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Jornalismo segue cerceado em mais de 130 países, denuncia RSF

Anna PELEGRI
·3 minuto de leitura
O secretário-geral da RSF, Christophe Deloire, discursa em 15 de outubro de 2020, em Paris, diante da imagem do jornalista Khaled Drarani, condenado a doia anos de prisão na Argélia por sua cobertura dos protestos de 2019

O exercício do jornalismo está ao menos parcialmente cerceado em mais de 130 países, ilustrou nesta terça-feira (20) o ranking mundial sobre a liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), dando conta de uma degradação em alguns países, entre eles o Brasil.

No total, o exercício do jornalismo está "gravemente comprometido" ou "restringido" em 73% dos 180 países analisados, enquanto apenas 12 países se situam na "zona branca" do ranking, graças à sua "situação ótima" ou "muito satisfatória", informou a ONG com sede em Paris.

Esta zona, que representa 7% dos países em comparação com 8% no ano passado, não era tão reduzida desde a criação deste índice de referência em 2013, criticou a RSF.

A lista é liderada por Noruega e Finlândia, enquanto a Costa Rica subiu do sétimo para o quinto lugar.

Na lanterna do 'ranking' mundial, a China (177), "que continua a elevar a censura, a vigilância e a propaganda na Internet a níveis sem precedentes", se mantém estável na liderança dos "piores países totalitários": Turcomenistão (178), Coreia do Norte (179) e Eritreia, segundo a RSF.

Além disso, a pandemia de covid-19 representou uma "forma de oportunidade para alguns Estados que restringiram a liberdade de imprensa", informou à AFP o secretário-geral da RSF, Christophe Deloire.

"Por causa - ou com o pretexto-" da crise sanitária, os jornalistas enfrentam "restrições de acesso" tanto às coberturas no terreno quanto às fontes de informação, segundo a ONG. Esta situação exacerbou a repressão em países como Irã (174) e Arábia Saudita (170).

- América Latina, a maior piora -

Por regiões, a Europa e a América (Norte, Centro e Sul) continuam sendo os continentes mais favoráveis à liberdade de imprensa, embora a região das Américas tenha registrado a "maior piora" nas pontuações regionais este ano (+ 2,5%).

Os países latino-americanos pior classificados são Cuba (171, inalterada), Honduras, (151, -3) e a Venezuela (148, -1).

El Salvador sofreu a queda mais significativa da região (82, -8), visto que neste país "os jornalistas têm dificuldades para obter informações oficiais sobre a gestão da epidemia".

O continente europeu, por sua vez, registra uma notável deterioração no indicador "Abusos". Atos violentos mais que dobraram na região da União Europeia e nos Bálcãs, enquanto em todo o mundo é de 17%. "Agressões contra jornalistas e prisões abusivas" aumentaram sobretudo em Alemanha, França (34) e Itália (41).

- Brasil entra na zona vermelha -

O Brasil (111), que recuou quatro posições, entrou na zona vermelha, classificada como "difícil".

Insultos, estigmatização e orquestração de humilhações públicas de jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente Bolsonaro, de sua família e de pessoas próximas a ele", condenou a RSF.

A ONG criticou, ainda, que tanto Jair Bolsonaro quanto o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tenham promovido medicamentos cuja eficácia nunca foi provada pela medicina, como foi o caso da cloroquina.

"Felizmente, levantamentos como os da brasileira Agência Pública ou artigos aprofundados publicados pelos últimos jornais independentes na Venezuela determinaram a veracidade dos fatos", destacou.

Na zona vermelha também estão Índia (142), México (143) e Rússia (150), "que usou seu aparato repressivo para limitar a cobertura pela mídia de manifestações ligadas ao opositor Alexei Navalny".

"O jornalismo é a melhor vacina contra a desinformação", afirmou em um comunicado Christophe Deloire.

"Infelizmente, sua produção e circulação são frequentemente cerceadas por fatores políticos, econômicos, tecnológicos e, às vezes, até culturais", acrescentou.

Segundo a RSF, a estabilidade do índice geral de referência do ranking (-0,3% anual) "não deve ofuscar a situação geral enfrentada pela imprensa no médio prazo", com queda de 12% com relação a 2013.

app-ac/mvv