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Juros futuros fecham em alta firme em dia marcado por leilão do Tesouro

Victor Rezende
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A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 3,05% no ajuste anterior para 3,12% e a do DI para janeiro de 2023 escalou de 4,51% para 4,60% Em um novo dia de leilão de prefixados do Tesouro Nacional, o mercado de juros voltou a ter um pregão de estresse, com alta forte das taxas futuras, especialmente nos trechos intermediários da curva. Embora os juros tenham se afastado das máximas, especialmente na reta final da sessão desta quinta-feira (1º de outubro), eles se mantiveram em alta firme, no momento em que os agentes continuam preocupados com a sustentabilidade das contas públicas e com a necessidade significativa de financiamento que o Tesouro terá pela frente. Assim, no fim da sessão regular, ás 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 subiu de 3,05% no ajuste anterior para 3,12% e a do DI para janeiro de 2023 escalou de 4,51% para 4,60%. Já a taxa do contrato para janeiro de 2025 avançou de 6,50% para 6,56% e a do DI para janeiro de 2027 passou de 7,48% para 7,52%. Embora tenham se afastado das máximas do dia no fim da tarde, é possível notar, ainda, uma alta forte das taxas em relação ao valor de fechamento, com avanço superior a 15 pontos-base em alguns vértices da curva. Mesmo depois de o ministro da Economia, Paulo Guedes, ter se mostrado contrário ao uso do dinheiro de precatórios para financiar o Renda Cidadã, as preocupações fiscais foram mantidas no foco, assim como a percepção de uma retomada econômica mais acelerada. “Existe certa apreensão com a tentativa de se tornar o auxílio emergencial, que deveria ser temporário, em um projeto permanente e sem contrapartida. Não é uma questão do mercado não ter aprovado, mas a proposta chegou de surpresa e ninguém esperava que, a essa altura do campeonato e neste governo, que tinha uma proposta reformista antes da pandemia, um projeto como esse seria apresentado”, afirma Sergio Zanini, sócio e gestor da Galapagos Capital. Assim, o dia foi de alta nas taxas desde o início do dia. Os momentos de maior pressão, contudo, vieram depois que o Tesouro revelou a quantidade de títulos que ofertaria em seu leilão semanal de títulos públicos. Foram ofertadas 6 milhões de LTNs de longo prazo (para janeiro de 2024), um lote maior do que o observado nas semanas anteriores, o que deixou o “miolo” da curva de juros pressionado. O Tesouro conseguiu vender os 6 milhões de papéis para janeiro de 2024, mas teve que pagar mais caro. Na oferta de hoje, esses títulos foram vendidos a uma taxa 28,5 pontos-base (0,285 ponto percentual) acima do DI de prazo equivalente. Na semana passada, quando o volume vendido foi bem menor, de 2 milhões de títulos, esse prêmio foi de 20,8 pontos-base. “O principal ponto do leilão é observar o comportamento do título para janeiro de 2024. É possível ver que o prêmio abriu muito mais, como um sinal de que o leilão foi muito forte. Depois do megaleilão de 10 setembro, o Tesouro diminuiu bem a oferta desses papéis mais longos, mas hoje voltou com uma oferta maior e isso deixou o mercado bem pressionado”, diz Vinicius Alves, estrategista da Tullett Prebon Brasil. Mas o que mais chama a atenção do mercado foi o leilão de LFTs, papéis atrelados à Selic. A oferta foi pequena, de apenas 100 mil títulos, divididos entre os vencimentos março de 2023 e março de 2027. O Tesouro conseguiu vender a oferta integral, mas aceitou apenas propostas para o papel mais longo. E, para isso, pagou uma taxa de deságio de 0,2921% — nível bastante elevado quando comparado à taxa de 0,1214% do leilão de LFTs para setembro de 2026 da semana passada. Embora preocupe observar esse aumento de deságio, esse ajuste de preços pode estar ainda alinhado com a estratégia do Tesouro. Em entrevista ao Valor na semana passada, o coordenador da dívida, José Franco de Morais, disse esperar uma convergência das taxas desses dois papéis a um nível semelhante em relação ao CDI, o que poderia fazer com que alguma estabilidade fosse alcançada no mercado secundário. No início do dia, a taxa da LTN para 2024 era equivalente a 104,12% do CDI, enquanto a LFT para 2026 tinha um retorno equivalente a 103,36% do CDI. A estratégia do Tesouro, no entanto, não tem a aprovação consensual do mercado. Para Sergio Goldenstein, analista independente da Omninvest, o Tesouro não tem tantas alternativas em relação às LFTs. “A baixa taxa Selic reduz o espaço para se ofertar LFT. Sancionar uma elevação dos deságios até esses títulos tornarem-se atrativos teria como consequência um enorme estresse nos fundos de renda fixa e uma redução ainda maior da demanda por LFT”, escreve em relatório. De fato, em setembro houve um resgate de cerca de R$ 7,3 bilhões de fundos de renda fixa, segundo dados compilados pelo economista e blogueiro do Valor Investe Marcelo D’Agosto. No caso dos fundos cuja carteira é composta majoritariamente por títulos públicos, que perderam liquidamente R$ 420 milhões em setembro, esse foi o primeiro mês com resgate no ano. É bom lembrar que, por causa das regras de Imposto de Renda decrescente (de até 15% para resgates após dois anos), que exige que o prazo médio da carteira seja superior a 365 dias, esses fundos acabam concentrando a carteira em LFTs. Para Goldenstein, que já chefiou o Departamento de Operações de Mercado Aberto do BC, supondo a manutenção da Selic em níveis baixos por um período prolongado, "apenas uma importante melhora da percepção sobre o quadro fiscal aliviaria o cenário, ao reduzir os prêmios de risco da parte intermediária e longa da curva de juros e possibilitar o aumento do interesse dos investidores locais e estrangeiros por títulos de prazo maior". O aumento recente dos riscos fiscais foi abordado hoje pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento do J.P. Morgan. Conforme apurou o Valor, o dirigente reforçou o tom em relação ao debate fiscal e disse que se o teto for rompido ou se o regime fiscal for flexibilizado com alguma espécie de contabilidade criativa, o “forward guidance” (orientação futura) implementado em agosto pelo Copom, que aponta para a Selic em níveis baixos por um período prolongado, será suspenso. Entre economistas, a expectativa é de que, mantido o regime fiscal atual, uma normalização da política monetária tenha início no ano que vem, possivelmente na segunda metade de 2021, diante da ociosidade elevada da economia. O Bradesco BBI revelou, em relatório enviado a clientes, que alterou sua projeção de Selic no fim do próximo ano de 4,75% para 4%. Já em relação à situação fiscal, o BBI aponta que o Brasil enfrenta “uma grande provação sobre como restaurar um equilíbrio fiscal mínimo em 2021 e além”. Os economistas não adotam uma mudança ou flexibilização do teto de gastos em seu cenário básico, o que, para eles, não significa que o Brasil esteja livre dos riscos. “Um déficit primário de 12% neste ano e de 3,5% no próximo ano significaria que a trajetória da dívida do país exigirá mais intervenções para se estabilizar, como reformas, corte de despesas, aumento de impostos”. Eles veem a dívida atingindo 95% do PIB neste ano e 97% em 2021.