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Juros futuros fecham em queda devolvendo excessos da véspera

Marcelo Osakabe

IPCA-15, RTI e Campos mantêm disputa aberta sobre novos cortes da Selic A agenda cheia de dados e eventos relevantes para a política monetária nesta quinta-feira acabou deixando inalterada a discussão sobre se o país terá novos cortes da Selic ainda este ano. De um lado, a leitura ligeiramente acima da expectativa para o IPCA-15 de junho e o tom mais otimista do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, sobre o ritmo de retomada da atividade no Brasil ajudaram as taxas curtas a registrar um leve viés de alta pela manhã. Por outro, as novas projeções para o IPCA contidas no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) reforçaram a leitura de que ainda há espaço para ajustes adicionais.

Dessa forma, a taxa do contrato do Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 encerrou estável em 2,05%. Os demais vencimentos registraram queda, devolvendo a alta da véspera. O DI para janeiro/2022 cedeu de 3,07% no ajuste anterior para 2,99% no fim da sessão regular, enquanto o contrato para janeiro de 2025 cedeu de 5,94% para 5,77%.

"O juro mais longo tem mais espaço para cair, porque é mais ligado ao risco país, que ainda está bastante alto", diz José Faria Junior, diretor da WIA Investimentos. Apesar do recuo visto nos vértices mais longos, o spread do contrato de 5 anos de Credit Default Swap do Brasil subiu hoje a 265 pontos, de 264 pontos ontem.

Logo no início da manhã, o IBGE divulgou que a prévia da inflação de junho mostrou aceleração de 0,02%, ante -0,59% em maio. O número veio ligeiramente acima da mediana das projeções coletadas pelo Valor Data, que apontava -0,05%. O dado de certa forma corroborou o tom mais otimista do presidente do BC sobre a retomada da atividade. Em coletiva para comentar os dados do RTI, Campos afirmou que o último encontro do Copom teve uma leitura mais positiva sobre esse aspecto e que a nova projeção para o PIB, de contração de 6,4% este ano, tem viés de melhora. Ele comentou ainda que achou a nova projeção do FMI para o Brasil, divulgada ontem, "bastante pessimista". O fundo espera agora que o PIB do país tombe 9,1% em 2020.

Mais cedo, o mesmo relatório mostrou, no entanto, que a projeção para o IPCA fica em 1,9% este ano, 3,0% em 2021 e 3,36% em 2022 no cenário com Selic e câmbio constantes. Em março, as previsões para estes mesmos períodos eram de, respectivamente, 3,0%, 3,5% e 3,8%. Ou seja, a inflação voltaria para perto do objetivo apenas em 2022. Vale lembrar que a meta perseguida é de 4% para este ano, 3,75% para 2021 e 3,5% para 2022, com intervalo de tolerância de 1,5% para mais ou menos.

Na coletiva, Campos ressaltou que a meta de inflação "de forma alguma está sendo abandonada". Segundo ele, no entanto, o patamar atual dos juros já é fortemente estimulativo e a autoridade monetária tem observado atentamente o balanço de riscos à frente. Um deles é o próprio risco fiscal. Caso a convergência fiscal for desestabilizada, comentou, “teremos um juro neutro diferente do de hoje”.

O dirigente disse ainda considerar que, apesar da discussão sobre o limite mínimo inferior, a política monetária ainda tem espaço. "A partir do momento em que acharmos que não tem espaço, não vamos abandonar a meta, vamos olhar outras opções."

Para o Goldman Sachs, os números do RTI favorecem novos cortes da Selic no curto prazo. "As projeções condicionais do BC indicam inflação abaixo da meta em 2020, visivelmente abaixo dela em 2021 e alinhadas em 2022. Dessa forma, cortes adicionais de juros no curto prazo seriam consistentes com a persecução da meta em 2021, ainda que requeiram uma normalização mais rápida ou acelerada para manter a inflação em linha com o objetivo de 2022."

Opinião semelhante tem a Capital Economics. "A leitura relativamente firme da inflação no início de junho mascara o fato de que a alta dos preços dos alimentos compensa quedas na maior parte dos demais setores. Pressões frágeis sobre os preços mantêm a porta aberta para, possivelmente, um último ajuste no atual ciclo de cortes”, diz a consultoria britânica em nota.

O MUFG estima que a atividade fraca neste ano deva manter a inflação controlada. O banco projeta contração de 7,4% do PIB e IPCA em 1,7%. Ainda assim, os riscos fiscais devem manter o juro estacionado em 2,25%, diz o economista sênior do banco no Brasil, Carlos Pedroso.