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João, do BBB 21: 'Me assumir para minha família foi muito tranquilo. Para maioria das pessoas LGBT, não é assim'

·10 minuto de leitura

Desde que saiu da vigésima segunda edição do Big Brother Brasil, no final de abril, João Luiz Pedrosa, 24 anos, tem falado que nunca vai deixar de ser professor. Mas agora, ele quer experimentar outras formas de continuar ensinando, mesmo fora da sala de aula.

Depois de participar da apresentação da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, transmitida online neste ano, João deve estrear como apresentador do programa Trace Trends, conteúdo voltado à cultura brasileira e afrourbana que será exibido semanalmente no Globoplay a partir do dia 23 de junho.

Na nova temporada, João Luiz irá apresentar o quadro “EducAção”, que mostrará histórias, projetos e iniciativas desenvolvidas por jovens das diversas periferias do Brasil, nas áreas de educação e ciência.

— Vamos discutir sobre várias coisas interessantes: moda, estilo, comportamento, educação. E construímos esse projeto junto com pessoas muito legais, numa plataforma que tem um alcance bacana. Eu to muito animado. Estou vivendo esse momento de me ver fazendo coisas diferentes — disse João, em entrevista à CELINA feita por chamada de vídeo em uma manhã de segunda-feira.

O professor que agora vive em São Paulo com o namorado, Igor Moreira, falava da sala da casa da mãe, em Minas Gerais. Ao longo do conversa, houve muita risada, mas também muito papo sério. Com um sorriso no rosto, João conta como foi parar no BBB, faz um balanço da sua participação no reality show, fala da importância da representatividade e do acolhimento para pessoas negras e LGBTs e revela se tem vontade de entrar para a política.

CELINA: Como tem sido essa vida depois do BBB?

João Luiz: É muito doido. Por que a minha vida muda completamente, né? Não tem uma mudança gradual da minha notoriedade e do que eu começo a representar. A mudança é brusca, rápida. Então, para mim, é um pouco assustador. Eu entro lá professor, com meus 1.300 seguidores, dando as minhas aulas, minha família me conhece. Aí eu saio com 3,5 milhões de seguidores, com as pessoas me conhecendo. A gente entra na casa das pessoas todos os dias e quando a gente sai do BBB e encontra as pessoas é uma sensação de aproximação interessante, muito legal. Tem sido um turbilhão de coisas acontecendo, mas nada negativo. Eu tiro saldo muitos positivos de tudo isso.

Já deu para sentir saudade de alguma coisa da casa? Do BBB?

Eu to sentindo falta de abraçar as pessoas. Dos momentos das festas, mas não da festa em si, e sim de poder ficar junto, compartilhar as coisas. As coisas tão comuns que a gente fazia antes, hoje eu sinto falta. E isso é uma coisa que já estava sentindo no ano passado, durante todo ano que fiz a quarentena. Isso de chamar um amigo para vir em casa e não precisar fazer todo um esquema de teste e cuidados para poder se encontrar. De poder tomar um café na rua.

Você disse que o programa te colocou num patamar diferente daquele que você tinha de representatividade. Mas estando lá, você tinha noção disso? Qual é o balanço que você faz da sua participação, agora olhando com uma certa distância?

Eu sinto que, pela primeira vez, talvez a gente possa construir juntos uma discussão um pouco mais ampla sobre educação. Isso é uma das coisas que hoje me move. É isso que eu quero fazer. Quero utilizar essa plataforma para discutir questões que me afetam e me tocam e que atravessaram, mesmo que tangencialmente, a minha formação enquanto pessoa. O Big Brother me deu essa oportunidade de pegar essas coisas que eu penso e discutir elas coletivamente com as pessoas e acho que esse é momento para gente fazer isso.

E como você foi parar no BBB? De onde surgiu a vontade de participar, de se inscrever?

