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Japão corre atrás do próprio rabo ao intervir no iene

Telão em Tóquio mostra cotação do par dólar/iene

Por Vidya Ranganathan

CINGAPURA (Reuters) - Ao intervir nos mercados de câmbio pela primeira vez em décadas para defender um iene desgastado, o Banco do Japão (BOJ, na sigla em inglês) está enfrentando vários obstáculos, principalmente seu próprio compromisso obstinado com configurações monetárias ultrafrouxas.

As compras repentinas de ienes pelas autoridades japonesas na quinta-feira --a primeira intervenção cambial desde 1998-- causou um grande movimento de 6 ienes, entre 140 e 146, na taxa de câmbio dólar-iene.

Ao final do dia agitado, que também viu os mercados digerirem uma alta agressiva da taxa do Federal Reserve e uma promessa do Banco do Japão de manter as taxas negativas, os investidores não estavam menos pessimistas em relação ao iene, que se desvalorizou quase 20% até agora este ano.

“É bastante simbólico no sentido de que esta é a primeira vez desde 1998, mas não acho que será eficaz para reverter a tendência do iene”, disse Vincent Tsui, analista de Ásia da Gavekal Research em Hong Kong.

Dado um histórico de deflação, o desejo do Banco do Japão de manter as taxas baixas até ver aumentos de preços estáveis ​​e saudáveis ​​o tornou "dove" (instituição de posicionamento menos inclinado ao aperto monetário) solitário este ano, enquanto outros grandes bancos centrais globais aumentam agressivamente as taxas para conter a inflação crescente.

As taxas de juros dos EUA agora estão 3 pontos percentuais mais altas que as do Japão.

Mas a política do BOJ está em desacordo mesmo em casa, com o governo preocupado com o impacto de um iene fraco nos preços da energia e na confiança do consumidor, e com seus investidores pessoas físicas, com reservas de caixa ociosas no valor de mais de 1.000 trilhões de ienes (7,04 trilhões de dólares), prontos para caçar ativos de melhor rendimento no exterior.

O presidente do banco central Haruhiko Kuroda deixou claro que a política monetária não mudará, e até mesmo o iene que o BOJ está comprando como parte da intervenção será substituído.

Enquanto o BOJ tiver uma política de controle da curva de juros, qualquer aperto monetário causado pela intervenção de compra de ienes será neutralizado, disse ele na quinta-feira, referindo-se às consistentes operações semanais de compra de títulos do BOJ para limitar os rendimentos.

Brendan McKenna, economista internacional e estrategista de câmbio da Wells Fargo Securities, aponta como, mesmo com a intervenção, os rendimentos dos EUA subiram cerca de 6 pontos-base no dia e os rendimentos do Japão caíram, gerando uma cunha maior nas taxas de juros e dando aos mercados ainda mais razões para se livrar do iene.

"O fato de a intervenção ter sido unilateral e ter acontecido no mesmo dia de uma reunião 'dovish' do Banco do Japão evidencia as grandes contradições internas", disse o chefe de estratégia cambial do Deutsche Bank, George Saravelos, em nota.

(Reportagem adicional de Bansari Mayur Kamdar em Bengaluru,Leika Kihara em Tóquio, Tom Westbrook e Rae Wee em Cingapura)