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Investidor coloca em xeque estratégia do BC e taxas de juros longas disparam

Victor Rezende

Inclinação da curva atingiu nesta sexta-feira o maior nível desde junho de 2018 Com a comunicação mais recente do Banco Central em uma mão e o estresse no mercado de câmbio em outra, os agentes financeiros continuam a levantar dúvidas sobre os rumos da política monetária no Brasil. O movimento mais intenso no mercado futuro de juros se deu nos vértices intermediários e longos da curva a termo, que voltaram a saltar.

A inclinação da curva atingiu nesta sexta-feira o maior nível desde junho de 2018 e, apesar dos números fracos de produção de veículos em fevereiro, a comunicação do BC continua no centro das atenções dos agentes financeiros.

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O avanço das taxas futuras desacelerou no início da tarde diante da notícia de que a China estima que em abril algumas vacinas contra o novo coronavírus poderão ser utilizadas. Mesmo assim, por volta de 14h45, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 cedia de 3,88% no ajuste anterior para 3,87%, após ter chegado a 4,04%; a do DI para janeiro de 2022 subia de 4,41% para 4,48%; a do contrato para janeiro de 2023 saltava de 5,07% para 5,15%; e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,02% para 6,12%.

“Houve um movimento claro de 'stop loss'. A nota do Banco Central na terça-feira prejudicou bastante a credibilidade. O dólar está explodindo e, assim, o mercado fica na dúvida sobre o que o BC vai fazer depois de ter aberto as portas para novos cortes”, afirma um gestor que prefere não se identificar. Ele nota que a ponta longa da curva “disparou com a falta de credibilidade do BC”. Para ele, “quem tem qualquer coisa aplica na ponta longa da curva está saindo”.

O movimento recente do dólar, que na máxima do dia chegou a R$ 4,67, indica que “não é um bom momento para aplicação na curva de juros”, diz Carlos Carranza, estrategista de mercados emergentes do J.P. Morgan. “A correlação entre taxas de juros e câmbio pode aumentar se as pressões sobre o real continuarem, com os recentes cortes do BC incapazes de ancorar a ponta longa da curva, que atualmente é uma das mais inclinadas entre os mercados emergentes”. No horário acima, o spread entre as taxas dos DIs para janeiro de 2021 e de 2029 estava em 3,19 pontos percentuais.

Para Luis Laudisio, trader da Renascença, “o mercado, além de estar diminuindo a alavancagem nas posições, começa a corrigir o exagero precificado, muito por conta do comunicado do BC afirmando que deve voltar a cortar juros, se preciso, de forma extraordinária”. Antes de o recente estresse no câmbio contaminar o mercado de juros, os agentes financeiros levaram as taxas dos DIs a pisos históricos.

O estrategista da Tullett Prebon Brasil, Vinícius Alves, afirma que, apesar do estresse na curva de juros, não é o caso ainda de o Tesouro intervir no mercado de renda fixa, como se observou durante a greve dos caminhoneiros em 2018 ou na crise política envolvendo o governo Temer em 2017. Se o Tesouro viesse com uma intervenção, haveria um “pânico no mercado”, diz.

Ele acredita que a curva não está “disfuncional”, apesar dos movimentos bastante intensos dos últimos dias. “A curva de juros ainda tem referência de preços”, explica. E o Tesouro só entraria no mercado caso isso fosse perdido, como ocorreu na greve dos caminhoneiros quando os investidores passaram a temer uma reviravolta na condução da política monetária com alta de juros.