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Como Joanesburgo tornou-se o centro de inovação da África

Foto: Getty Images

Por Matheus Mans

Joanesburgo é o motor econômico da África do Sul. Com 1 milhão de habitantes, a cidade é um dos centros financeiros mais importantes do mundo e responsável por 16% do produto interno bruto (PIB) do País africano. E agora quer se modernizar: está colocando a inovação dentro do governo, universidades e empresas.

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Impulsionada pela transformação da cidade, a África do Sul está crescendo em indicadores. Hoje, já ocupa o 67º lugar, nos índices de sofisticação do Global Competitiveness Index e o 57º lugar nos índices de inovação do Global Innovation Index. Em ambos os rankings, supera o Brasil e todos os seus vizinhos continentais.

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“Joanesburgo é conhecida como ‘cidade de ouro’ pro conta da mineração que ancorou a economia da cidade durante décadas”, contextualiza o pesquisador Leandro Souza, autor de um estudo sobre o impacto do empreendedorismo na economia africana. “Com o fim das reservas de minério, a região começou incentivar grandes empresas. Agora, as startups”.

De olho no privado

Joanesburgo possui um bom cenário de investimentos e aceleração partindo do governo e de universidades. Em 2018, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa criou um fundo de US$ 95 milhões para financiar pequenas e médias empresas no País. A Nelson Mandela Metropolitan University, enquanto isso, trabalha no gestão de novos talentos.

“A participação governamental é fundamental para gerar incentivos que possam melhorar o ambiente de negócios”, ressalta João Paulo de Moura Alves, chefe da divisão de política internacional da Câmara de Comércio Afro-Brasileira (AfroChamber). “Já a universidade é centrada na criação. É ponto germinador das inúmeras ideias com potencial transformador”.

Mas quem acaba com o papel central no desenvolvimento é o setor privado. Segundo o estudo South African Science, Technology and Innovation Report, publicado em 2017, a rede de venture capitals direciona seus investimentos principalmente em startups (47%). Já o growth capital vem logo em seguida, com 36%.

Além disso, o governo é responsável por uma pequena parcela dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (3%) da região. Assim, são os próprios empresários os responsáveis pelos maiores investimentos e fomentos dessa natureza no País (82%). De alguma forma, as empresas de Joanesburgo tomaram a dianteira na inovação africana.

“Se um país tem uma comunidade empresarial aguerrida, nem é preciso esperar vir incentivos dos céus. Ela própria compreende que precisa inovar para não morrer”, diz o economista Paulo Júlio, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS). “Isso ocorre principalmente nos emergentes. Os governos não têm dinheiro. O empresariado se mexe”.

Cenário de startups

O mercado de startups acabou se desenvolvendo de maneira diversa. Segundo o estudo VentureBurn Survey of 2018, 19% são focadas em desenvolvimento de software como serviço (Saas); 18% são fintechs ou insurtechs; e 13% voltadas para mídia, propaganda ou marketing.

“Na África do Sul, o ecossistema é bastante diverso, e não há concentração mercadológica ou setorial que sirva de entrave pro surgimento de empreendimentos”, afirma João Paulo, da Afrochamber. “Não só os grandes centros urbanos são beneficiados pelos fluxos de capitais, mas tem-se em vista igualmente populações suburbanas e trabalhadores rurais”.

Dentre os casos mais expressivos da região, está a IoT.nxt, de soluções para internet das coisas, comprada pela telecom Vodacom; a Stokfella, fintech para modernizar cooperativas de poupança informais; a i-Pay, para transferência eletrônica de fundos; e a Wumdrop, aplicativo de entrega de encomendas adquirido por empresas locais no fim do ano passado.

“A África do Sul lembra muito o Brasil, mas com uma situação econômica mais interessante”, diz Leandro Souza. “Se não tivéssemos passado pela crise que passamos, a gente estaria num patamar parecido. Há diversidade, há grandes empresários, boas universidades. Só faltou um momento econômico mais interessante para todos por aqui”.

Apesar do país africano estar acima do Brasil em rankings de inovação, as dificuldades são parecidas. Há centralização de iniciativas e, por vezes, falta articulação entre as partes interessadas no desenvolvimento de startups. A própria Afrochamber, por exemplo, vem trabalhando para que haja uma troca de experiência entre os países.

“Buscamos a promoção de uma maior sinergia entre as sociedades e as comunidades epistêmicas e empresariais dos dois lados do atlântico”, afirma João Paulo. “As perspectivas são positivas, mas é necessário acelerar as articulações entre os diversos atores para alavancar o ecossistema e as cidades inteligentes no continente africano”.