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Joe Biden traz a esperança de um novo começo

Editorial
·4 minuto de leitura

Ao meio-dia de hoje, horário de Washington, Joseph Robinette Biden Jr. proferirá as 35 palavras do juramento que marca o início de seu mandato como 46º presidente dos Estados Unidos. Sob rígidas medidas de segurança, tomadas para evitar tanto a violência das hostes trumpistas quanto o contágio pelo novo coronavírus, assumirá como presidente de um país dividido ao meio, depois daquela que já entrou para a história como uma das piores — senão a pior — administração na história americana. Desfazer o legado de Donald Trump, tarefa já em si complexa, será ainda mais difícil diante do recrudescimento da pandemia que até agora matou 400 mil americanos e paralisa a economia.

Os Estados Unidos são o único país a superar o Brasil no ranking macabro das mortes por Covid-19. O desafio mais urgente de Biden, portanto, é começar a trabalhar contra o vírus, em vez de, como Trump, a favor dele. Mas não será o principal. O mais difícil para o novo presidente será resgatar um mínimo de unidade nacional. No discurso de posse, ele dirá o oposto do que foi dito há quatro anos. Em vez da “carnificina americana” de Trump, Biden fará eco à mensagem de união proclamada por outro presidente quando tomou posse num país também dividido, 160 anos atrás: Abraham Lincoln, com seu célebre apelo aos “melhores anjos de nossa natureza”.

Precisará mesmo de ajuda dos céus e dos anjos. Um terço dos americanos não acredita que ele foi o vencedor legítimo das eleições de novembro (dois terços entre os republicanos). Sua vitória, pelas regras do convoluto sistema eleitoral americano, foi ainda mais apertada que a de Trump há quatro anos (por 45 mil votos nos estados decisivos, em vez de 77 mil). No Congresso, quase 150 deputados e senadores endossaram a versão estapafúrdia trumpista de que a eleição foi roubada.

A maioria democrata na Câmara é apertada (cinco cadeiras) e, no Senado, dependerá do voto de desempate da vice-presidente Kamala Harris. Ainda que os republicanos tenham adiante um doloroso acerto de contas a fazer com o trumpismo, dispõem de força política considerável para atrapalhar as iniciativas de Biden. Exatamente metade dos americanos crê que ele tomará as decisões corretas para o país, constatou uma pesquisa do Washington Post com a ABC News. Mas a outra metade, não.

Logo de cara, o Senado terá de julgar Trump no processo de impeachment pela incitação à violência no Capitólio no último dia 6. Não será exatamente uma situação que enseje a conciliação e a união que Biden pregará na posse. Toda a agenda inicial do governo é constituída por temas que polarizam os americanos: imigração, mudanças climáticas, desigualdade racial, o multilateralismo no cenário internacional e um pacote econômico de quase US$ 2 trilhões para combate à pandemia.

No primeiro dia, Biden pretende assinar uma dúzia de decretos, parte deles desfazendo absurdos da gestão Trump. O foco principal será a imigração, com o cancelamento do veto a viajantes de países de maioria muçulmana e das políticas escandalosas que separam crianças das famílias na fronteira com o México. Também haverá nova adesão ao acordo climático de Paris, extensão do perdão às dívidas estudantis e o estabelecimento da obrigatoriedade do uso de máscaras em edifícios do governo federal e em viagens interestaduais. No Legislativo, as prioridades serão a aprovação do pacote de combate à pandemia e a garantia de um caminho viável para conceder a cidadania americana a 11 milhões de imigrantes que entraram ilegalmente no país.

Pela primeira vez desde 1869, quando Andrew Johnson esnobou a posse de seu sucessor, o general Ulysses Grant, o presidente que sai não comparecerá à posse do que chega. A equipe de Biden enfrentou obstáculos gigantescos durante o período de transição e já sabe que encontrará um cenário de terra arrasada assim que assumir o comando da Casa Branca.

Nenhuma das dificuldades que enfrentará será tão grande quanto o dano causado por Trump à verdade. Pela conta do “Washington Post”, foram mais de 30 mil mentiras. Trump elegeu como inimigos a imprensa profissional, a academia, os cientistas e especialistas em todas as áreas do conhecimento. Tratou de incentivar os tais “fatos alternativos” e contribuiu para criar uma realidade paralela em que hoje vivem dezenas de milhões de americanos, com seguidores no mundo todo, em particular no bolsonarismo.

As teorias da conspiração que alimentam esse universo se estendem para muito além da contestação do resultado eleitoral. Atingem vacinas, uso de máscaras na pandemia e a saúde pública. Desdenham as mudanças climáticas e os riscos dos combustíveis fósseis para o futuro do planeta. Proclamam um culto às armas e ao individualismo extremo. Em nome da defesa de uma pretensa “civilização ocidental”, promovem uma ideologia racista, antissemita e islamófoba, cujo pendor violento e antidemocrático ficou evidente na turba que invadiu o Capitólio e deixou cinco mortos. A posse de Biden não encerrará esse capítulo sombrio da história humana. Traz apenas a esperança de um novo começo.