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Jornalista é agredido por policial ao filmar abordagem a grupo com indumentária nazista

Reprodução/Twitter/@LuisAdorno

Por Caê Vasconcelos e Pedro Nogueira Ribeiro

Torcidas rivais e movimentos sociais ocuparam a avenida Paulista na tarde deste domingo (14/6). Cerca de dois mil manifestantes se reuniram contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pela democracia e contra o racismo.

A poucos quilômetros dali, no Viaduto do Chá, centro da cidade de SP, cerca de 20 bolsonaristas se reuniram no ato pró-Bolsonaro. Em inglês, eles protestavam contra as medidas adotadas pelo governador João Doria (PSDB) contra o coronavírus. No cartaz, os manifestantes bolsonaristas queriam escrever pessoas morreram (died), mas escreveram pessoas tingidas (dyed).

Às 14h, torcedores do Palmeiras partiram da Praça do Ciclista para o Masp, na Avenida Paulista, onde os demais manifestantes estavam concentrados. Com bandeiras “pela vida e democracia” e “ditadura nunca mais”, o grupo se uniu as demais torcidas de times rivais: Corinthians, São Paulo, Santos e Portuguesa.

O efetivo policial na rua era grande. Além de acompanhar a manifestação, os PMs montaram um cercado metálico em torno da estátua de Anhanguera, bandeirante responsável por matar, estuprar e escravizar indígenas, localizada em frente ao Parque Trianon.

Logo no começo do ato, o repórter Luís Adorno, do Uol, teve a tela do celular quebrada pela PM, enquanto gravava as medidas adotadas pelos policiais com um trio de jovens com suásticas nas roupas. O jornalista foi empurrado pelas costas por um dos policiais militares.

Mais na Ponte:

No vídeo que o repórter estava gravando é possível ver o diálogo entre um manifestante pró-democracia e a PM, que, até então, só havia pedido os documentos dele, ignorando a presença dos jovens com símbolos nazistas. Apesar das suásticas nas roupas, a Polícia Militar afirmou que os jovens não eram nazistas.

O grupo Judeus pela Democracia lamentou o episódio: “Suástica não é liberdade de expressão. O antissemitismo não pode ser tolerado de nenhum lado”.

Pelo Twitter, a Polícia Militar informou que detiveram um homem adulto, a caminho da manifestação no Viaduto do Chá, com um nunchaku (arma de artes marciais que consiste em dois bastões pequenos conectados por uma corrente). Segundo a PM, ele foi conduzido ao 2º DP (Bom Retiro).

À Ponte, Maria Rute, conhecida como a Baiana da Gaviões, disse que estava na rua pela vida de seu neto Jorge, que ainda nem nasceu. “Eu sei que eu estou em risco por ter mais de 60 anos. Mas, se Dandara morreu, eu posso dar minha vida também. Não quero que o meu neto tome um tiro da PM pelas costas”.

Os discursos antifascistas e antirracistas estavam alinhados e organizadores pediram que a faixa “Vidas Negras Importam” tomasse a dianteira do ato. Os manifestantes levavam cartazes de jovens negros assassinados pela PM e traziam dados sobre a mortalidade do coronavírus nas periferias do país.

Também houveram gritos em homenagem à Marielle Franco, vereadora assassinada em março de 2018: “Marielle perguntou eu também vou perguntar: quantos mais têm que morrer pra essa guerra acabar?”.

Um policial civil, que pediu para não ser identificado, disse à Ponte que estava na rua contra o desvio de conduta de agentes públicos. “Não existe nenhum agente público que pode se desviar da conduta de proteger e servir”.

Ele relembrou o caso de racismo sofrido por um policial civil negro por um PM branco. “Todos nós precisamos entender que somos agentes do Estado e temos que responder aos princípios democráticos, respeitar a lei máxima. Não somos pessoas físicas, somos agentes estatais”.

O corintiano Emerson Osasco, que marcou o primeiro protesto das torcidas rivais quanto enfrentou um grupo de bolsonaristas, em 31 de maio, vestido com uma camiseta de Malcolm X, voltou às ruas: dessa vez com a camiseta de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul.

“Nós não aguentamos mais ser alvo de atrocidades nesse país. Já são mais de 40 mil pessoas mortas por essa gripezinha, como o presidente falou. Entendemos que mais perigoso que a Covid-19 é o vírus do totalitarismo, do fascismo e dessa política genocida implantada no nosso país”, apontou.

Outro lado

A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Militar sobre a ação da PM na manifestação. Em nota, a SSP informou que “a Polícia Militar informa que adotou as medidas cabíveis para a apuração do ocorrido”.

De acordo com a SSP, até às 18h, foram registradas quatro ocorrências nas proximidades dos atos. Três pessoas foram conduzidas ao 2º DP (Bom Retiro), portanto armas brancas, e três para o 78º DP (Jardins).

A pasta também completou que contatou o repórter e o orientou para a formalização da denúncia junto à Polícia Civil, no 78º DP (Jardins) e ao plantão de Polícia Judiciária Militar.