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Juros futuros encerram em forte alta em meio a ruídos políticos

Marcelo Osakabe e Lucas Hirata
·3 minutos de leitura

O movimento foi mais intenso na chamada "barriga da curva", mostrando que investidores passaram a ver chances maiores de a elevação da Selic ser adiantada Comentários supostamente feitos pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho (PSDB-RN), sobre o Renda Cidadã e o trabalho do ministro da Economia, Paulo Guedes, mantiveram no foco o momento ruim da articulação política do governo do presidente Jair Bolsonaro, levando investidores a novamente incorporar maior prêmio na curva de juros. O movimento foi mais intenso na chamada "barriga da curva", mostrando que investidores passaram a ver, agora, chances maiores de a elevação da Selic ser adiantada. No encerramento da sessão regular desta sexta-feira (2), às 16h, o rendimento do contrato do Depósito Interfinanciero (DI) para janeiro de 2022 subiu a 3,40%, de 3,12% no ajuste anterior, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2023 avançou de 4,61% para 4,85%. Já o yield do contrato para janeiro de 2025 passou de 6,53% para 6,73% e o do DI janeiro/2027 chegou a 7,63%, de 7,50% no ajuste anterior. Em live fechada para investidores e fora da agenda oficial, Marinho teria reforçado, segundo relato de uma fonte cujo fundo esteve presente no encontro, que existe um impasse em torno do financiamento do Renda Cidadã, mas que ele sairia "da melhor ou da pior forma". Ele também teria tecido fortes críticas contra seu colega de esplanada Paulo Guedes. Entre outras coisas, Marinho teria dito que foi o próprio Guedes que teve a ideia de usar recursos de precatórios para financiar o Renda Cidadã e que, agora, não tem uma proposta. Os comentários acabaram sendo distribuídos, pelo WhatsApp, para outros representantes do mercado financeiro. A reação das taxas foi intensa, sugerindo, segundo profissionais, inclusive um movimento para limitar perdas (stop loss). Eles também ocorrem menos de 24h depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer que Guedes “continua com 99,9%” de sua confiança. “O episódio mostra um governo totalmente descoordenado, em que o presidente e a Casa Civil não controlam nem a área política nem a técnica. Virou uma disputa de quem fala mais alto”, diz Victor Candido, economista da Journey Capital. Segundo o profissional, a tensão já faz a curva de juros precificar uma alta de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião de dezembro deste ano, contra 0,19 ponto ontem. Isto, por sua vez, repercutiu automaticamente sobre os demais vértices. “Naturalmente, os demais vencimentos sobem porque o prêmio é carregado ao longo da curva", diz um economista-chefe que prefere manter o anonimato. Em nota divulgada no fim da tarde, Marinho confirmou a reunião fora da agenda, mas disse que as informações chegaram à imprensa de maneira distorcida. “A reunião teve o intuito de reforçar o compromisso do governo com a austeridade nos gastos e a política fiscal”, diz o texto, que também negou os ataques a Guedes. “Não foram feitas desqualificações ou adjetivações de qualquer natureza contra agentes públicos, nem tampouco às propostas já apresentadas. Quem dissemina informações falsas como essas tem claro interesse em especular no mercado, gerando instabilidade e apostando contra o Brasil.”