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Juros futuros disparam mesmo com atuação histórica do Tesouro

Victor Rezende

No fechamento do pregão, às 16h, a taxa do DI para janeiro de 2021 subiu de 4,22% para 4,94% e a do DI para janeiro de 2025 disparou de 6,89% para 8,14% O mercado de juros futuros passou por uma forte reprecificação de risco em apenas um dia, o que obrigou a B3 a ampliar os limites diários de oscilação durante a tarde diante dos riscos à economia brasileira vindos do exterior e das tensões entre os poderes Executivo e Legislativo.

A decisão do Congresso de flexibilizar uma das regras da nova Previdência foi o principal fator a detonar o movimento de disparada das taxas futuras nesta quinta-feira (12), com os investidores voltando a colocar nas contas as incertezas para o ajuste fiscal. O movimento obrigou o Tesouro Nacional a anunciar um programa de compra e venda de títulos públicos, na maior atuação da história em um único dia.

No fechamento do pregão, às 16h, a taxa do DI para janeiro de 2021 subiu de 4,22% no ajuste anterior para 4,94%; a do DI para janeiro de 2022 avançou de 5,03% para 6,17%; a do DI para janeiro de 2023 saltou de 5,92% para 7,13%; a do DI para janeiro de 2025 disparou de 6,89% para 8,14% e a do DI para janeiro de 2027 saltou de 7,60% para 8,88%.

O que deu ainda mais fôlego para o movimento nos juros futuros nesta quinta foi o fato de que esse ainda era o mercado mais resiliente até então e servia de estratégias defensivas quando o dólar disparava e a bolsa derretia.

“É o mercado que víamos mais protegido com fiscal e inflação ancorados e, agora, existe uma discussão sobre o futuro das reformas”, comentou o chefe de estruturação e vendas de derivativos do Bank of America, Nuno Martins.

O economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, diz achar que o mercado de juros estava subestimando os riscos fiscais. “A reforma da Previdência é necessária para evitar uma trajetória explosiva da dívida, mas não é suficiente para tirar o risco fiscal. Ainda precisamos de outras medidas que possam levar à redução dos gastos obrigatórios, a questão do pacto federativo. Tudo isso é necessário. Acho que os prêmios de risco não refletiam isso, talvez, na crença de que as reformas estavam a caminho e seriam aprofundadas”, afirma.

A surpresa com a decisão do Congresso de derrubar o veto presidencial sobre uma regra que aumentava o limite para receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) pegou o mercado em um momento de turbulência internacional devido à disseminação do novo coronavírus, que já afeta de forma mais expressiva as expectativas para o crescimento econômico no Brasil este ano.

O Mizuho foi uma das casas a revisar suas projeções e, agora, espera que o Produto Interno Bruto (PIB) exiba expansão de apenas 1,0% este ano, enquanto a taxa básica de juros seria mantida inalterada pelo Banco Central em 4,25%. “Cortar o juro agora adicionaria volatilidade e, assim, acreditamos que o BC não irá seguir a sua sinalização da semana passada e voltará atrás, mantendo o juro inalterado”, disse o estrategista-chefe do Mizuho no Brasil, Luciano Rostagno.

Além do Mizuho, a SPX também passou a projetar um crescimento de apenas 0,9%, enquanto os economistas do J.P. Morgan disseram, em relatório, que a economia brasileira está “flertando com uma recessão” no primeiro semestre.

Com a disparada das taxas, o Tesouro Nacional, que até então monitorava a situação de longe, passou a atuar com força. Logo no início do dia, o órgão anunciou um programa de compra e venda de títulos públicos, em um movimento coordenado com o Banco Central, “em razão das condições vigentes no mercado financeiro”. De acordo com a Renascença, foi a maior atuação da história em um único dia do Tesouro Nacional, que, diferente de outras vezes, começou com compra e venda de NTN-Bs e, depois, partiu para os títulos prefixados.

“Estamos em uma fase muito difícil, em que a dinâmica é de crise e, pela característica da pandemia ou pela falta de guidance dos tomadores de decisão, o pânico tomou conta dos negócios aqui e lá fora”, diz o economista-chefe da Guide Investimentos, João Maurício Rosal. Para ele, o que agrava a questão no Brasil é ver que os agentes ainda não sabem como agir para administrar a crise.

“Não há um plano e estamos apenas com o modo de reação ligado. Essa desorganização do governo já tem repercussões no Congresso com o BPC e precisamos ver como a política em Brasília vai se organizar para atacar o coronavírus e voltar as atenções à agenda econômica”, afirma Rosal. Para ele, assim, os agentes econômicos estão agindo atrás da curva e, até o momento, estão sendo incapazes de tirar os mercados do modo pânico.