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Pela moderação, Joe Biden dá o caminho para neutralizar a direita populista representada por Trump

Matheus Pichonelli
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Democratic U.S. presidential nominee and former Vice President Joe Biden smiles as he pulls off his face mask to speak about the results of the 2020 U.S. presidential election during an appearance in Wilmington, Delaware, U.S., November 4, 2020. REUTERS/Kevin Lamarque     TPX IMAGES OF THE DAY
Reuters

“América, estou honrado por ter me escolhido para liderar nosso grande país”.

A mensagem de Joe Biden, pelo Twitter, encerrou quatro dias de espera pela apuração das urnas nos EUA. Com o resultado na Pensilvânia, o ex-vice-presidente marcava o retorno à Casa Branca depois de quatro anos. Até provarem o contrário, e seus adversários republicanos farão de tudo para tentar, ele acabava de ser eleito o novo presidente de seu país.

Enquanto se pronunciava, Donald Trump saía para jogar golfe na Virgínia. Em seu lugar, um atrapalhado Rudolph Giuliani jogava para a torcida, insistia na tese de fraude eleitoral, desmentida pelas autoridades, e trazia um observador para dizer que ele viu com seus próprios olhos a marmelada. Faltou citar o zap recebido pela prima da irmã do tio que associava a convulsão de Ronaldo Fenômeno na Copa de 98 com a vitória democrata nos EUA. Maldosos dirão que o sujeito que caiu na pegadinha do Borat estava querendo dar lições sobre malícia nas eleições.

Jogo jogado, ao menos se nenhum juiz atender aos pedidos de Donald Trump, mau vencedor em 2016 e mau perdedor em 2020, Biden foi eleito, para satisfação de democratas em todo mundo, e não só dos simpatizantes do partido homônimo norte-americano.

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Trump tentou como pode avacalhar as instituições de seu país e transformá-las no seu próprio playground. Teria conseguido não fosse o sistema de freios e contrapesos norte-americanos, mais maduros e testados do que por aqui. Mas o morticínio resultante de sua condução na pandemia do coronavírus mostra que seu despreparo foi tudo, menos inofensivo.

No Brasil, muitos se questionam se Biden vale mesmo essa aura de guerreiro do povo americano (e, de certa forma, brasileiro) que as redes querem imprimir.

Como o senador do filme de John Ford, o democrata é agora aclamado por ter matado o facínora. Mas alto lá. Ele é festejado porque, uma vez eleito, galga alguns degraus na escada civilizatória das opções em jogo.

Vamos combinar que o adversário não oferecia muitos parâmetros neste campo. Ainda assim, vale lembrar que era ele o vice de Barack Obama quando os EUA bisbilhotavam meio mundo, inclusive os parceiros brasileiros, como mostrou Edward Snowden no escândalo da NSA. Que ninguém espere um cosplay do papa Francisco a partir daqui.

Fato, porém, é que a derrocada de Trump significa uma baixa e tanto para as pretensões de Jair Bolsonaro, e isso não é pouco para quem já conta as horas para as eleições de 2022, sejam os opositores de sempre, sejam os desiludidos.

Bolsonaro não só bajulou o ídolo como pode, mas também copiou descaradamente sua estratégia e discurso anti-sistema, com ataques a imprensa e instituições democráticas, a começar pelo processo eleitoral.

A tentativa de colocar em dúvida a lisura das urnas por aqui começou bem antes do esperneio de Trump e não tem hora para acabar.

Deputado de baixo clero, Bolsonaro se tornou uma opção viável nas eleições de 2018 após seu estafe, sobretudo seu filho Eduardo Bolsonaro, se aproximar dos estrategistas da campanha vitoriosa de Trump em 2016. Eles certamente aprenderam um tanto com as visitas e afagos de Steve Bannon, o idealizador do projeto Trump que chegou a ser preso após arrecadar fundos para a construção de um muro na fronteira dos EUA com o México e fugir com o dinheiro. Tudo boa gente.

Biden, ao que tudo indica, não terá nenhum lunáticos do tipo na bagagem que levará à Casa Branca. Nem, presume-se, baterá o recorde de mentiras produzidas em larga escala pelo antecessor no Twitter. Já é alguma coisa.

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De quebra, leva com ele a até ontem senadora Kamala Harris, a primeira mulher negra a assumir a vice-presidência da maior potência econômica e militar do Planeta. Sua escolha foi um aceno acertado a minorias e à ideia de diversidade exigida pela contemporaneidade.

Com eles, o alinhamento automático entre Brasília e Washington volta à estaca zero. Biden não é um militante histórico do combate ao aquecimento global como o também democrata Al Gore, mas está longe de ser um negacionista como o antecessor.

Na campanha, já demonstrou interesse pelo que acontece na Amazônia, o que pode entortar o caldo para o lado bolsonarista, mais alinhado ideologicamente com Trump nesta seara do que qualquer outro grupo político brasileiro. Bolsonaro até outro dia torcia descaradamente para o candidato republicano à reeleição. Com o senso de sobrevivência que lhe é conhecido, na véspera da vitória de Biden já mudava de assunto, dizendo que o ex-melhor-amigo-de-todos-os-tempos não era assim tão importante.

A chegada de Biden marca também o triunfo da velha forma de fazer política sobre a onda antipolítica que levou Trump ao governo e fez escola em outras praças.

Biden, no sentido amplo da palavra, é político das antigas, para o bem e para o mal. Menos incendiário do que queria parte do eleitorado democrata, ele tem sua trajetória marcada pela capacidade do diálogo e a busca pelo consenso.

Por insosso, pode ser lembrado como uma espécie de Michel Temer (ao menos o da fase pré-impeachment) norte-americano, um sujeito que está na política a vida toda, tem interlocução com diferentes alas dos partidos, e sabe como a máquina pública funciona. Um anti-aventureiro, portanto.

Biden é eleito na ressaca de uma onda que em outros países já toma forma. Na Bolívia e na Nova Zelândia, ou mesmo antes na Argentina, a busca por moderação tem rendido dividendos políticos a quem topar o desafio. Nas eleições municipais no Brasil, os candidatos com mais chances de serem eleitos nas principais capitais também tiveram de adotar postura moderada, tentando resgatar uma velha forma de fazer política, como é o caso de Bruno Covas (PSDB) em São Paulo.

Se é o fim da linha para quem queria botar fogo em tudo sem ter nada para colocar no lugar ainda é cedo para dizer. A História, como se viu de 2016 a 2020, é pendular. Antes disso é preciso, para começo de conversa, que Trump aceite fazer as malas e deixar a residência oficial. Talvez a resistência em aceitar a derrota seja uma forma de ganhar tempo. Talvez ele queria apenas adiar um encontro marcado com a Receita. Ou com a História. Talvez esteja apenas alimentando o ódio do seu eleitor mais fiel com a conversa de que foi trapaceando. É neste papel de vítima, o perseguido pelo “sistema”, que ele atua melhor. Pode ser só o começo para um ensaio de regresso em 2024.