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Com saída de Onyx e convite a general, Bolsonaro tenta reformar base avariada de seu tripé

Onyx Lorenzoni e Jair Bolsonaro durante evento. Foto: Adriano Machado/Reuters

Na primeira leitura sobre a montagem do governo Bolsonaro, capitaneado por um deputado que em quase 30 anos como parlamentar havia aprovado um total de 0 projetos de interesse nacional,  uma espécie de choque de credibilidade seria construído a partir de um tripé cujas bases eram emprestadas por Paulo Guedes, na Economia, Sergio Moro, na Justiça e Segurança Pública, e pelos generais, entre eles Carlos Alberto dos Santos Cruz, militar mais admirado da caserna que assumira a Secretaria do Governo.

Mais de um ano se passou. Guedes, que num dia diz que pobre não sabe poupar, no outro diz que pobreza leva à devastação, no outro chama servidor de parasita e no outro diz não ver problema na alta do dólar porque antes até empregada podia ir à Disney, só não é vaiado ainda em aeroporto porque a atividade econômica apresenta tímida e leve melhora, em que pese alguns indicadores, entre eles o próprio câmbio e a queda no varejo em dezembro, apontarem o sinal amarelo.

Moro caiu na Vaza Jato, acumulou derrotas no Congresso e no Supremo, e passou mais tempo explicando o que fez no verão passado do que justificando sua presença no Planalto. Quando o fez, ganhou um gelo do presidente que não aceita nada menos do que fidelidade canina de quem o venceria em uma hipotética corrida à Presidência em 2022; entre tapas e beijos, prefere manter o (por enquanto aliado) com uma cenoura amarrada na corda com a inscrição “STF”.

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Enquanto os dois primeiros pés envergavam sem quebrar, o terceiro começou a ser chutado em público pelo presidente, seus filhos e seu guru, Olavo de Carvalho ainda no primeiro ano. Até aqui, um total de seis militares haviam deixado o governo, entre eles Santos Cruz e Maynard Marques de Santa Rosa, da chefia da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Este se queixava de falta de acesso ao presidente, que assinava documentos sem entender e estava cercado por “um grupo de garotos entre 25 e 32 anos que fazem uma espécie de cordão magnético em torno dele”, como confidenciou ao colunista Chico Alves, do UOL.

Aos poucos, ficava claro que este grupo, entre tuítes e brigas ideológicas, havia tomado o comando do barco, enquanto o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), arregaçava as mangas para aparar arestas e botar as reformas para andar. 

Não se sabe qual foi exatamente a contribuição de Onyx Lorenzoni, parlamentar do baixo clero que se perdoou por uso de caixa 2 e assumiu a Casa Civil, na tarefa de carregar o piano de projetos como o da Previdência, mas, até onde se sabe, ele nunca foi exatamente uma figura de prestígio nem no governo nem no Congresso onde deveria transitar. Foi perdendo espaço, sobretudo depois que seu número 2 pegou voo da FAB para viajar pela Europa, e lá ficou como sempre esteve até ontem, quando foi realocado para a pasta da Cidadania, empurrando Osmar Terra, que em um ano só chamou a atenção para esgoelar contra a liberação de maconha medicinal, para fora do governo.

Para o lugar de Onyx, Jair Bolsonaro abre espaço no governo para outro general quatro estrelas, Walter Souza Braga Netto. Atual chefe do Estado-Maior do Exército, ele atuou, em 2018, ainda sob o governo Temer, como interventor na segurança pública do Rio.

Ele será o primeiro militar a assumir a Casa Civil desde Golbery do Couto e Silva, que ocupou o posto no governo Geisel.

O reforço parece reformar ao menos uma das bases avariadas no primeiro ano de governo em um momento em que a opinião pública se pergunta até onde iam, além das homenagens e emprego de parentes em gabinete, as interações da família Bolsonaro com um miliciano morto em troca de tiros com a polícia na Bahia.

Nas análises mais apressadas há quem se anime com a possibilidade de o presidente que deixou a porta dos fundos do Exército ser finalmente tutelado pelos auxiliares de alta patente. Os primeiros meses de gestão já mostraram que a expectativa é apenas expressão de desejo.