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Juros futuros fecham em alta forte com riscos fiscais e cenário externo

Victor Rezende
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No fim da sessão regular, a taxa do DI para janeiro de 2022 passou de 3,23% para 3,32% e a do DI para janeiro de 2023 escalou de 4,67% para 4,80% Os juros futuros abandonaram o alívio observado no início do dia e encerraram os negócios regulares desta terça-feira (6) em alta forte ao longo de toda a curva de juros. O novo dia de estresse também foi verificado no mercado secundário de títulos públicos, já que nem mesmo a paz selada entre o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Economia, Paulo Guedes, dissipou as preocupações com a trajetória fiscal brasileira. Uma contribuição adicional para a alta das taxas veio no fim do dia, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cancelar as negociações entre republicanos e democratas por um novo pacote de estímulos à economia americana. Assim, no fim da sessão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 3,23% no ajuste anterior para 3,32% e a do DI para janeiro de 2023 escalou de 4,67% para 4,80%. Já a taxa do contrato para janeiro de 2025 subiu de 6,51% para 6,67% e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 7,44% para 7,56%. A reconciliação de Maia e Guedes até trouxe alívio ao mercado na abertura da sessão desta terça, mas já no começo da tarde o efeito da paz entre os dois foi deixada de lado no mercado de juros. O ambiente de incerteza com o rumo das contas públicas voltou ao foco dos investidores após a notícia de que uma solução para o Renda Cidadã será definida apenas depois das eleições. Vale lembrar que o segundo turno das eleições municipais neste ano está programado para 29 de novembro. No início da tarde, quando os relatos chegaram às mesas de operação, as taxas chegaram a subir mais de 20 pontos-base (0,2 ponto percentual) em alguns trechos. “A virada rápida do mercado sugere que a posição técnica está bem limpa, ou seja, não existem investidores com posições aplicadas [aposta na queda das taxas] muito grandes e também o mercado não necessariamente tem convicção para posições tomadas nos juros [aposta na alta das taxas]”, avalia Leonardo Locatelli, gestor da BlueLine Asset. Ele, contudo, avalia que a rapidez de reversão do movimento sugere que, ao menos no curto prazo, o mercado começa a adotar um maior viés para posições tomadas em taxa. “O mercado começa a entender que, talvez, os juros de curto prazo poderiam ter uma normalização mais rápida. Dados os fatores técnicos e a situação fiscal complicada, o mercado pode operar no curto prazo com esse viés mais ‘tomador’”, diz Locatelli, ao ressaltar que a âncora para os juros estimulativos no Brasil “é muito dependente de uma situação fiscal crível, o que a gente não tem hoje”. O mercado secundário de títulos públicos também se encaixa no contexto, já que nem mesmo com o alívio dos juros futuros, na segunda (5), os investidores deixaram de pedir prêmio mais alto pelas LTNs e pelas LFTs. O mercado de LFT, inclusive, continua a observar pressão vendedora de papéis, com forte abertura das taxas. “Hoje começou a aparecer um pouco de compra, mas o mercado segue bastante vendedor”, afirma Sergio Machado, gestor do Tropico SF2. A taxa de deságio da LFT para setembro de 2026 passou de 0,3497% na sexta-feira para 0,4188% ontem. Hoje, alguns papéis chegaram a ser negociados a uma taxa de deságio em torno de 0,7%. Na avaliação de Fabiano Ferrari, analista do banco Inter, embora os prêmios atuais indiquem oportunidades, o risco se mostra bastante elevado na curva de juros. “Entendemos que a confiança foi quebrada com as tentativas de flexibilizar a âncora fiscal e sem avanços de reformas. Mesmo que o governo volte atrás com a proposta da Renda Cidadã, não acreditamos em um fechamento imediato da curva, visto que incertezas estão elevadas e a desconfiança prevalece no mercado”, afirma em relatório. Para Ferrari, a volatilidade deve permanecer alta na curva, devido ao risco fiscal e a fatores como as eleições americanas e o desenvolvimento da pandemia ao redor do globo. Assim, na avaliação do Inter, “o momento atual não se caracteriza como oportunidade para investidores com baixa tolerância a risco”. Ferrari diz, ainda, que os juros longos poderão cair, caso a agenda de reformas avance e reverta a trajetória da dívida pública, mas, diante da aproximação das eleições municipais, “a volatilidade e os elevados prêmios devem prevalecer”.