Nas últimas quatro ou cinco edições eu me inscrevi e nunca fui chamado pra nada. E daí, dessa vez, eu fui chamado, fui passando em tudo e entrei. E eu sempre falava para os meus amigos: ‘um dia eu vou entrar no BBB’. E eles falavam: ‘aí João, tá bom, todo ano isso’. E todo ano eu fazia uma montagem, que era uma foto minha como se eu tivesse sido anunciado. E aí, nesse ano, mandaram para uma amiga a foto da chamada mesmo. E ela pegou o celular olhou e não deu bola. Não acreditou. Só foi acreditar quando se deu conta que a montagem tava muito boa (risos). Eu sempre imaginava entrar no BBB, me imaginava lá, no gramado, fazendo as provas.

E esse elencou foi o mais diverso da história do BBB. Quando você se deu conta disso, foi legal?

Foi muito interessante. Durante toda a trajetória, de 20 edições do programa, talvez essa seja a edição que mais tenha pessoas negras e LGBTs. E isso é muito legal, porque é um elenco que consegue representar, de alguma forma, não por completo, a diversidade que a gente tem no nosso país. E, principalmente, para mostrar que as pessoas negras não são iguais. Isso é interessante. A gente é colocado sempre na mesma caixa, e quando vê na TV pessoas negras completamente diferentes uma das outras, isso de alguma maneira quebra esse estereotipo que é construído. Fazer parte disso é muito legal.

Se a gente puder elencar um momento mais marcante da sua trajetória no BBB, talvez seja aquele em que você se levantou no jogo da discórdia e falou sobre o comentário do Rodolffo sobre o seu cabelo. Olhando para trás como você vê aquele momento? Imaginava que passaria por algo do tipo no BBB?

Não, a gente não imagina não. Até porque, não é o que a gente quer viver. Mas eu fico feliz e contente com a forma como eu conseguir fazer as coisas. Eu fui muito sincero comigo mesmo, sobre o que eu estava sentindo naquele momento. Eu prefiro pensar que, se eu não fizesse aquilo, eu não ficaria bem comigo, sabe? Porque a gente vivencia isso cotidianamente, então eu não queria viver, mas tive que viver, e vou continuar vivendo.

Talvez se você não tivesse se posicionado daquela forma, o próprio programa não teria se manifestado da forma que fez, que foi algo inédito. Diria histórico até...

Sim. Eu acho muito interessante que tenha acontecido aquele papo. Aquele momento, que a gente entra e que o Tiago faz aquele discurso, foi um momento de aprendizado, de reflexão sobre falas, sobre atitudes para muitas pessoas que estavam assistindo o BBB em casa. É muito interessante quando o programa assume esse compromisso e diz ‘vamos discutir sobre isso, porque a gente não quer que isso aconteça’. Acho que ninguém quer que isso aconteça num reality show. Mas acaba acontecendo. O discurso é um momento muito importante, significativo e sensível.

Foi apontada aqui fora a ausência da palavra ‘racismo’ no discurso do Tiago. Ainda é difícil nomear isso?

Acho que existe isso, mas não acho que foi o caso específico naquele momento. Porque eu vejo muita sinceridade no que o Tiago fala naquele discurso. É muito interessante, pois foi ele buscar coisas para ensinar. Ele cita o Babu [Santana], falou que não era ele que tava dizendo aquilo sobre o black power, mas o Alexandre Santana. Isso é muito importante. Acho que foi um momento para pegar para refletir, no sentindo de ‘vamos tentar entender o que a aconteceu e explicar para as pessoas o que isso significa.’

Acho que existe mesmo essa dificuldade [de nomear o racismo], não vou negar. Mas não é uma dificuldade do programa, é uma dificuldade da sociedade. E como resultado final, eu gosto muto do que ele fala naquele discurso. Eu me senti abraçado por ele naquele momento e senti que ele abraçou as outras pessoas também.

A fala da Camilla [de Lucas] também foi forte...

