Pedro Dreux, sócio e gestor macro da Occam. “O Tesouro vai ter que captar, em média, R$ 120 bilhões de reais mensais nos próximos 15 meses para cobrir o déficit e rolar a dívida. O mercado obviamente se antecipa a isso e tem colocado no preço essa emissão forte que o Tesouro terá de fazer”, afirma. “Em um ambiente fiscal frágil, a situação só piora. Tudo conspira para prêmios mais elevados.” A tensão aumentou bem no momento em que o Tesouro tem um vencimento significativo de aproximadamente R$ 92 bilhões em LTNs na quinta-feira (1º de outubro). Assim, no mercado de juros futuros, os investidores já se anteciparam ao leilão de títulos prefixados desta semana e, nos trechos intermediários da curva, os rendimentos reagiram em alta forte. Dreux lembra que o mercado já vinha frágil desde o início de agosto com a percepção de que o governo enfrentava dificuldade em sair da agenda adotada na pandemia. “E o evento mais importante foi essa revelação das intenções do Executivo de estender essa agenda para além do período da PEC de Guerra”, diz o gestor da Occam. Para ele, a divulgação do Renda Brasil serviu como um “choque de realidade” para o mercado de que o Brasil está mudando de regime fiscal. “Estamos perdendo nossa âncora fiscal e o que estava apoiado nela, como o ambiente de juros baixos.” Assim, o gestor afirma que o mercado de juros sofre impacto direto da percepção do mercado de que o governo tenta “driblar” o teto de gastos. “É preciso embutir mais prêmio na curva porque o risco da trajetória fiscal contaminar as expectativas é alto. Por mais que a inflação corrente seja baixa, a deterioração fiscal impacta nas expectativas”, diz Dreux. Outra medida de risco que merece atenção é o CDS de cinco anos. O custo do contrato tem subido de forma bem mais comedida — na sexta-feira, o CDS brasileiro estava em 250 pontos e, hoje, em 256 pontos — porque o mercado de bônus de alto rendimento (high yield) nos Estados Unidos está aquecido, impedindo uma alta mais expressiva do risco Brasil. Mas o spread entre os CDS de cinco anos do Brasil e do México confirma que os riscos fiscais locais estão pesando. Essa diferença, que era de 74 pontos no dia 3 de agosto, alcançou 101 pontos hoje. Em relatório enviado a clientes, os economistas Cassiana Fernandez, Cristiano Souza e Vinicius Moreira, do J.P. Morgan, lembram que o Banco Central reforçou, na semana passada, que não está disposto a aceitar riscos inflacionários advindos de questões fiscais “e achamos que uma deterioração no quadro fiscal poderia levar o BC a reagir”. Para eles, ganham importância, portanto, as expectativas do mercado para a inflação e os movimentos da taxa de câmbio. Os economistas do J.P. Morgan avaliam que o debate fiscal “deu uma guinada perigosa para pior” após o anúncio do Renda Cidadã. Para eles, essa discussão é “particularmente importante porque a perda de credibilidade nas contas públicas pode levar ao descompasso das expectativas de inflação e ao aumento da volatilidade nos mercados”.