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‘Jesus virou moeda de troca para políticos fundamentalistas’, diz mãe Beth de Oxum

Alma Preta
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Em Olinda, no Pernambuco, a ialorixá desenvolve uma série de projetos para valorizar a negritude e ampliar as chances de um futuro melhor para a população mais pobre; este ano, pela primeira vez, ela é candidata à Câmara dos Vereadores. Foto: Lua Rocha
Em Olinda, no Pernambuco, a ialorixá desenvolve uma série de projetos para valorizar a negritude e ampliar as chances de um futuro melhor para a população mais pobre; este ano, pela primeira vez, ela é candidata à Câmara dos Vereadores. Foto: Lu Rocha

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Olinda é uma cidade com uma população estimada em 393 mil pessoas e uma renda per capita de R$ 13,9 mil, valor 2,2 vezes menor do que a renda per capita de Recife (R$ 31,7 mil), que fica a menos de 9 km de distância.

Mãe Beth de Oxum é Ialorixá do Ilê Axé Oxum Karê, da nação Nagô, conhecido como terreiro da Umbigada, vive em Olinda e luta para manter as tradições afro-indígenas e desenvolver políticas de melhoria de vida para a população pobre da cidade com foco na cultura, na ancestralidade e no compartilhamento do conhecimento tecnológico. Há 25 anos, ela e o companheiro Quinho preservam a tradição do coco, como ferramenta de conscientização e união.

“O brinquedo do coco ficou parado por mais de 30 anos. Não tinha políticas públicas para a cultura. A igreja começa a cooptar as pessoas mais velhas, enfim, o brinquedo começa a morrer. Em Pernambuco, os brinquedos são muito importantes porque trazem pertencimento e identidade com a cultura negra, a cultura indígena e a cultura afro-indígena”, explica a ialorixá.

As tradições ancestrais do coco, do afoxé, do cavalo marinho, maracatu de baque solto, maracatu de baque virado, segundo mãe Beth, são importantes na articulação e mobilização social das comunidades negras e periféricas.

“A nossa cultura foi perseguida. Até hoje convivemos com a intolerância do Estado. Há menos de 50 anos era proibido na lei tocar as loas de maracatu, os avós para tocar o coco tinham que pedir autorização para a polícia. É um racismo estrutural pesado, no Brasil, que não reconhece essas matrizes negras e indígenas e as trata como perigosas e criminosas”, conta.


Mãe Beth lembra que essa perseguição é resquício da construção histórica da exploração dos negros. “A capoeira era vadiagem, três negros juntos era vadiagem no tempo da coroa. A elite branca sempre foi perversa e racista com o nosso povo e com os nossos terreiros. Tá aí até hoje”, destaca a ialorixá, que também é percussionista.

Dados confirmam os argumentos de Mãe Beth. Em Olinda, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que aponta o nível de qualidade de vida e pode variar entre zero e 1, é de 0,735, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A mortalidade infantil é de 10,23 para cada grupo de mil nascidos vivos.

Desde 2004, a ialorixá desenvolve projetos para mudar essa realidade a partir da cultura e de redes solidárias e independentes. Ela criou oficinas de música, em parceria com as escolas, e há 12 anos fundou a rádio Amnésia, com a rede Nordeste Livre, pela democratização da comunicação.

“A rádio tem poder. Ela forma ou deforma opinião. A rede é formada por muitos jornalistas negros do nordeste que criam um contraponto ao monópolio da comunicação que está nas mãos da elite branca”, sustenta. Outro projeto importante é o Lab Coco, que desenvolve jogos inspirados na cultura africana dos orixás e oficinas de tecnologias com softwares livres.

Mãe Beth de Oxum no bairro de Guadalupe, em Olinda. Foto: Lu Rocha
Mãe Beth de Oxum no bairro de Guadalupe, em Olinda. Foto: Lua Rocha

Fundamentalismo religioso

Em 2020, pela primeira vez, mãe Beth de Oxum vai disputar uma cadeira na Câmara dos Vereadores de Olinda. Além de dar continuidade às ações de valorização da população negra e de democratização da cultura, ela promete combater a intolerância e o racismo.

“Antes, a sociedade era mais tolerante. Quando tinha festa em terreiro, o arroz doce e o mungunzá eram distribuídos na rua e pessoas de todas as religiosidades comiam. Hoje existe um terror, um preconceito. Hoje tem acarajé de Jesus, bolinho de Jesus, capoeira de Jesus, maracatu de Jesus. Isso é apropriação indevida da cultura africana. O maracatu tem que ter orixá, o acarajé é uma comida seca de Iansã. Tem uma história e uma oralidade”, conta.

Mãe Beth destaca que existe um projeto de dominação política e social por trás desses ataques à cultura africana. “Jesus foi e é maravilhoso. É uma luz no mundo, mas ele não é essa mentira, essa moeda de troca que essa bancada fundamentalista coloca. Ele não é moeda de troca de rádio, de TV e de voto. É uma estratégia para encher as casas legislativas de pastores fundamentalistas. A maioria homens, brancos e ricos”, considera.

A mãe de santo diz que para atingir os objetivos de dominação, os fundamentalistas religiosos distorceram a história de Jesus.

“Eles falam que é preciso ganhar dinheiro, vendem o sonho da prosperidade individual. Eles ficam 24 horas nas TVs e rádios dizendo às pessoas que se você tem uma bicicleta e entra na igreja, vai ter um carro, depois um ônibus, depois um caminhão e depois um avião. Isso é mentira. Se Cristo viesse hoje, ele estaria dentro dos presídios, nos hospitais públicos, nas favelas. Ele estaria, e de fato está, onde estão os excluídos, que é o seu principal ministério”, salienta.

Se eleita vereadora, Mãe Beth também pretende dar voz a participação das mulheres na política, com destaque para as mulheres negras, para mudar a lógica da tomada de decisões. “É a hora de tomar esse poder e fazer as coisas diferentes. Ocupar o legislativo com os dois pés e tirar os pastores fundamentalistas”, afirma.

Olinda tem 17 vagas de vereadores. São 15 homens e duas mulheres. “Não temos representação. É pouca a representação, é pouca a diversidade. Podemos construir um projeto para que Olinda vire uma cidade cultural. Olinda é uma cidade cinzenta, sem cor, eles [a elite branca no poder] defendem uma igreja de 100 anos, mas não defendem um terreiro, acham que o terreiro não é patrimônio, isso é racismo estrutural”, finaliza a ialorixá.