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Jogo contra Inglaterra fez de Maradona deus no futebol e herói de guerra

JOÃO GABRIEL
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "De que planeta você veio para deixar tantos ingleses pelo caminho? Para que o país seja um punho fechado gritando pela Argentina!". O ano era 1986, e o locutor uruguaio Victor Hugo Morales acabava de consagrar sua narração daquele que seria eleito o gol mais bonito do século 20 e tido por muitos como o mais belo de todas as Copas do Mundo. O jogo contra a Inglaterra, nas quartas de final no Mundial do México, sintetizou o poder que tinha Maradona, que morreu nesta quarta-feira (25), para transcender os gramados com a bola em seu pé esquerdo --e na mão. O duelo no estádio Azteca foi o primeiro entre Argentina e Inglaterra no futebol desde a Guerra das Malvinas, de abril a junho de 1982. Estima-se que cerca de 650 argentinos morreram no conflito, quase três vezes mais que do lado inglês. O Reino Unido venceu e assumiu o controle do arquipélago, que fica a cerca de 600 km da costa sul-americana e a mais de 12 mil km do litoral britânico. A memória da guerra estava presente nas arquibancadas quatro anos depois, em faixas que diziam que "as Malvinas são argentinas" e nas brigas entre torcedores. "Todos sabiam que era uma partida de futebol, mas não podíamos esquecer dos jovens e das mães [vítimas] desta guerra inventada por assassinos", declarou anos depois Maradona. A impressão é de que o camisa 10 entrou em campo com uma missão e estava disposto a cumpri-la mesmo que precisasse das mãos para abrir o placar. Nas entrevistas sobre o episódio, o ex-jogador recorda que mandou os companheiros calarem a boca e se abraçarem após o lance. "Foi como se tivesse roubado a carteira de um inglês", disse no documentário "Maradona", de Emir Kusturica. "Apenas pela desproporção de forças [militares], os ingleses marcaram milhares de gols com a mão", ironizou Jorge Valdano, companheiro de Maradona na seleção e que era tido pelo craque como um de seus mentores. Vítima daquela tarde, o goleiro Peter Shilton lamentou a morte de Maradona, mas não escondeu sua mágoa com o episódio e com o fato de o craque nunca ter pedido desculpas pela trapaça. "Tinha grandeza, mas não esportividade". Minutos depois do gol com "la mano de Dios", os ingleses sucumbiram, um a um, ao tentar parar Maradona, que veio de trás do meio de campo para marcar de dentro da área o gol definitivo. "Vai com a bandeira. Carrega-a na mão, mesmo que ninguém a veja. Começa a esparramá-los para sempre. E vai liquidando-os um a um, movendo-se ao calor de uma música que eles não entendem", escreveria depois Eduardo Sacheri, autor do romance "La Pregunta de sus Ojos", que inspirou o filme "O Segredo de seus Olhos". A Inglaterra descontou, mas o placar terminou 2 a 1. A revista El Gráfico estampou na capa a imagem do camisa 10 e o texto: "Não chores por mim, Inglaterra", referência à música "Não chores por mim, Argentina", composição britânica. Correndo e comemorando com o punho levantado, Maradona transcendia o campo e tornava-se herói nacional. "Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos, os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou", escreveu o uruguaio Eduardo Galeano, no livro "Espelhos: uma história quase universal". Maradona escolheu o Boca Juniors quando o River Plate lhe ofereceu um salário maior. No Napoli, como lembra o escritor, provou que o sul podia não só vencer, mas humilhar o norte, berço dos poderosos e ricos Milan, Internazionale e Juventus. "Cada gol era uma profanação da ordem estabelecida e uma revanche da história", escreve Galeano em "Futebol ao Sol e à Sombra", frase que sintetiza Maradona. Maradona nasceu no bairro pobre de Villa Fiorito. Kusturica, que gravou seu filme durante dois anos em que acompanhou o ex-jogador, entendia que ele idealizava os pobres, para assim poder os defender e amar dentro e fora de campo. "Com Maradona, os pobres ganharam dos ricos, de forma que a adesão incondicional que tinha dos de baixo foi proporcional à desconfiança que lhe tinham os de cima", escreveu na quarta-feira Jorge Valdano ao El País. O Mundial de 1986 também foi o divisor de águas entre o Maradona que pouco se posicionava politicamente para o que passou a levantar bandeiras. De esquerda não só com as pernas, tornou-se amigo do ditador cubano Fidel Castro, defensor de Che Guevara, e seu símbolo transcendeu o futebol. Valdano compara a atuação do camisa 10 contra a Inglaterra à odisseia do herói Ulisses, quando a genialidade e a "argentinidade" atingiram o máximo, quando ele esteve acima do bem e do mal e quando o homem tentou "escalar à altura da lenda". E foi fatal. Endiabrado no campo, sucumbiu às drogas fora dele. "Que jogador perdemos?!", diz ao entender que sua carreira foi abreviada por ninguém mais do que ele mesmo. Os argentinos lamentam a morte de um herói, aquele que fez de tudo com a bola nos pés e que não tinha só duas mãos, mas também "la mano de Dios". "Era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses", definiu Galeano. O homem que, para os argentinos, lhes deu uma Copa e vingou uma guerra, como escreveu Valdano. "Sem bombardeiros, nós ganhamos. Ou melhor dizendo, ganhou Maradona [...] Poderia ter voltado à Argentina em um cavalo branco como San Martin, e o povo o aclamaria não como jogador, mas como uma referência política, militar, social." Sérgio Rodrigues, no livro "O Drible", escreve que o Pelé desafiou Deus e perdeu. No mesmo estádio Azteca que consagrou o brasileiro como rei em 1970, Maradona tentou incorporar a divindade. Provou-se humano.