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Jovem brasileira mais influente do mundo explica a relação entre a cidades e a desigualdade de gênero

(Reprodução)

Por Melissa Santos

Laís Rocha Leão entrou, aos 24 anos, na lista da Comissão Europeia dos 16 jovens líderes mais influentes do mundo e falou de um tema que muitas pessoas refletem a respeito: o espaço urbano e a igualdade de gênero.

A paranaense representou o Brasil em junho do European Development Days, em Bruxelas, na Bélgica. O evento estimula jovens de todo mundo, com idades entre 21 e 26 anos, a compartilharem suas ideias voltadas à igualdade de gênero e ao empoderamento feminino.

O painel que Laís participou falava, justamente, sobre o espaço urbano e a desigualdade de gênero. “O espaço urbano já tem tantos problemas, que a desigualdade é só mais um deles. O problema é que essa desigualdade gera mais uma outra série de problemas de gênero. E ao percebemos isso, como a cidade afeta as pessoas, conseguiremos caminhar e resolver essas questões de forma mais rápida”, opina.

Laís apresentou no evento os resultados de seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em que abordava o quanto o medo das mulheres fazia com que elas não ocupassem os espaços urbanos da mesma forma que os homens. “Entrevistei 530 pessoas sobre a percepção de segurança que elas tinham. Só para ter uma ideia da diferença: os homens sempre escolhiam o caminho mais curto, mesmo tendo que passar por ruas estreitas e mal iluminadas, enquanto as mulheres optavam pelo caminho mais longo e com ruas largas e iluminadas”, explica.

Ainda que a pesquisa de Laís tenha sido feita com um público de renda restrito (classe A e B), os resultados do projeto podem ser extrapolados para as mulheres que vivem nas cidades formais. “A partir do momento que uma cidade se torna segura para mulheres e meninas, ela se torna segura para todos”, acredita.

Depois que se formou, Larissa começou a trabalhar na ONG TETO, que ajuda comunidades a desenvolverem soluções urbanas, e conheceu uma outra realidade. “A mulher periférica se sente insegura ao entrar na cidade formal por não sentir que não pertence a esse espaço. Já ouvi vários relatos nesse sentido, por isso, quero muito refazer minha pesquisa com esse grupo de mulheres, que tem uma visão diferente das cidades”, diz.

Coordenadora de diagnóstico e avaliação da ONG TETO no Paraná, Laís é líder desde os 23 anos e faz um trabalho muito relevante para as comunidades que a ONG colabora. “Atualmente quando temos eventos de coleta de dados nas favelas, eu lidero 150 voluntários de coleta de informações”, fala.

Na opinião da jovem líder, as pessoas são capazes de sair da zona de conforto quando tem acesso à informação. “A grande dificuldade na favela é ter poder de voz. Não adianta nada uma líder comunitária chegar na prefeitura e falar que as pessoas da comunidade não tem água. Ela precisa checar com um dado de que 300 famílias vivem em uma região sem água tratada, sendo 150 delas crianças”, exemplifica.

E é exatamente esse o trabalho de Laís gerar dados e informações relevantes para as comunidades advogarem pelos seus direitos perante ao governo. “Produzo dados que o governo não tem por tratar essas comunidades como invisíveis. Geramos, processamos os números e criamos os relatórios com base nas informações relevantes para os próprios moradores lutarem pelos seus direitos”, fala.

Uma outra descoberta de Laís por trabalhar no TETO é que, na favela, as mulheres acabam virando líderes quando o tema é urbanização. “O machismo existe na favela, mas nas comunidades as mulheres atuam em peso principalmente por conta de algumas condições, como abandono parental, violência doméstica e violência urbana. Elas viram líderes por pressão social e por não quererem o melhor para seus filhos”, fala.