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Juros futuros fecham em baixa após atuação do Fed

Victor Rezende, Lucas Hirata e Marcelo Osakabe

A taxa do DI para janeiro de 2021 recuou de 4,26% no ajuste anterior para 3,830% e a do DI para janeiro de 2025 cedeu de 7,17% para 7,15% O corte extraordinário nos juros americanos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) no domingo (15) deixou ainda mais nublado o cenário para os rumos da Selic. A ação do BC americano foi seguida por outras autoridades monetárias ao redor do globo, o que elevou a pressão para que novos cortes no juro básico sejam efetuados por aqui. Alguns analistas cogitaram até mesmo uma redução emergencial da Selic, nos moldes do Fed, enquanto a magnitude da ação do BC é alvo de discussões entre os agentes financeiros.

No fechamento, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 recuou de 4,26% no ajuste anterior para 3,830%; a do DI para janeiro de 2022 passou de 5,31% para 4,900%; a do contrato para janeiro de 2023 foi de 6,14% para 5,980%; e a do DI para janeiro de 2025 cedeu de 7,17% para 7,15%.

“Não consigo entender porque o BC ainda não fez um corte emergencial nos juros”, disse o diretor de investimentos da Persevera Asset Management, Guilherme Abbud. Para ele, a autoridade monetária brasileira deveria fazer uma redução de 1 ponto percentual na Selic e estar à frente do mercado. “Achamos, há bastante tempo, que o BC está errado na avaliação de que a economia se recuperaria de forma importante. BC não pode ser somente reativo. Tem de liderar o mercado em direção a um corte forte, rápido e duradouro nos juros ou ele não consegue dar o apoio que a economia precisa”, afirma.

A Persevera não é a única a clamar por um corte emergencial na taxa básica de juros após a ação do Fed. Mauá Capital, UBS e ASA Bank são algumas das instituições que, desde o início do dia, esperavam por um anúncio extraordinário do BC de um corte emergencial na Selic, que seria levada a 3,25%. Abbud espera que o juro básico encerre o ano na faixa de 2%. Essa convicção ganhou um adepto nesta segunda-feira: a XP Investimentos, que agora espera que a Selic feche 2020 em 2,75%.

“Trata-se de uma situação complexa. Por um lado, a desaceleração econômica mais acentuada e a queda dos preços de commodities terão um efeito deflacionário e isso abre margem para cortes mais agressivos. Por outro lado, a taxa de câmbio [atualmente em R$ 5,0612 por dólar], pode subir ainda mais a depender do tamanho da ação do BC”, afirma Marcos Ross, economista sênior da XP. Para ele, um corte pronunciado de juros tem potencial de levar o dólar para R$ 6 ou até mesmo R$ 7. Por isso, para esta semana, a XP espera um corte de 0,50 ponto percentual na Selic.

A ARX Investimentos também passou a contemplar cortes adicionais nos juros neste ano. Na última sexta-feira (13), a expectativa era de manutenção da taxa em 4,25%. Para a economista-chefe da ARX, Solange Srour, a bateria de estímulos anunciada ao longo do fim de semana deve levar o BC a cortar o juro entre 0,75 ponto e 1 ponto percentual na Selic, o que poderia ocorrer em uma reunião extraordinária.

No entanto, para a economista, as medidas pouco ajudarão sem uma atuação mais agressiva do governo por meio de estímulos fiscais para ajudar as empresas a sobreviverem ao que pode ser um longo período de quase inatividade. Para ela, “deixar o BC tentar segurar sozinho a economia não vai dar em nada”.

Já para o economista-chefe da VInland, Aurelio Bicalho, a economia brasileira precisa de medidas de estímulo adicionais via corte de juros de pelo menos 1,25 ponto percentual. “O BC pode fazer uma boa parte disso agora, até de forma extraordinária, ou fazer a passos mais graduais, como sinalizou. Nas circunstâncias atuais, deveria fazer rápido”, defende o economista, apontando, ainda, para movimentos de outros bancos centrais. Hoje, depois do Fed, os BCs do Chile, da Coreia do Sul e da República Tcheca também realizaram reuniões extraordinárias de corte de juros, o que ajudou a jogar para baixo as taxas futuras de curto prazo.

Um tom mais cauteloso, contudo, é visto na Kapitalo, onde o economista Alfredo Binnie defende uma redução de apenas 0,25 ponto na Selic nesta semana. Para ele, a política monetária no Brasil e nos emergentes deveria ser conduzida “com mais cuidado”, já que as atuações do Fed e de outros bancos centrais têm impacto mais incerto na curva de juros e no câmbio de emergentes “porque os ativos locais carregam mais prêmio de risco”.