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Vai pro Japão, Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima /AFP via Getty Images

Só de sacanagem, alguém abriu no ônibus lotado o vídeo em que o Alexandre Garcia dizia que em dez anos uma população como a japonesa transformaria o Brasil em potência.

O exercício de imaginação foi proposto em uma palestra: e se os japoneses desembarcassem aqui e mandássemos os brasileiros para lá? Sobre a segunda hipótese, o jornalista arrancou risos da plateia ao dizer que não queria nem imaginar o que aconteceria no arquipélago. Provavelmente um grande carnaval, onde as sinapses dos foliões entrariam em curto-circuito com dois estímulos, para ele, contraditórios: use camisinha e evite o assédio. 

Aqui, em compensação, bastaria trocar a população para que o Brasil finalmente decolasse. 

O problema, conclui-se, eram os brasileiros, já nascidos com o vírus da baixa inclinação ao trabalho, e não o Brasil.

Os brasileiros que passaram uma hora de deslocamento no ônibus para chegar ao trabalho e outra hora e meia, com o trânsito, para voltar, mandaram lembranças ao antigo conselheiro Acácio da TV aberta, em referência ao personagem de Eça de Queiroz conhecido pelo truísmo das palavras que tinham muito enfeite e quase nada de conteúdo.

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Até aí, jogo jogado, diria Elio Gaspari -- aliás, quem se lembrar de alguma pensata do ex-porta-voz do Figueiredo que tenha sobrevivido aos gols da rodada no bloco seguinte ganha uma passagem só de ida para Tóquio.

O problema é que a fala foi compartilhada por Jair Bolsonaro, presidente patriota que convidou seus seguidores a ouvir e compartilhar muitas vezes as frases que desancavam seus governados.

Pois foram esses governados incapazes de transformar o Brasil em potência que transformaram em presidente o deputado incapaz de aprovar um único projeto em 28 anos no Parlamento.

Já que o tema é produtividade, alguém poderia avisar o presidente que a guinada do Japão no século passado foi marcada pela desmilitarização e pela democratização ao fim da Segunda Guerra Mundial, duas bandeiras que, presume-se, o capitão que defende com unhas, dentes e arminha com a mão os 21 anos de ditadura militar teria dificuldade em abraçar, embora os artífices da guinada tenham sido os EUA, um aliado em comum.

Talvez Bolsonaro, que recentemente reclamou que livros didáticos eram um amontoado de palavras, prefira falar sobre os investimentos dos japoneses na universalização da educação, em ciência e em tecnologia ou dos índices de desigualdade de um lugar e de outro. Isso se algum terraplanista do seu entorno não convencê-lo de que a distância de resultados é meramente uma propensão moral.

De tudo, o que é mais simbólico do episódio não é a admiração por um país considerado modelo, e sim que essa admiração seja manifestada por quem melhor representa o arcaísmo de seu próprio país -- um país sistematicamente boicotado por quem tem os pés no atraso e a cabeça nos tempos do Brasil-colônia. 

Mudar a mentalidade escravocrata pode ser um bom começo para quem quer fazer frente com os anseios do século 21.