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Juros futuros sobem com receio de 2ª onda de covid e atritos comerciais no exterior

Marcelo Osakabe e Lucas Hirata

A combinação de temores de uma segunda onda de contaminação pela covid-19 em países que começam a testar a reabertura e novas ameaças dos Estados Unidos na arena comercial voltaram a impor uma postura defensiva aos investidores globais nesta quarta-feira. Como resultado, o dólar operou acima de R$ 5,30 e a curva de juros voltou a inclinar no país.

No encerramento da sessão regular, o contrato do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subia a 2,05%, de 2,035% no ajuste anterior; o DI janeiro/2022 avançava de 3,01% para 3,07%; DI janeiro/2023 passava de 4,11% para 4,22%; a taxa do contrato para janeiro de 2025 subia de 5,81% para 5,96%; e o DI janeiro/2027 avançava de 6,80% para 6,97%. Dessa forma a inclinação da curva, medida pela diferença entre os vencimentos de um e cinco anos, subiu de 3,775 pontos percentuais ontem para 3,91 pontos hoje.

Para ajudar a compor um cenário mais negativo, o FMI soltou novas revisões para o PIB mundial, aprofundando a expectativa de recessão este ano. O fundo revisou de 3,0% para 4,1% a projeção de retração na economia mundial em 2020. No caso do Brasil, o corte foi ainda mais intenso: de 5,3% para 9,1% de contração.

Desde a manhã, no entanto, investidores já adotavam postura mais cautelosa após a agência Bloomberg informar que a Casa Branca avalia taxar US$ 3,1 bilhões em produtos da França, da Alemanha, da Espanha e do Reino Unido. Separadamente, também pesava o fato de que o Estado de Victoria, na Austrália, e os distritos alemães de Gutersloh e Warendorf voltaram a decretar isolamento. Mais tarde, foi divulgado que os Estados Unidos registraram mais de 35 mil casos nas últimas 24 horas, o maior número desde o fim de abril.

“Nossa análise da mobilidade em nível estadual nas primeiras semanas da pandemia sugerem que, mesmo sem um lockdown amplo e fechamento das empresas, a atividade econômica pode ser fortemente prejudicada nas áreas onde os novos casos aumentam rapidamente”, dizem analistas do Wells Fargo. “A possibilidade de ressurgimento de focos da doença nos relembra que, sem uma vacina, a recuperação que se desenha tende a ser desigual.”

No Brasil, essas preocupações se somam ao conturbado cenário político e fiscal do país, que continua a fazer sombra sobre as perspectivas locais. Em relatório, analistas do J.P. Morgan afirmam, inclusive, que o efeito dessas incertezas reduz o impacto dos cortes de juros pelo Banco Central. A autoridade monetária já reduziu a Selic de 4,5% para 2,25% nos últimos meses, mas os juros de 10 anos – importante referência para financiamentos de longo prazo – não acompanharam o movimento. De acordo com o banco, essas taxas se desviaram de um padrão histórico de alívio em momento de afrouxamento monetário e, assim, registram o pior desempenho entre 23 países emergentes e desenvolvidos.

“Como é improvável que os desafios fundamentais sejam resolvidos em breve, mantemos uma posição ‘underweight’ (abaixo da média) para os juros e o real em nosso modelo de portfólio. Observamos que o relaxamento quantitativo [ou seja, a compra de ativos do BC] pode ajudar a domar algumas pressões nas taxas, mas é improvável que altere significativamente a direção”, acrescentam os analistas do banco americano.