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Juros de curto prazo caem com investidor atento ao câmbio e ao BC

Victor Rezende e Lucas Hirata

Já as taxas de longo prazo subiram: a do DI para janeiro de 2025 subiu de 6,36% para 6,39% e a do contrato para janeiro de 2029 foi de 6,92% para 6,96% Com as negociações concentradas nos vértices mais curtos e intermediários da curva a termo, os juros futuros encerraram a sessão regular desta terça-feira (19) em leve queda, enquanto os contratos de longo prazo observaram recomposição de prêmio. O comportamento do câmbio foi o principal norte para os investidores, assim como comentários do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que disse que a recente apreciação do dólar não influenciou as expectativas de inflação.

Às 16h, no fim da sessão regular de hoje, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 caiu de 4,68%, no ajuste anterior, para 4,66%; a do DI para janeiro de 2022 recuou de 5,30% para 5,29%; e a do contrato para janeiro de 2023 fechou inalterada a 5,82%. Na ponta longa da curva, a taxa do DI para janeiro de 2025 subiu de 6,36% para 6,39%; e a do contrato para janeiro de 2029 foi de 6,92% para 6,96%.

Embora o dólar tenha sido alçado a novas máximas históricas de fechamento, após superar a marca psicológica de R$ 4,20, as expectativas de inflação permaneceram contidas, na avaliação de agentes do mercado e, também, de Campos Neto. Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente do BC reafirmou que não há mudanças na política cambial brasileira e disse que, até o momento, a desvalorização do câmbio não influenciou as expectativas de inflação.

De acordo com Campos Neto, a depreciação do real em relação ao dólar é diferente das demais ocasiões por vir acompanhada de uma melhora da percepção de risco. Contudo, segundo ele, “se a desvalorização começar a afetar o canal de expectativa de inflação, daí é outra história. Nós vamos ter de fazer uma atuação diferente”.

Para o economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, Campos Neto foi “claro” durante a audiência na CAE do Senado. “O câmbio só vai incomodar quando influenciar as expectativas de inflação. É difícil falar quando isso vai acontecer, não se trata de um patamar específico. Quando o dólar passou de R$ 3,80 para R$ 4, também não incomodou. Então é preciso olhar outras coisas”, disse.

Com a inflação ainda em níveis controlados, as perspectivas para a política monetária permanecem inalteradas para alguns agentes. “Seguimos com a projeção de Selic entre 4% e 4,25% no fim do ciclo”, diz Cássio Andrade Xavier, gestor de renda fixa da Sicredi Asset. Para ele, o BC continua a sinalizar que se guiará pelos indicadores econômicos e isso mantém viva a chance de o juro básico cair para 4%, mesmo com o dólar em novos topos históricos, já que “a inflação não deve ser incomodada”, mesmo com números mais positivos do lado da atividade no próximo ano.

Os economistas da TD Securities também acreditam nisso. Para eles, até que o crescimento econômico mundial se estabilize, o dólar deve permanecer fortalecido em relação ao real e há o risco de a moeda americana permanecer, de forma sustentada, acima de R$ 4,20. Mesmo assim, o banco de investimentos canadense acredita que os planos do BC para novas reduções nas taxas de juros devem continuar sobre a mesa, já que “o hiato do produto permanece amplo e está se fechando muito lentamente para que o BC veja muito risco”.

No caso de a expansão da economia global perder ainda mais fôlego em 2020, os economistas da TD Securities veem, ainda, a chance de a Selic terminal ser de 3,75%. “Vemos espaço para cortes adicionais aos precificados hoje pelo mercado”, disse o banco canadense, em relatório divulgado nesta terça-feira. Por enquanto, a curva futura de juros aponta para cerca de 70% de chance de uma redução de 50 pontos-base nas taxas ainda este ano.

Na contramão das outras casas, o ING cogita ajustar sua projeção para a taxa básica de juros em 2020 de 4% para 4,25% diante das incertezas trazidas pela alta do dólar. “Ainda tenho o cenário de Selic a 4% para o ano que vem, mas as chances de ficar em 4,25% aumentaram muito. Esse deve ser o cenário mais provável agora”, afirmou o economista-chefe para América Latina do banco holandês, Gustavo Rangel. Para ele, o câmbio é “a principal variável que vai determinar o espaço para o BC ir além de 4,5% [no ciclo de corte de juros]”.