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Acabou a corrupção no Brasil. Alguém avisa o Queiroz?

Matheus Pichonelli
·4 minutos de leitura
BRASILIA, BRAZIL - SEPTEMBER 16: President of Brazil Jair Bolsonaro speaks during the ceremony in which Eduardo Pazuello takes office as Minister of Health amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the on September 16, 2020 in Brasilia. Pazuello took over as interim minister on May 16 this year. Brazil has over 4.382,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 133,119 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro,que acabou com a corrupção no Brasil. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

A remuneração bruta mensal mais baixa entre os ministros de Jair Bolsonaro é de R$ 30.934,70. Era o valor que pingava religiosamente nas contas de Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub, os dois primeiros ministros da Educação do novo dia do novo tempo que começou.

Juntos, eles passaram um ano e meio em Brasília ao custo aproximado de R$ 500 mil, o equivalente a 14 cheques que algum assessor metido em confusões eventualmente possa depositar por engano nas contas de nossos cônjuges.

Ganha um visto especial para entrar nos EUA e fugir da cadeia quem lembrar o que, além de bravatas, Vélez e Weintraub fizeram pela educação brasileira.

Como lembra insistentemente o jornalista Elio Gaspari em suas colunas, foi na gestão Weintraub que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou, em agosto de 2019, que realizaria um pregão eletrônico para a compra de 1,3 milhão de computadores, notebooks e laptops ao custo de R$ 3 bilhões. A compra só foi cancelada porque a Controladoria-Geral da União apontou “inconsistências” no edital. Por sorte, alguém da CGU achou de bom tom perguntar o que fariam os 255 alunos de uma escola do interior de Minas Gerais com 30 mil laptops. E por que 355 escolas receberiam mais de um laptop por aluno.

Até agora ninguém se responsabilizou pelo jabuti.

Há quase dois anos o público banca os salários de um ministro do Meio Ambiente que passa mais tempo nas redes ou em carros de boi do que dobrando a barra das calças para impedir os estragos das queimadas na Amazônia e no Pantanal. E uma ministra dos Direitos Humanos que atua em horário comercial como crítica de cinema e de moda. Banca também um intocável ministro do Turismo investigado em um esquema de candidaturas laranjas.

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Certamente não saiu de graça a propaganda com alegorias nazistas protagonizada por um agora ex-secretário de Cultura. Nem a estadia em Brasília de uma atriz global cuja contribuição maior ao setor foi minimizar as mortes por coronavírus e por tortura ao longo da História.

Desde que assumiu, Bolsonaro tem ampliado o bolo da verba publicitária a emissoras claramente domesticadas em relação à cobertura do Executivo. Sócio de uma empresa de comunicação com contrato com algumas dessas emissoras, o chefe da Secretaria de Comunicação chegou a ser alvo de um inquérito da Polícia Federal para apurar possíveis crimes de corrupção passiva, peculato e advocacia administrativa.

No governo, ninguém sabe ninguém viu como verbas públicas para publicidade irrigaram sites de fake news, jogo do bicho e canais de YouTube engajados em bajular o presidente. Só os canais de um blogueiro que relaciona masturbação a mortandade de neurônios recebeu 1,5 mil anúncios.

Em sua saída da Secretaria do Governo, o general Carlos Alberto Santos Cruz manifestou indisposição justamente a ceder verbas publicitários para blogs aliados do bolsonarismo.

No auge da pandemia, Jair Bolsonaro quis mudar o comando da PF alegando perseguição a seus filhos e aliados. Sergio Moro, então superministro da Justiça, não concordou e deixou o posto acusando o presidente de interferência indevida na corporação. O caso está na Justiça, onde o presidente pede agora para depor por escrito.

Ainda na pandemia, Bolsonaro usou dinheiro público para comprar, fabricar e divulgar os benefícios milagrosos de um medicamento de eficácia descartada enquanto fritava seu ministro da Saúde ou mantinha no posto um titular que admite agora não saber nem o que era o SUS. Os mortos já passam de 150 mil.

Eleito com discurso agressivo contra a corrupção, Jair Bolsonaro declarou na quarta-feira 7 que acabou com a Lava Jato porque os serviços prestados pelos procuradores da força-tarefa não são mais necessários, já que em seu governo não existe mais corrupção.

Nem em Brasília nem em Atibaia, onde um ex-assessor responsável por distribuir verbas de funcionários dos gabinetes de sua família foi encontrado pela polícia na casa de um advogado do clã. O mesmo advogado recebeu recentemente R$ 10 milhões de um frigorífico em uma causa que nem as melhores bancas conseguem explicar.

Explicar para quê?

No novo Brasil, corrupção é a erva que brota apenas na grama vermelha do vizinho. Na grama e nos ervanários pintados de verde e amarelo brotam apenas patriotismo ou enriquecimento por mérito próprio. Quem discorda é comunista.