Sim, porque ela fala muito desse cansaço. Desse sentimento de exaustão. E ele é recorrente. A gente vivencia isso cotidianamente. Então é bem difícil. Porque nem sempre a gente está afim ou com saúde mental de ensinar. É um desgaste emocional ficar explicando. Quando o Tiago faz isso, ele teoricamente faz o que a gente está cansado de fazer. E isso é muito interessante, porque é assumir realmente um compromisso, uma responsabilidade. E não é só ele que tem que assumir esse compromisso. É todo mundo.

Em um vídeo recente com a youtuber Bianca Dellafancy, você conta que revelou sua orientação sexual para os seus pais quando tinha 14 anos. Foi um processo tranquilo para você?

Os meus pais são pessoas muito legais. Quando eu estava na escola, meus pais eram os ‘diferentões’. Minha mãe é professora, meu pai é metalúrgico e teve uma trajetória construída no movimento negro. Eu cresci dentro de uma estrutura familiar — e quando eu digo estrutura, não to falando desse padrão de família que hoje imaginam que a gente tem que ter — de respeito muito grande.

Quando eu vou me assumir para minha família, é algo muito tranquilo, é uma conversa como se tivesse que falar que tenho que levar cartolina pra escola no dia seguinte. Não mudou em nada a relação. E isso é uma coisa que as pessoas LGBTQIA+ sempre vão vivenciar. Essa mudança no trato da família depois de se assumir, porque a gente acha que sexualidade e família precisam caminhar em caminhos opostos. Foi um processo muito tranquilo para mim.

Então as coisas que eu vivencio, são fora da minha casa, porque a minha casa é um espaço seguro. E para a maioria das pessoas LGBT, não é assim. As coisas que eu vivencio fora de casa, eu consigo trazer para os meus pais e eles me ajudam. E talvez por isso eu tenha desenvolvido esse traço da minha personalidade de não querer ver as pessoas mal, porque toda vez que eu estive mal, meus pais me ajudaram. E eu via os meus outros amigos mal e eles não tinham isso em casa. Muitas vezes era meu pai e minha mãe que ajudavam.

Quando decidiu que queria ser professor?

Olha, não sei. Não mesmo (risos). Minha família tem muitos professores então a educação sempre atravessou minha casa. Eu sempre gostei de estar na escola. Tive um professor de geografia que eu gostava. Aí quando fui me inscrever no vestibular, escolhi geografia e nem titubeei. Foi meio orgânico.

E como é o João na sala de aula?

Ele é bem legal. Eu gosto dele (risos). Eu estabelecia, até o último ano, uma relação com os meus alunos que era muito interessante. Muita gente fala que professor não é amigo de aluno, mas eu era amigo dos meus alunos, sim. Acho que, quando a gente estabelece essa relação, as coisas são mais fáceis. Os alunos do sexto ano, que eram mais baixinhos, por exemplo. Eu nunca conversava com eles de pé. Abaixava no nível deles para gente conversar no mesmo nível. A gente tem que tomar esse cuidado com as crianças.

E é claro que tinha os momentos divertidos, mas pelo fato de eu não tratar meus alunos com uma certa autoridade e estabelecer que a gente esta ali aprendendo junto, foram poucos os momentos que eu precisei usar da autoridade para conseguir alguma coisa.

Você tem falado muito que vai continuar sendo professor, de alguma forma né? De que forma você quer usar a tua plataforma para educar?

Quero encontrar alguma maneira para continuar utilizando as plataformas que tenho construído para discutir essas coisas que eu acredito que a gente precisa conversar. E também falar sobre as coisas que me divertem, séries, músicas, filmes, lançamentos, premiações. Coisas que eu já fazia antes, sabe? Vou conversar sobre esse mundo do entretenimento, mas também discutir sobre educação, sexualidade, raça, e por aí vai.

Tem vontade de entrar na política?

Pensando no que temos hoje, não. Acho que preciso pensar melhor sobre muitas coisas. Mas acredito que a política não é só essa ligada às eleições. Nós somos instrumentos políticos o tempo todo. E a gente pode construir essa movimentação política e coletiva de várias formas.

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