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Juros futuros fecham em queda com Selic e questões políticas no radar

Victor Rezende

A taxa do DI para janeiro de 2021 foi de 2,28% para 2,25% e a do contrato para janeiro de 2023 cedeu de 4,23% para 4,09% As taxas futuras de juros encerraram o pregão regular desta terça-feira (2) em queda expressiva em toda a curva a termo.

A sensação de melhora nas relações entre Executivo e Judiciário ajudou na retirada de prêmio de risco, em especial nos trechos de mais longo prazo. Além disso, a melhora das condições financeiras, em especial na taxa de câmbio, fez com que os agentes precificassem chance maior de um corte de 0,75 ponto percentual na Selic neste mês, enquanto muitos observam que ainda há possibilidade de o juro básico testar níveis abaixo de 2%.

No fim da sessão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 foi de 2,28% no ajuste anterior para 2,25%; a do DI para janeiro de 2022 recuou de 3,14% para 3,06%; a do contrato para janeiro de 2023 cedeu de 4,23% para 4,09%; a do DI para janeiro de 2025 caiu de 5,94% para 5,76%; e a do contrato para janeiro de 2027 passou de 6,91% para 6,73%.

O cenário se desenha para números de atividade econômica bastante negativos no segundo trimestre e para uma retomada bastante lenta da economia. Nos cálculos da BNP Paribas Asset Management, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve sofrer uma contração de 7,5% neste ano e ter um crescimento de somente 2,2% em 2021. Para a economista-chefe da gestora, Tatiana Pinheiro, a situação para a atividade “ficou pior” em relação à reunião passada do Copom.

“A contração da atividade e os números que estão sendo divulgados vão mostrar esses espaço para o BC se aproximar do ‘lower bound’. É muito difícil estimar esse limite da política monetária para qualquer economia e, para a brasileira, é ainda mais, já que há vetores importantes, como a situação fiscal. No entanto, acredito que o juro básico pode chegar a 1,5%”, diz Tatiana. Ela defende, ainda, que será necessário normalizar a política monetária a partir do segundo semestre de 2021, em um processo que levaria a Selic a 4% em dezembro do próximo ano.

Também o economista-chefe da Vinland Capital, Aurelio Bicalho, desenha um cenário muito desafiador para a atividade e aponta para a necessidade de cortes adicionais da Selic. “As expectativas de inflação estão abaixo da meta, a capacidade ociosa é muito grande e acredito que o BC deveria dar mais peso a esses fatores”, diz. O cenário-base da Vinland contempla o juro básico em 2,25% neste mês e por um longo período. Bicalho, contudo, acredita que o BC poderia ser ainda mais ousado e reduzir a taxa em 1 ponto percentual na próxima reunião do Copom.

A taxa real de juros é um dos argumentos utilizados pelo economista para advogar pela necessidade de um juro básico menor. “Se a Selic cair a 2,25% e ficar nesse nível e se as expectativas de inflação convergirem para o nosso cenário de 2,5% em 2021, vamos ter um juro real ligeiramente negativo, menor que o nível de agora, na faixa de -0,6%. Por isso é importante o BC fazer um corte mais agressivo, já que, se as expectativas de inflação continuarem caindo, o juro real vai começar a subir.”

Um fator que pode contribuir para a avaliação de que a taxa de juros pode testar níveis abaixo de 2% está nas condições financeiras mais expansivas neste momento, de acordo com o economista-chefe da Novus Capital, Tomás Goulart. “A dúvida agora está no BC deixar a porta aberta para, na reunião de agosto, seguir cortando. Quem vai determinar são as condições financeiras, já que, pela meta de inflação, o espaço é gigante”, diz.

Para o economista da Novus, se houver um cenário com menor ruído político, sem problemas adicionais entre Estados Unidos e China e sem que o pacote franco-alemão de estímulos seja deixado de lado, o BC terá espaço para cortar a Selic em pelo menos mais 0,50 ponto, o que levaria a taxa a 1,75%. “E então ele pode ir operando com mais cautela quando chegar nesses níveis”, afirma.

O alívio nas condições financeiras tem se mostrado de forma mais acentuada nos últimos dias e, nesta terça-feira, não foi diferente, com queda firme do dólar e das taxas longas de juros, alta do Ibovespa e queda do risco país medido pelo CDS de cinco anos. Durante a tarde, a medida estava em torno de 250 pontos e indicava um ponto de inflexão importante, na avaliação do economista-chefe da Gauss Capital, Guilherme Attuy. “A diferença do nosso CDS para alguns pares caiu bastante. Estávamos distantes cerca de 70 pontos de um grupo de emergentes similares e, agora, esse nível caiu para 50 pontos.”

Para Attuy, se o cenário político se mostrar mais favorável e caso haja boas notícias no front da pandemia que sejam consistentes, o mercado pode começar a demandar menos prêmio de risco pelos ativos brasileiros, que abriria espaço para mais questionamentos sobre o quão longe a taxa de juros pode ir. O cenário-base da Gauss, porém, contempla um caminho mais conservador, de corte de 0,50 ponto percentual na Selic neste mês e de mais 0,25 ponto em agosto.

A leitura da economista-chefe da Gap Asset, Anna Reis, é a de que o Copom deseja entregar o grau máximo de estímulo que puder diante do que se observa nas condições macroeconômicas. “O BC indicou que vê um corte de, no máximo, 0,75 este mês e acreditamos que ele entregará uma redução desse nível, dado que as condições financeiras permitem manter o ritmo”, afirma.

Para um momento posterior, a economista acredita em um retorno da discussão sobre o quanto mais o juro pode cair. “As próprias comunicações têm indicado que o ‘lower bound’ é algo dinâmico”, lembra Anna. Assim, ela diz que tem menos confiança do quanto mais a Selic pode ser reduzida, mas diz que o BC deixou alguma abertura de que pode ir além de 2,25%.