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Juros e dólar disparam com inesperado tom "hawkish" de autoridades do BC

Moedas de reais

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - Os mercados de renda fixa e câmbio no Brasil sofriam um golpe nesta terça-feira, com disparada nas taxas de DI e um rali do dólar acima de 5,25 reais, que deixava a moeda brasileira na lanterna global, num profundo ajuste após falas consideradas duras de duas autoridades do Banco Central colocarem em xeque a perspectiva de fim do ciclo de aperto monetário.

A correção expressiva nos preços locais ocorria ainda em meio a um humor questionável no exterior, ainda por temores de altas de juros que sufoquem as economias. Mas a piora nos ativos domésticos era mais visível, numa reversão clara do comportamento mais benigno de algumas semanas patrocinado, em parte, pela perspectiva de que os juros por aqui parariam de subir.

Os comentários de mercado logo depois do último comunicado de política monetária do BC, no começo de agosto, foram de que o Brasil ficaria mais atrativo a partir de então, uma vez que as taxas de juros tenderiam a ir na direção de queda, o que elevaria os retornos via carrego dos papéis de renda fixa.

O maior apelo da dívida brasileira chamaria, assim, fluxo internacional, aumentando a liquidez em moeda estrangeira e exercendo pressão de baixa sobre o dólar.

O impacto da ideia de encerramento da alta de juros também havia impulsionado as ações na bolsa brasileira, uma vez que o desconto a valor presente pararia de aumentar com a estabilidade do juro --podendo cair quando o BC iniciasse o ciclo de queda da Selic, que algumas casas previam já para o primeiro semestre de 2023.

"Mas o BC indicou agora que o processo de queda da Selic pode não acontecer como o mercado precifica", disse Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos, para quem o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tentou passar na véspera mensagem "bastante" alinhada à que vem sendo emitida pelos principais bancos centrais globais.

Na noite de segunda-feira, Campos Neto disse que o Banco Central não pensa em queda de juros neste momento, mas em convergir a inflação às metas, ressaltando que situação inspira cuidados e que a batalha contra a alta de preços no país não está ganha.

Nesta manhã, o diretor de Política Monetária do Bacen, Bruno Serra, foi ainda mais explícito e disse que o banco discutirá um possível ajuste residual na taxa básica de juros neste mês, acrescentando que o processo de controle inflacionário no Brasil ainda é bem incipiente.

Ambos adotaram tônicas consideradas mais "hawkish", jargão da comunidade financeira que se refere a uma abordagem mais inclinada à contração da política monetária, implicando restrição de liquidez.

"O objetivo do BC com esses eventos ontem e hoje parece ser muito mais conter certa expectativa do mercado com relação ao ciclo de relaxamento monetário no próximo ano", disse Sérgio Goldenstein, chefe da área de estratégia da corretora Renascença.

Ele explica que, com a limitação do fechamento da curva de juros, há o efeito de se segurar a queda do juro real (descontada a inflação), o que poderia, assim, reforçar a ancoragem das expectativas de inflação.

"Ainda considero mais provável que o BC não faça nada na reunião de setembro. A ideia, me parece, é mais segurar a curva, tirar os cortes embutidos para o próximo ano, do que sinalizar ajuste de 25 pontos-base neste mês", completou o ex-chefe do Departamento de Operações de Mercado Aberto (Demab) do Bacen.

Com a perspectiva de que os juros demorem mais a cair, as projeções para o custo do dinheiro dispararam, nocauteando outros mercados. Na B3, as taxas de DI entre 2024 e 2027 saltaram mais de 33 pontos-base, com redução da inclinação --movimento clássico em momentos de forte aperto monetário.

O spread entre esses dois vencimentos de DI cedia 7 pontos-base, aprofundando a inversão da curva para -1,44 ponto percentual, taxa mais negativa em pelo menos um ano (período comparável).

CÂMBIO E BOLSA

A possibilidade de menor fluxo de capital advindo de investimentos que se beneficiam da queda dos juros ajudava a impulsionar o dólar, que subia 1,5% e superou na máxima 5,25 reais, com o real na liderança das quedas entre as principais moedas globais em dia de ganhos generalizados da divisa norte-americana.

Na bolsa, o Ibovespa caía mais de 2%, de longe o pior desempenho entre vários pares. As ações de consumo discricionário, mais vulneráveis ao encarecimento do crédito, despencavam mais de 5%, minando o índice geral.

Na renda fixa, disse Maria Cândida Naegele, sócia e assessora de investimentos da HCI Invest, investidores que compraram há mais tempo produtos atrelados ao IPCA podem sofrer prejuízos maiores, já que o tom mais duro do BC pode fortalecer o processo de convergência da inflação à meta. "Muita gente esperava sair (da posição) com ágio, mas isso pode demorar mais para ocorrer."

Naegele vê, com as indicações mais recentes das autoridades do Bacen, chances importantes de aumento de 0,25 ponto percentual na taxa Selic daqui a duas semanas.

"Eu esperava, por tudo que se lia do BC, o fim do ciclo agora e início da queda por volta do terceiro trimestre de 2023. Mas pode ser que isso não aconteça, que fique mais para o fim do ano que vem."

(Por José de Castro; edição de Isabel Versiani e Luana Maria Benedito)